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Minha história

"Meu marido me largou quando o filho nasceu com paralisia. Virei supermãe"

Edilma Canário e o filho Matheus - Arquivo pessoal
Edilma Canário e o filho Matheus Imagem: Arquivo pessoal

Edilma Canário dos Santos em depoimento a Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

30/10/2020 04h00

"Engravidei de Matheus quando eu tinha 15 anos. E ele nasceu quando eu fiz 16. Foi uma gestão normal e tranquila. No dia 23 de julho de 1998, às 17h30, meu filho veio ao mundo. Esperava um filho saudável, como todas as mães aguardam. Porém, entendo que esse não era o plano de Deus. Mas ele me presenteou com um anjo. Hoje, como uma dona de casa de 38 anos, mostro a rotina de ser mãe de uma criança especial no Instagram Uma Super Mamãe e já tenho mais de 10 mil seguidores.

No nascimento de Matheus, quando fui dar à luz, tentaram um parto normal. Quando decidiram pela cesárea, faltou oxigênio no lado esquerdo do cérebro do meu filho, causando paralisia cerebral.

Passamos seis meses internados na maternidade, em Natal (RN). Digo passamos porque, naquela época, a mãe precisava estar presente com o bebê 24 horas. Quando o pai de Matheus ficou sabendo sobre a deficiência, nos abandonou. Não quis nem registrar o filho. Disse que não queria ser pai de um doido ou aleijado. Assim começou a minha luta com o meu filho.

Virei mãe e pai aos 16 anos. Aprendi a ser forte. Meu filho foi rejeitado pela família paterna, mas nós não deixamos isso nos derrubar.

Um olhar mudou tudo

Quando o médico falou sobre a paralisia, pensei em desistir. Deram apenas 15 dias de vida para ele. Imaginava deixá-lo com minha mãe e sumir no mundo. Era muito nova, uma adolescente. Fiquei sem chão porque a gravidez ocorreu normalmente e eu imaginava meu filho correndo e brincando. Vieram as dúvidas sobre se eu saberia como cuidar dele.

O que fez com que eu não desistisse foi quando eu o peguei no colo pela primeira vez, aos dois meses, depois que ele saiu do coma. Eu o carreguei nos braços. Matheus abriu os olhos e olhou para mim. E não pensei em mais nada de ruim.

Quando saímos do hospital, à época, minha mãe era casada com uma pessoa que não gostava do choro de Matheus. Meu filho sentia muitas dores e isso o incomodava. Quando ele tinha oito meses de vida, passamos a receber um auxílio do INSS [Instituto Nacional de Seguridade Social] e alugamos um canto para morar. Apenas nós dois e Deus. Eu ainda tinha 16 anos.

Vivi de aluguel até minha mãe falecer, em 2013. Ela deixou uma casinha como único bem. Era pequena, mas agradeço até hoje porque pelo menos saímos do aluguel. Tenho o sonho de conseguir outra casa sem muitas escadas para andar com o Matheus, pois a nossa é construída em um beco e tem muitos degraus.

Na casa, hoje, moramos eu, Matheus e minha filha, Júlia Camile, de 19 anos, que sonha em ser assistente social motivada pela condição do irmão. Ela fez o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] no ano passado, mas não conseguiu a nota. Vai tentar de novo. Enquanto isso, também procura emprego e me ajuda bastante dentro de casa.

Cheguei a fazer algumas faxinas anos atrás, mas não deu certo porque, toda vez que eu trabalhava, tinha que levar o Matheus, já que minha filha seguia para a escola. Isso ajudava a manter a casa.

Atualmente, nós três vivemos do benefício do INSS, da pensão alimentícia de Matheus e de doações que chegam por causa do Instagram. Foi ali que uma seguidora marcou um site de histórias inspiradoras que fez uma vaquinha para reformar a minha casa e dar mais acessibilidade ao meu filho. Comprei móveis porque até então não tinha nada, tanto que Matheus dormia apenas em cima de um colchão.

Dia a dia e inspiração nas redes

Criamos o Instagram (https://www.instagram.com/umasuper_mamae/) em 6 de maio de 2018. Minha filha perguntou o que eu achava de mostrar a rotina de Matheus. Concordei e passamos a publicar nosso dia a dia. O apelido "supermãe" foi criado por ela, pois sempre disse que me via assim.

O perfil também tem a intenção de transmitir uma mensagem. Eu sempre via muita gente que está bem de saúde reclamando da vida. Sei que as pessoas passam por dificuldades. Mas já imaginou passar 22 anos em cima de uma cama, dependendo de outra pessoa para tomar banho, comer ou beber água?

Muita gente me manda mensagem dizendo que parou de reclamar da vida ao ver a dependência dele. Além disso, a intenção de mostrar a rotina de Matheus é também incentivar as pessoas a dar mais valor às suas vidas e à saúde que possuem. Teve mãe que chegou para mim e falou que parou reclamar de um filho depois que nos viu, pois eu não reclamo de nada.

Pai reconheceu filho após dez anos

O pai de Matheus nunca foi presente na vida dele e eu também o não procurei. A partir do momento que abriu a boca para dizer que não queria ser pai de doido ou de aleijado, larguei de mão. Quem deveria defender o Matheus era eu. Virei os braços e as pernas do meu filho.

Lutei para o Matheus ter o nome do pai porque pensei que, mesmo com a ausência da figura paterna, gostaria que tivesse a filiação completa na certidão.

O Matheus não tinha o nome do pai no registro até os dez anos e não recebia nenhuma ajuda. Eu acreditava que, por receber benefício do INSS, não teria o direito de receber pensão alimentícia. Fiquei sabendo pelo Ministério Público que estava errada.

Resolvi tudo na Justiça. No dia da audiência, o juiz até puxou a minha orelha por eu não ter ido atrás da pensão mais cedo. Ele recebe R$ 200 e quase tudo vai para comprar as fraldas, que ele usa 24 horas por dia.

O pai dele morreu há dois anos, mas não deixou nada. Apenas a pensão alimentícia, que hoje é paga pela mãe aposentada dele. Matheus toma três tipos de medicação controlada. A gente compra e, às vezes, recebe doações de pessoas que se comovem com nossa história.

"Primeiro ele, depois eu"

Nossa rotina é quase sempre a mesma. Pela manhã, levantamos às 7h, dou banho, café e o coloco para assistir à TV, algo que ele gosta bastante. Matheus se diverte muito vendo "Masha e o Urso". Vive rindo, mesmo com as limitações.

Como o lado esquerdo do cérebro de Matheus é atrofiado, ele mexe os braços e as pernas, mas não tem forças para pegar objetos, andar ou ficar sentado. Eu consigo entendê-lo pelo olhar. Me adaptei à forma dele de se comunicar. Não foi ele que se adequou à nossa maneira.

No banho, por exemplo, preciso estar sempre com ele porque não temos uma cadeira específica para isso. Sempre o carrego no colo. A nossa casa fica em um beco e tem alguns desníveis, é cheia de sobe e desce porque foi construída no morro. São 20 quilos, mas, com o tempo, passei a nem mais sentir o peso.

Nosso dia se encerra depois das 20h. Vou descansar somente depois de Matheus dormir. É o momento em que me aquieto. Aqui em casa, ele sempre tem prioridade. É primeiro ele, depois eu."

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