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Medo e trabalho dobrado: a rotina de professora de volta à aula presencial

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Imagem: iStock

Matheus Pichonelli

Colaboração para Universa

19/08/2020 04h00

A professora Jéssica*, de 30 anos, costuma rezar nos momentos de estresse e ansiedade.

Nos últimos dias, rezar foi uma forma de lidar com as notícias e imagens dos caixões empilhados em sua cidade, Manaus (AM), capital de um estado onde 108 mil casos de contaminação por coronavírus haviam sido registrados até metade de agosto. Os mortos passam de 3.000.

Desde o primeiro dia de quarentena, em 16 de março, ela se trancou em casa com os pais, ambos com 60 anos, em um apartamento da zona sul da cidade. "Mal descia para as áreas comuns, que permaneciam fechadas. Tentei cumprir a quarentena a fio. Meu pai é hipertenso e minha mãe tem câncer", conta Jéssica, que dá aulas de inglês para alunos do ensino médio em uma escola pública e para o ensino fundamental 1 (quarto e quinto anos) em outra particular.

"Sempre fui muito ativa. Corria, dava aulas particulares à noite. Tudo isso foi por água abaixo. Tive muitos momentos de ansiedade. Não conseguir dormir, o cérebro ficava a mil e eu tentava me distrair assistindo séries a noite toda. Tentei organizar o guarda-roupa, arrumar os cantos da casa que estavam bagunçados, revi álbuns de fotografias", relembra.

Jéssica começou a dar aulas online e só saía de casa para ir ao supermercado, sempre sozinha. Levava máscaras, às vezes, luva. Chegava em casa, colocava a roupa num saco e ia direto para a lavanderia higienizar todos os produtos.

Com tantos cuidados, voltar à sala de aula não estava nos planos dela quando recebeu a notícia sobre a autorização da reabertura das escolas privadas da região. "Foi muito precipitado. Eu pensava: como vamos voltar nessa situação? Será que fiquei quatro meses em casa em vão?"

Não teve conversa. Jéssica voltou a pisar numa sala de aula no dia 20 de julho.

Professores estariam imunes. Mas e os alunos?

Na véspera, por causa da apreensão, teve insônia e dormiu no máximo três horas. Quando o despertador tocou, depois que o sono venceu por cansaço, ela teve de correr para não se atrasar. Não teve tempo de rezar. As orações diárias foram substituídas por um econômico: "ok, vamos lá".

Oito, de uma turma de 22 alunos, compareceram ao primeiro dia de aula após a quarentena. Naquela escola os alunos foram divididos em três grupos. O grupo A ia para as aulas presenciais às segundas e quartas. A turma B, às terças e quintas. A C era formada por alunos que optaram por seguir apenas com as aulas online. "Muitos pais ainda se sentem inseguros para mandar os filhos para a escola."

A escola, disse ela, tomou muitas medidas de proteção. Disponibilizou testes de covid-19 para professores —o dela deu negativo—, sinalizou os ambientes e espalhou álcool em gel nos pontos estratégicos. Essa era uma exigência dos pais, que, em sua maioria, não queriam o retorno tão cedo das aulas. Com as medidas, a escola chegou a ser citada no jornal local como modelo.

Ainda assim, o medo ainda era frequente. "O corpo docente estaria imune, mas não sabemos a realidade dos alunos, se contraíram ou não, se têm coletores, se estão assintomáticos."

Quando estava mais tranquila com aquela rotina, outra notícia voltou a causar apreensão. Em 10 de agosto, as aulas presenciais deveriam ser retomadas na outra escola, a estadual. O roteiro da véspera foi parecido, e ela acordou assustada, após um sono breve numa noite de insônia, com o despertador.

Latifúndio para proliferação do vírus

Lá encontrou uma outra realidade, com alunos sonolentos e dispersos, como se tivessem jogado a toalha e dessem o ano letivo como perdido.

Muitos não puderam ficar em isolamento. Vídeos para as aulas online foram disponibilizados pelo governo, mas poucos, sem wi-fi ou estrutura em casa, conseguiram acessar. Pelas redes, começaram a surgir imagens de salas de aula sem janelas ou ventilação, um verdadeiro latifúndio para a proliferação do vírus.

"Estamos totalmente expostos ali. Estou fazendo de tudo para nem manusear o caderno. O material de higienização que o governo dá é o mínimo. Nossa preocupação é se vai ter o básico por muito tempo, como álcool em gel e sabão."

Naquele ambiente, tudo era agravado por um elemento novo: o luto.

Na escola pública, em salas com no máximo sete alunos após a retomada, era comum ouvir relatos de quem havia perdido amigos ou familiares para a covid-19.

Jéssica e as colegas receberam orientações para conscientizar os alunos sobre a importância do distanciamento e do uso de máscaras. "Mas sabe como são os adolescentes, né? Eles querem chamar a atenção o tempo todo. Cada um recebeu duas máscaras, mas o material era desproporcional, ficou enorme. Muitos fizeram fotos e criaram memes nas redes com as máscaras cobrindo o olho, a boca, os olhos. Uma coisa ridícula. Teve um grupo de meninas que simulou o uso de top."

Máscara em sala de aula é um martírio

Jéssica diz que nunca mais foi a mesma depois da pandemia. "Nada será normal novamente. Todos falam novo normal, mas não é bem assim. Nós, professores, ficamos bem tensos ao vir ao trabalho. Não sabemos se vamos ser contaminados. O conteúdo é dado, mas muitas vezes é interrompido. E o assunto entre os alunos é sempre o vírus", diz

"Os alunos passaram muito tempo distantes uns dos outros e querem relatar suas experiências. Não tem como esquecer a pandemia, até porque estamos usando o tempo todo um instrumento muito difícil para quem dá aula: a máscara."

A professora descreve o uso do utensílio como um "martírio". "Às vezes, parece que a pressão cai. E preciso falar duas vezes mais alto. Também não consigo compreender exatamente o que os alunos falam."

Apesar da tensão, ela evitou usar medicamentos para controlar a tensão e a ansiedade. Também não chegou a buscar auxílio psicológico oferecido pelas escolas. A palavra-chave, para ela, é autocontrole, como nos tempos em que lidou com uma crise de ansiedade da mãe e precisou aprender a lidar com a situação.

"Ser professora já não é fácil. Nós nos reviramos para não deixar o ensino parar. Agora, tenho que aprender a gravar e editar vídeos para as aulas online. Acabei trabalhando o dobro. E o meu WhatsApp virou 'comercial". Todos os alunos passaram a ter acesso. A comunicação é constante, até mesmo fora do horário de trabalho."

Alunos se esquecem de lavar as mãos

O caso de Jéssica não é isolado. Na última semana, Universa conversou com dez professores, oito deles mulheres, que já voltaram ou estão próximos de voltar à sala de aula no Amazonas e no Rio, onde a retomada das aulas chegou a ser autorizada para a rede particular, mas foi revogada na Justiça.

A tensão era unânime, assim como a avaliação de que o retorno, enquanto o país registra em média mais de mil mortos diários por coronavírus, é precipitada e irresponsável.

Não faltam razões para isso, mesmo nas áreas com tendência de queda nos índices de mortes. A incerteza é outro fator de estresse.

No Maranhão, escolas particulares autorizadas a reabrir tiveram de suspender as aulas presenciais após a confirmação de casos de covid-19 entre colaboradores.

No Pará, o Ministério Público precisou entrar com uma ação na Justiça pedindo a suspensão da volta às aulas nas escolas particulares de Parauapebas, município de 196 mil habitantes no sudeste do estado.

"As escolas não deveriam reabrir. Todo cuidado é pouco quando se trata de crianças e adolescentes. Muitos não usam as máscaras e se esquecem de lavar as mãos. São seres sociáveis", resume outra professora de Manaus, que conseguiu seu primeiro emprego como docente, para alunos de seis a oito anos em uma rede privada, após quatro anos formada em pedagogia.

"Mesmo discordando da reabertura, não tive escolha se não aceitar a oportunidade. Precisava do trabalho e me encorajei", diz ela, que perdeu um tio na pandemia.

Em quase um mês desde o retorno, não houve casos de infecção em sua escola, segundo ela. A tensão, porém, permanece. "Os alunos estavam com saudades de tudo. Tem muita conversa em sala. Todos querem estar perto uns dos outros e eu tenho de separar a todo instante", resume.

Medição de temperatura e totem de álcool em gel

Em nota publicada em sua página oficial, o governo do estado disse ter retomado as aulas presenciais em 123 escolas do ensino médio da capital, "com a execução de todas as medidas de prevenção, conforme protocolo da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), e com lotação das salas limitada a 50% da capacidade".

A nota diz que, desde a entrada nas escolas, foram executados os procedimentos de aferição de temperatura e higienização dos sapatos e das mãos, junto ao totem de álcool em gel, além da distribuição de máscaras.

No interior das unidades, segundo o governo, os estudantes usaram as carteiras sinalizadas, com distância de 1,5 metro umas das outras. O protocolo de distanciamento é obrigatório em todas as dependências da escola, inclusive banheiros.

"O clima é de muito medo", diz outra professora da rede estadual. "Nada substitui a sala de aula, mas a vida é mais importante."


* Para preservar o anonimato, a pedido a professora, o nome foi trocado.

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