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Vítima de seita que mantinha escravas sexuais retoma sua voz em série

A americana India Oxenberg, 29, vítima de seita sexual - Divulgação
A americana India Oxenberg, 29, vítima de seita sexual Imagem: Divulgação

Mariane Morisawa

Colaboração para Universa, de Los Angeles

31/10/2020 04h00

Durante sete anos, a americana India Oxenberg esteve nas garras do culto NXIVM, em que foi afastada de sua família, obrigada a seguir uma dieta restritiva para parecer uma garota de 12 anos, estuprada, transformada em escrava sexual e marcada como gado com as iniciais do líder da seita, Keith Raniere.

As artimanhas do NXIVM (pronuncia-se nexium) e a luta de sua mãe, a atriz Catherine Oxenberg, para libertar a filha já haviam sido mostradas na série "The Vow", que estreou em agosto na HBO. Mas agora chegou a hora de a própria India contar a sua versão da história, na minissérie documental "Seduced: Inside the NXIVM Cult", que estreia na plataforma de streaming Starzplay no próximo dia 15 de novembro.

"Era muito importante para mim tomar de volta minha vida e ter minha própria voz", diz India, 29, em entrevista a Universa via Zoom. "Você vai me fazer chorar porque estou tão agradecida de ter essa oportunidade de contar a minha verdade. Por muito tempo, eu não tive essa chance."

A conversa com India e sua mãe aconteceu cinco dias antes da audiência de leitura de sentença de Raniere, 60, que, no último dia 27 de outubro, foi condenado a 120 anos de prisão. A condenação, por exploração sexual, inclusive de criança, roubo de identidade e formação de quadrilha, entre outros crimes, já havia saído em junho de 2019. Mas a sentença só foi anunciada agora.

India estava nervosa porque encararia seu estuprador frente a frente. "Eu estou rezando muito. E trabalhando no meu testemunho. Já escrevi três e sempre acabo rasgando porque tem de estar certo. Eu preciso fazer isso para ter algum tipo de conclusão", disse India, que torcia pela pena perpétua.

"Se ele for solto, vai continuar maltratando pessoas. Ele é controlador até mesmo de dentro da prisão", afirmou ela. Seguidores de Raniere chegaram a dançar na frente da penitenciária onde ele está. No dia 27, India foi uma das mulheres a ter a chance de enfrentar Raniere e contar sua história. E teve o resultado que esperava.

"Abuso sexual não parecia sexual"

India sabe que assistir a uma série sobre abuso sexual não é fácil. "É muito incômodo", diz ela, que viu o máximo de séries e filmes sobre cultos e predadores sexuais que pôde. "Achei importante porque você percebe que há semelhanças na maneira de agir e então pode ficar mais atenta."

A história dela mostra como abuso sexual não tem a ver necessariamente com sexo, mas com poder e dominação -não à toa, os predadores e líderes de cultos costumam ser homens narcisistas incapazes de ter empatia. "Uma das coisas que me deixava muito confusa é que o abuso sexual não parecia sexual para mim", diz. Foi só depois de conversar com uma terapeuta que ela soube que há também outros tipos de estupro, incluindo o psicológico.

"Eu acho que é difícil para as vítimas perceberem isso. Para mim, foi muito importante chamar pelo nome correto, sem tentar minimizar. Os abusadores querem que você minimize na sua cabeça." A mãe de India acrescenta que é preciso muita coragem para enfrentar o assunto sem rodeios. "Porque em geral a vítima carrega o peso do crime que ela não cometeu, que são a vergonha e a culpa."

Mãe carregou culpa de ter levado filha ao culto

No caso de India e Catherine, o relacionamento entre mãe e filha também sofreu por causa de Raniere e do NXIVM. "Tivemos de trabalhar muito e reaprender a confiar uma na outra, porque foram anos da minha vida que causaram muito dano à nossa relação", disse India. "Mas hoje temos ainda mais amor e respeito uma pela outra. Tivemos de lutar pelo nosso amor."

Catherine, que carregou durante muito tempo a culpa de ter levado a filha à primeira reunião do NXIVM, que posava como um seminário de autoajuda, hoje sabe que esse é o modus operandi de seitas e predadores em geral.

"Eles fizeram India se sentir fraca por ter proximidade de mim. Queriam que sua lealdade fosse total ao grupo." Esse é um dos alarmes que devem soar na cabeça de qualquer pessoa. "Se você está num relacionamento com alguém que tenta te controlar e te isolar, não é saudável", diz Catherine.

O objetivo da série é justamente apontar os sinais de alarme no relacionamento com uma pessoa ou grupo. "[Um dos sinais é] se alguém tenta mudar o que você pensa de si mesma e de outras pessoas para benefício próprio, por exemplo. E um sujeito aleatório que não te conhece não vai saber o que é melhor para você", diz India. Para Catherine, é bom ter cuidado com alguém que só vive elogiando e dizendo quanto você é especial. "Eles fazem isso e depois, quando você está emocionalmente envolvida, começam a criticar e a te colocar para baixo."

"Ele manchou confiança que mulheres têm umas nas outras"

Muitas vezes, esses homens, como Jeffrey Epstein (bilionário americano acusado de ter abusado de dezenas de garotas menores de idade) ou Keith Raniere, cercam-se de mulheres que ajudam a recrutar as vítimas. No caso de Raniere, seu braço-direito era a suposta terapeuta Nancy Salzman. E quem recrutou India para o DOS, o grupo secreto dentro do culto em que havia abuso sexual e marcação a ferro quente, foi a atriz Allison Mack, mais conhecida por sua participação na série "Smallville".

"Mulheres confiam em mulheres", diz India. "E uma das coisas mais tristes e nojentas que Keith fez foi manchar a confiança que as mulheres têm umas nas outras." É por isso que homens assim são tão perigosos. "Sua crueldade e sadismo acabam escorrendo para as pessoas abaixo, é como um câncer que se espalha", diz Catherine.

Depois de finalmente deixar o NXIVM, India colaborou com as investigações durante meses. Foi preciso coragem, muita terapia e amor para chegar onde está hoje. Hoje, ela está noiva e passa a pandemia perto da família. "Minha vida está boa", diz. Sua esperança é a de que a minissérie e o livro que está lançando ajudem outras mulheres.

"É preciso se livrar da vergonha e do julgamento e compartilhar porque é muito doloroso viver com vergonha. É isso que os predadores querem. Você não precisa viver assim." Não que seja fácil. "Claro que há dias que são duros, que quero chorar o tempo todo. E outros em que me sinto empoderada e motivada. É um processo. Ainda estou me recuperando e aprendendo."