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Ela apoia outras prostitutas: "Nenhum governo deu ajuda a essas mulheres"

A mineira Santuzza de Souza é profissional do sexo há 17 anos - Arquivo pessoal
A mineira Santuzza de Souza é profissional do sexo há 17 anos Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

09/09/2020 04h00

Profissional do sexo há 17 anos, a mineira Santuzza de Souza, 40, sustenta os três filhos, de 19, 13 e 9 anos, com sua profissão. "É trabalho precário porque não é regulamentado, mas me remunera muito. Faço meu horário e pago minhas contas."

Mas, se até alguns meses atrás, conseguia fazer um salário mínimo por dia (R$ 1.045), viu sua renda e a de suas colegas de profissão minguarem à medida que a quarentena provocada pelo novo coronavírus era ampliada para conter o avanço da covid-19.

Ela e centenas de outras trabalhadoras sexuais não têm conseguido esse valor nem somando os ganhos do mês inteiro. Por isso, conhecendo a realidade das outras profissionais que também atuam na zona boêmia de Guaicurus, em Belo Horizonte, há três meses, Santuzza vem arrecadando cestas básicas para ajudar essas pessoas.

"Como faço parte da RedTraSex, a rede latino-americana e caribenha de trabalhadoras sexuais, sabemos que nenhum governo nesses lugares deu assistência para essas pessoas. Para eles, a gente não existe", diz Santuzza.

Ela mesma tomou a iniciativa de correr de esquina em esquina, bordel em bordel, para fazer um cadastro dessas mulheres e de seus familiares, para entender a necessidade de cada uma. Hoje tem mais de cem mulheres catalogadas e, em três meses, conseguiu ajudar mais de 90 famílias, doando de fralda a legumes e produtos de limpeza, com apoio de amigos e empresas.

 A mineira Santuzza de Souza distribui cestas básicas para profissionais do sexo em Guaicurus (BH) - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A mineira Santuzza de Souza distribui cestas básicas para profissionais do sexo em Guaicurus (BH)
Imagem: Arquivo pessoal

"Teve uma menina que viu uma maçã na cesta básica e ficou enlouquecida. Essas coisas me deixam morta", ela se emociona.

Segundo Santuzza, somente em Belo Horizonte e na região metropolitana da capital mineira, são mais de 4.000 trabalhadoras sexuais em atuação.

Coordenadora do coletivo Rebu, de assistência às trabalhadoras sexuais, ela vem tentando captar recursos junto a fundos sociais para ajudar mais mulheres. Mas encontra resistência.

"Há fundos nacionais e internacionais. Os nacionais são os mais difíceis para conseguir aprovar os projetos escritos por organizações de trabalhadoras sexuais. Se não for projeto direcionado para a saúde, para combater Aids, não passa. Projeto de puta, mesmo se for para conseguir cesta básica, não é aceito."

Anúncio no jornal

Santuzza já trabalhou como professora de informática e assessora na Câmara dos Vereadores em Ouro Branco (MG). Quando a mãe sofreu um AVC, trancou a faculdade de direito e parou de trabalhar para cuidar dela. Depois vieram os filhos e somente agora voltou a estudar: está cursando o segundo ano de sociologia.

Sem renda e com um filho nos braços, tentou voltar para o mercado de trabalho, mas só conseguiu emprego num bordel, após ver anúncio de uma vaga no jornal.

"A dona da casa começou a me anunciar como iniciante. Quando um cliente veio, comecei a falar um monte de putaria para agradar. Ele então me devolveu e falou pra dona do local: 'Essa daí não é iniciante, não", ela gargalha ao lembrar.

Enquanto paga suas contas em dia, Santuzza não planeja parar de atuar no ramo.

"Não quero exercer outras funções que remuneram menos e em que ainda posso correr o risco de sofrer assédio do patrão e ser humilhada. Sem querer desfazer de outras profissões, mas não me tire da minha esquina pra colocar na sua cozinha."

Proteção com vassoura e rodo

Santuzza atua na região de Guaicurus, famosa pelos hotéis popularmente conhecidos como "sobe e desce". Ela diz que o nome vem das escadarias que dão acesso aos quartos desses locais. As trabalhadoras sexuais pagam a diária, e o programa é negociado na porta do quarto.

Diz nunca ter sofrido violência de cliente, nem de ninguém. E atribui o feito à trajetória junto a movimentos sociais e ao jeito esquentado. Se cliente tentar algo fora do combinado, apanha, ela diz.

"A gente tem um código. Quando tem problema no quarto, a menina grita 'segurança', e todas saem. Quando o cara vai embora, tem um corredor polonês esperando por ele, cada uma com vassoura ou rodo."

Os hotéis voltaram a funcionar recentemente, sob protocolos de segurança: clientes só entram após medir a temperatura, por exemplo. Mas os riscos continuam, e as trabalhadoras sabem disso.

"O desgraçado bebe, passa o dia inteiro de máscara no queixo e, quando chega no hotel, fica cheio de cuidado", ela reclama. Santuzza diz que não contraiu o vírus.

"Atendo cliente que me liga, e fora —longe de hotéis da região, mais vazios—, porque tenho bronquite crônica. Morro de medo de pegar coronavírus e bater as botas, porque tenho três filhos."

Filhos da Puta

Mãe solo, Santuzza trata com tanta naturalidade seu trabalho que até já levou o mais velho na rua onde atua. E garante que nenhum deles sofreu preconceito até hoje por causa da profissão da mãe.

"O mais velho vai lá na zona às vezes me encontrar. E minhas amigas se cobrem por respeito a ele", ela ri ao contar.

"Dentro do movimento de prostituta é muito normal os filhos saberem da nossa profissão. As filhas e filhos das trabalhadoras sexuais também militam na causa."

No documentário "Filhos da Puta", produzido pelo Coletivo Rebu, seu primogênito, João Vitor, se declara para a mãe:

"Ela é minha companheira, minha amiga, está sempre do meu lado".

"Se quiser exclusividade, tem preço"

Solteira, Santuzza afirma que nunca se relacionou com um cliente. "Ele vai querer fazer sexo de graça e eu não quero", diz. Mas, apesar da profissão, conseguiu ter namoros longos. O último durou dois anos.

"Meus relacionamentos foram bem conturbados porque sempre deixei claro que sou puta e trabalho na zona. Meu entendimento é o de que o relacionamento monogâmico deixa a pessoa doente porque gera ciúme com essa ideia de posse."

Para dar certo, ela diz, é preciso uma conversa aberta.

"Para esse último namorado, falei: 'Sempre me cuidei e me protegi. Então pode trepar com o Maracanã inteiro, só não coloque minha saúde em risco. Essa é a sua maior prova de amor'."

Ela diz que a maioria dos homens que não quer transar com camisinha é casada. "E usam isso para justificar que não tem doença."

Casamento está fora de questão, apesar de receber propostas frequentes. "Pedido de casamento a gente recebe todo dia, mas sabemos que é pra ficar mais tempo no quarto", diz.

"Sempre deixei claro que não vou largar meu trabalho. Porque, quando vem a paixão, a gente só quer saber daquele cara. E muitas que largam o trabalho voltam rapidinho pra zona na primeira conta que chega porque o cara não vai pagar. Então, se quiser exclusividade, tem preço. Tem que pagar todas as minhas contas, mais o conforto que dou para os meus filhos, e as coisas de que gosto. Se não, não tem Santuzzinha, não."

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