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Luedji Luna: "Falar de amor é reconstituir a humanidade de negros e negras"

Luedji Luna lançou "Bom Mesmo é Estar Debaixo D"água" e fala sobre afetividades negras - Divulgação
Luedji Luna lançou "Bom Mesmo é Estar Debaixo D'água" e fala sobre afetividades negras Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

22/10/2020 04h00

Há pouco mais de uma semana, Luedji Luna botou no mundo o álbum "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água", com 12 músicas inéditas, também lançado em formato visual. Há três meses, a cantora de Salvador tem em seu colo Dayo, primeiro filho com o parceiro, o rapper Zudizilla. E a cruzada da "dupla maternidade" — como descreveu no material de divulgação do trabalho artístico —, pandêmica e cheia de afeto, faz parte da percepção da artista sobre seu momento de vida e de carreira, três anos após o disco de estreia, "Um Corpo no Mundo".

Vivendo há cinco anos em São Paulo, Luedji Luna é uma pessoa "do mar". Do nome do álbum às respostas desta entrevista para Universa, ela revisita memórias mergulhada na ideia de que "a água é constitutiva na sua construção de afeto". Por entender a pluralidade de experiências que mulheres negras têm no Brasil, apesar de o racismo e o machismo tentarem reduzi-la, no entanto, a cantora convida escritoras, como Conceição Evaristo, e compositoras, também negras, para trazerem vozes diferentes ao álbum.

No release divulgado à imprensa sobre o disco e o álbum visual, a cantora provoca com questões:

"Como as opressões de uma sociedade machista e LGBTfóbica atravessam a subjetividade das mulheres pretas? Como a sociedade enxerga as mulheres pretas no campo da afetividade? Como as mulheres pretas expressam essa afetividade?".

Desenhando sua própria narrativa, Luedji parece não querer entregar conclusões para esses questionamentos em "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água". Daí, se torna mais fácil que o ouvinte explore suas próprias vivências para se conectar à mensagem. Se for ouvido por uma mulher negra, talvez a percepção possa ser resumida em uma frase: "É sobre isso".

A seguir, Luedji fala sobre o processo de gestação do disco, de Dayo, de mar e de afeto.

O vídeo álbum de "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água" tem uma equipe de pessoas negras. Quem são esses profissionais e por que é tão importante essa escolha?

album luedji - Divulgação - Divulgação
Álbum de cantora tem 12 faixas, entre elas, "Chororô", "Tirania" e "Ain't I a Woman?"
Imagem: Divulgação

Ele é uma produção da Oxalá Produções, da diretora Joyce Prado que, além de ser uma excelente profissional, é uma amiga. É minha parceira desde o clipe de Um corpo no Mundo. A Joyce é uma mulher preta e consegue traduzir a minha música com muita propriedade, o trabalho dela é uma extensão do meu. E essa competência se deve não só por ela ter técnica, mas por ser uma mulher preta. Ela consegue se apropriar da minha narrativa em um trabalho que fale sobre ela também.

A Joyce já tem a escolha política de trabalhar com profissionais negras, mesmo porque ela é da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro [APAN]. E traz essas parcerias, a Nuna Nunes, da direção de fotografia, a Samya Carvalho, na edição, o Arthur, na direção de produção e a Regiane Silva, que também é uma mulher negra, na produção executiva. Aí, o trabalho sai com potência porque cada profissional que participa se apropria dele, coloca muito amor e entende a importância de disputarmos essa narrativa.

Desde do álbum Um Corpo no Mundo eu tento fazer um trabalho que seja o mais afirmativo possível.

Na lógica que temos hoje, o cantor e a cantora estão à frente, mas, nos bastidores, a equipe que está capitaneando e capitalizando sobre a imagem dessa figura negra é formada por pessoas brancas. São raríssimos os artistas negros que têm uma equipe também negra. Então é uma forma de dar empregabilidade para esses profissionais, porque diretores, produtores, montadores, técnicos de sons e músicos negros existem.

Nas imagens do álbum visual, você dança e passeia pelas ruas de Salvador, sua cidade natal. Um verdadeiro gatilho em tempos de isolamento social. Você mora lá?

Eu sou de Salvador, mas moro em São Paulo há cinco anos. No início, eu fiquei em uma transição, mas agora estou domiciliada aqui. Todo verão, eu volto para lá para ver minha família e trabalhar.

Como a questão de ser uma pessoa nascida em cidade de mar atravessa você e seu trabalho?

O mar me constitui. Eu sou dessa cidade que possui 50 km de costa e todas minhas memórias da infância, as de amor, são regadas pela água. Meu pai me levando à Lagoa do Abaeté, meus amores, minha família. Ir para ilha de Itaparica passar as férias. Isso está na memória de todo mundo. A água é um constitutivo da construção do afeto.

Tudo gira em torno de estar à beira-mar ou dentro do mar. Então, não tinha como não fazer essa associação da constituição do amor e da minha própria identidade nesse álbum. Quem é do mar é diferente, tem outro ritmo, outro olhar sobre o mundo.

Luedji Luna - Divulgação - Divulgação
Luedji, uma mulher "do mar", reafirma maturidade artística em novo álbum e em álbum visual
Imagem: Divulgação

O álbum e o filme foram gravados antes da pandemia, mas o lançamento só aconteceu no meio dela. Acredita que as produções são um convite à calma no meio do turbilhão em que estamos vivendo?

Eu me descobri grávida [Luedji deu à luz Dayo, em julho] quando já estava tudo encaminhado para ter o disco, e aí, com três meses, eu não tirei férias: em janeiro, fui para o Quênia, na África, gravar o álbum e, em fevereiro, fiz o filme. Toda essa celeridade foi para eu lançar tudo no primeiro semestre e ficar livre no segundo para ser mãe. Ele nasceria em julho, então eu teria esse tempo para ficar de boa e trabalhar o disco durante a gestação. Lançar em março, fazer muitos shows.

Só que a gente faz planos e Deus faz outros. Veio a pandemia, e o mercado não sabia o que iria acontecer. Eu decidi não agir, desisti de lançar o disco, embora tivesse todo o material gravado, e fiquei observando. Tivemos um tempo dilatado para editar e mixar, para me esmerar com ele. Aí, fomos entendendo que estar nessa pandemia, atualmente, é uma condição humana no mundo... E que não existe gestação de 12 meses.

O tempo desse disco já estava pronto. O bebê já tinha que sair. Então, tomamos a decisão de lançar neste mês, que foi o mesmo que lancei Um Corpo no Mundo, há três anos. E acho que ele vem como um respiro mesmo. Já entendemos o que aconteceu, e agora há esperança da vacina, de um porvir. E que o álbum seja um luz no meio do caos.

Na divulgação, você brincou no Twitter sugerindo que os fãs procurassem um crush até o lançamento do álbum. Com a pandemia, em que estamos isolados, isso ficou um pouco difícil. Serve amor-próprio?

Luedji lateral - Divulgação - Divulgação
Luedji Luna lança videoalbum e álbum Bom Mesmo é Estar Debaixo D'água
Imagem: Divulgação

É um disco declaradamente de amor, mas muito menos sobre esse clichê de romance e amor romântico e mais sobre as complexidades de viver a afetividade enquanto mulher negra. No Twitter, foi em tom de brincadeira.

De fato, é um disco sobre amor-próprio também. Por isso que no filme há muitas imagens com espelhos, eu me olho o tempo todo, e isso fala sobre uma reconciliação com a autoimagem e comigo mesma. É muito mais complexo que achar um 'arroba'. É que no Twitter, é 'zoação'.

Falamos há muito tempo sobre o direito à vida de homens e mulheres negras. Mais recentemente, tem sido assunto mais amplo na sociedade. Seu álbum acaba sendo uma mensagem sobre direito ao afeto, que pessoas negras também têm?

A principal lógica do racismo é destituir nossa humanidade, dizer para os africanos que vieram sequestrados que eles não eram humanos, por isso poderiam ser explorados, mortos e vendidos como se fossem coisas. A nossa humanidade foi coisificada. E não se ama coisas, de um modo geral. As pessoas amam pessoas.

Então, falar de amor dentro da comunidade negra é reconstituir essa humanidade.

É dizer que amar e ser amado são um direito, e é algo que a gente experimenta, apesar desse apagamento, de não nos vermos na literatura, no cinema. Nós vivemos isso, talvez não nesse modelo de família Doriana apregoado, dos romances das novelas, mas a gente tem o modo como a gente deseja e ama. Apagar ou não mostrar isso é ratificar esse não lugar do afeto, que já é negado historicamente.

Em cada letra, então, eu estou falando das minhas vivências, como eu desejo, quem eu desejei e quem não desejei. Faz parte de estar vivo, de estar no mundo.

Veja o videoclipe da faixa título do álbum:

Nas músicas, você faz referência direta ao discurso 'E eu não sou uma mulher', de Sojourner Truth (1851), traz Nina Simone, participação de Conceição Evaristo e de mulheres contemporâneas. Por que quis conectar essas gerações e o que essas vozes trazem de força para o trabalho?

Todas essas vozes foram trazidas de forma proposital porque, embora eu fale de mim enquanto mulher negra, nossa experiência é múltipla. Somos muitas, plurais. Então, queria dar voz para essas mulheres, de outras gerações, e dissidentes da heterossexualidade.

Eu acho importante para disputar essa narrativa e marcar o papel da mulher negra como objeto amante e amado.

Na faixa 'Ain't I a Woman?', você diz: 'Eu sou a preta que tu come e não assume'. Você acha que esse aspecto das relações com mulheres negras tem sido falado com mais frequência? É mais fácil de colocá-lo em pauta?

Essa é uma condição de boa parte das mulheres negras, não posso dizer que todas foram preteridas ou objetificadas, mas é uma narrativa muito presente na vida das mulheres pretas. E é um debate antigo, de antes mesmo de eu nascer. O próprio Lande Onawale [escritor, militante do Movimento Negro Brasileiro], que abre meu disco, tem o haikai:

Beije sua preta em praça pública.

A mensagem reafirma a necessidade de a gente acolher, amar e exibir esse amor. Isso foi na década de 70. Mas acho que a discussão ainda é contemporânea, mobiliza muito nas redes sociais e fora delas. E eu me sinto à vontade de trazer dessa forma porque não é uma mentira. Eu poderia ter falado de outra maneira, ter usado figuras de linguagem, mas, nesse disco, eu quis ser bastante inteligível. Ele está muito categórico, '8 ou 80'.

Eu acho que sou uma artista mais madura. Nesses três anos, eu consegui experimentar muita coisa, já fiz muitas parcerias, com diferentes estéticas e estilos, viajei... Então, isso me deu muita confirmação do que eu quero fazer enquanto artista.

Por isso que quis assinar produção do álbum ao lado de Kato Change, fazer o roteiro do filme. Eu estou muito mais cheia de mim neste trabalho.

Como foi estar grávida na pandemia? O que ela trouxe de medos e de força para você?

Luedji Luna - Divulgação - Divulgação
Cantora deu à luz Dayo, primeiro filho ao lado do parceiro Zudizilla, e fala sobre experiência da maternidade
Imagem: Divulgação

Foi um caos, porque eu sempre sonhei ser mãe e me senti madura enquanto mulher para fazer tudo que eu fiz, mas em nenhuma hipótese eu esperava ter um filho nessas condições, com a doença e a morte rodando nossa vida, dos familiares, dos amigos. Estar grávida já é uma condição que, mobiliza seu emocional. Viver isso dentro de casa, cumprindo a quarentena... Não sei nem como consegui.

É uma dessas experiências que você tira forças de onde nem imaginava que tinha.

Eu tive um parto natural em hospital com uma equipe que faz parto humanizado, sem anestesia, e ainda não consegui elaborar de onde veio essa força... De ter tido inteligência emocional, me mantendo ativa para o trabalho, ao mesmo tempo em que lidei com os hormônios, com as frustrações de, por exemplo, ter feito um chá de bebê... E fomos eu e o pai o tempo inteiro sozinhos, até o parto.

Aliás, estreitou muito minha relação com meu parceiro. De "somos nós contra o mundo" mesmo. Por outro lado, foi traumático. E eu digo que não quero ter outro filho. Por medo. Não é só sobre você, é outra vida. Há o medo natural, de saber se vai nascer com saúde, essas coisas.

Em uma pandemia, em que com qualquer coisa você pensa que pode ser contaminado...Para ter saúde mental, eu até me blindei, não via notícias nem ficava navegando nas redes sociais.

E como tem sido seu puerpério?

Ele está com três meses. Meu puerpério tem sido complexo, mais pela memória do que vivi na gestação. Ser mulher é muito difícil e quando você se torna mãe, é como se fosse um corpo público. Era muita informação, muita interferência... Todo mundo se metendo. Além do que tive que fazer dois testes de covid por ir ao hospital, teve a ansiedade de quando o menino ia nascer. Foi difícil parir, e o puerpério está muito para reviver essa experiência recente.

O primeiro mês foi complicado, porque eu também tive um pouco de dificuldade na amamentação. Mas depois que isso se alinha, e o bebê está mais durinho, aí é só coisa boa. E agora tem sido o momento de voltar a trabalhar aos poucos.

Você costuma falar em entrevistas da influência da militância dos seus pais na sua história de vida. Como acha que o jeito como você e seu companheiro [o rapper Zudizilla] influenciará o filho de vocês?

O Dayo já nasceu numa outra condição. Em uma cidade grande e rica, cheia de oportunidades. Esse caminho que eu fiz, de sair de Salvador e vir para cá, e que o pai dele fez, do interior do Sul para vir, ele não vai precisar fazer. Além disso, ele nasceu em um momento em que várias portas já foram arrombadas. Então, ele já parte de outro lugar. O bisavô dele era pedreiro, hoje ele é filho de uma cantora com certa projeção.

Ele tem de ser e vai ser a continuidade de uma luta.

E que as gerações futuras consigam cada vez mais avanços sociais, porque é para isso que a gente está trabalhando. E espero que, no que ele escolher fazer da vida, ele seja mais um guerreirinho no combate ao que temos que combater — sobretudo o racismo.

Veja o álbum visual de Luedji Luna:

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