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Mães e filhos


Mães e filhos

Elas escolheram a prostituição para criar os filhos; veja relatos

Nathalia trabalha como garota de programa há 11 anos - Arquivo pessoal
Nathalia trabalha como garota de programa há 11 anos Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

Da Universa

26/02/2019 04h00

Nathalia Paula Mazeli, 33, faz programa há 11 anos "por livre e espontânea vontade", frisa ela no início da entrevista. Num mês ruim, contabiliza, leva R$ 10 mil trabalhando de segunda a sábado. Num bom, três vezes mais. Com o montante, diz que dá uma vida confortável aos filhos de 13 e 8 anos.

Fora da prostituição hoje, Gloria, 33, conta que foi abusada pelo padrasto, sofreu violência doméstica do pai de dois de seus quatro filhos e, separada dele, escolheu se prostituir para sustentar as crianças. Hoje casada, ela, que prefere não ter a identidade revelada, defende: voltaria se preciso fosse. Elas contam suas experiências à Universa.

Amo o que faço e me sinto realizada

"Era garçonete e sempre ouvia dizer que prostituta ganhava bem. Então pensei: 'quero ganhar também'. Procurei por várias casas de massagem para ver como era. Estava separada do pai do meu filho, hoje com 13, e não sabia nem usar camisinha. O primeiro programa foi tranquilo e me identifiquei muito. 

Tive caso com um cliente e acabei engravidando. Parei de trabalhar nessa época, mas meses após o nascimento da minha filha, hoje com 8 anos, voltei a fazer programa.

Minha família sabe que sou prostituta e não tive problemas. Ninguém tentou me fazer desistir nem me virou as costas. Ao contrário. Minha avó, que me criou, afirmou que preferia mil vezes me ver como garota de programa a sair ficando com os homens de graça e engravidando.

Mas o pai da minha filha tentou tirá-la de mim por causa do meu trabalho. O juiz do caso disse que não sou digna de ter um filho, mas não existe lei contra mim. A única coisa que tira o filho de uma mãe são maus-tratos, e eu jamais faria isso. A guarda dela é minha.

Atendo um público diverso, desde o cara que acabou de sair da cadeia até o casado. Hoje trabalho na rua. É arriscado, já sofri xingamentos, tentativas de agressão. Tem que ter um psicológico bom para manter a situação controlada.

Jamais ganharia com faxina o que recebo na rua. Meus filhos têm vida confortável. Tiro entre R$ 500 e R$ 800 por dia. Ainda cuido de animais abandonados. Tenho 9 em casa.

Não vejo a prostituição como algo assustador nem errado. Nenhuma profissão é melhor que a outra nem vai te tornar melhor pessoa. Já fui manicure, faxineira, vigilante, cabeleireira. Trabalhei em banco. Rodei muito. Faço programa porque quero, ainda que eu tivesse doutorado. E quem quiser ficar comigo, vai ter que pagar. Vou continuar até onde der.

Meu filho mais velho tem problema neurológico, e minha menina é muito nova, mas um dia vou contar para eles que o estudo deles vem do programa. Não vejo isso como um bicho de sete cabeças. Instruo minha filha a estudar para escolher uma profissão. Mas se ela quiser fazer programa, vou ter que aceitar. 

A prostituição é um dom. Não é para todas. Amo o que faço e me sinto realizada. Me encontrei na minha profissão".

Nathalia Paula Mazeli, 33

Paguei todas as contas sozinha

"Tive uma infância conturbada, com mãe narcisista e um padrasto que me molestou dos 7 aos 13 anos. Contei tudo para minha mãe, que em vez de se separar, sentiu ciúmes e continuou com ele. Ela ainda nos deixava sozinhos. Acreditava que, por medo dela, ele não voltaria a fazer.

Saí de casa aos 14, e fui morar com meu pai. Mas ele não soube de nada. Três anos depois, trabalhei num bar, onde conheci o dono, de 36 anos. Por desespero e cheia de sonhos, fui morar com ele, na esperança de ter meu lar. 

Passei quase sete anos com essa pessoa e tive dois filhos, mas ele começou a se drogar e me agredir. Também não ficava com as crianças, e parei de estudar e trabalhar.

Separada e passando necessidade, comecei na prostituição, em 2009. Uma conhecida me deu a ideia. Com esse trabalho, paguei todas as contas sozinha, e tudo ia bem até eu experimentar a cocaína. É muito difícil trabalhar careta nessa área.

Nesse meio, 90% das mulheres bebem muito ou se drogam para suportar a situação toda. Parece fácil, mas entre quatro paredes bate aquele desespero, e você se pergunta 'o que estou fazendo aqui?'. É como se fôssemos zumbis ou estivéssemos num filme. 

Enxergo a prostituição como profissão, sim, tal qual diarista, gerente do banco, policial. É dinheiro fácil, mas não rende. Há mulheres que mesmo após anos moram e vivem do mesmo jeito de quando começaram. 

Nunca assumi esse trabalho para minha família, mas souberam de alguma forma. Não tocamos no assunto. E se me perguntarem, eu falo sobre isso sem problemas. Futuramente, contarei aos meus filhos que escolhi essa profissão para sustentá-los. E explicarei que seria mais complicado pagar aluguel e contas com trabalho assalariado. Meu único arrependimento foi ter experimentado drogas.

Parei com a prostituição em 2011 para casar com um cliente. Mas ele se drogava e passava noites fora. Ficamos juntos por dois anos, e ele me largou quando engravidei.

Meu atual marido também foi meu cliente. Estamos juntos há seis anos e temos um filho de 2. Cuidamos o melhor possível da família. Trabalhamos num trailer de comida e nunca mais voltei para a prostituição, mas se precisasse, iria novamente."