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Quando o marido agressor é policial: "Como peço ajuda contra um deles?"

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Imagem: iStock

Janaina Garcia

Colaboração para Universa

20/07/2020 04h00

A técnica de enfermagem Juliana* tem cinco boletins de ocorrência registrados contra o ex-marido: um por disparo de arma de fogo e quatro por violência doméstica. O último desse tipo ela levou adiante quando um dos filhos do casal foi mordido pelo pai durante uma das visitas dele --embora ainda casados no papel, eles estão em separação de corpos, em casas diferentes.

"Lembro que, quando eu fui registrar esse boletim de ocorrência, o policial na Corregedoria olhou bem para mim e tentou me demover: 'Não seria melhor a senhora fazer um tratamento? Porque ele [o ex-marido] não tem cara de que é uma pessoa violenta, mas de que é um moço bom. Pense bem: se ele perder o emprego, não vai ser pior?'. Ali, eu me senti profundamente desprotegida."

A jovem fez o registro, mas, aparentemente, de pouco adiantou. Alguns meses depois, há um ano, o ex a agrediu novamente, já na casa onde ela mora com as crianças de seis e oito anos. "Não fiz boletim de ocorrência dessa vez, nem pedi medida protetiva, como já tinha feito também outras vezes, mas, mesmo assim, ele foi atrás de mim. Cheguei à conclusão de que, se ele quiser me matar, não vai ser uma medida, nem um boletim de ocorrência que vão impedi-lo. E como eu vou pedir ajuda à polícia contra um deles?"

O ex-marido da técnica de enfermagem é policial militar em São Paulo. Atua no setor de inteligência da corporação. No começo da pandemia, em março, ela conta, ele ficou uma semana dormindo na casa dela e dos filhos. "Pedi para ir embora, mas ele me disse que ficaria porque o aluguel saía do bolso dele. Foi uma semana inteira em que eu não consegui dormir, de medo."

Arma do trabalho em casa

O caso da técnica de enfermagem ilustra um tipo de violência doméstica do qual se conhece, não raro, consequências mais drásticas e irreversíveis como os feminicídios --sobre isso, vale lembrar que, com frequência, o policial fora de serviço tem a arma sob seus cuidados.

Desde o começo do ano, feminicídios praticados por policiais contra cônjuges ou parceiras ilustraram essa realidade: em janeiro, por exemplo, um PM de 31 anos foi acusado de matar a ex-mulher e em seguida se suicidar, dentro da casa da vítima, na cidade de Osasco (Grande SP). O policial estava de folga. A arma usada por Daniel Piauí da Costa pertencia à corporação.

Em maio, o delegado da Polícia Civil de Curitiba Érik Busetti assumiu ter matado, também a tiros, a mulher, uma escrivã da polícia de 41 anos, e a filha dela, sua enteada, de 16. O casal estava em um conturbado processo de separação, segundo as investigações.

"Pandemia aumentou tensão também nas relações familiares de policiais"

Embora os casos de violência doméstica em geral tenham disparado no Brasil e em outros países da América Latina, durante a atual pandemia de covid-19, situações envolvendo policiais também acendem um alerta a quem acompanha situações do tipo mais de perto.

É o caso da advogada Flávia Artilheiro, vice-presidente da comissão de Direito Militar da OAB SP (Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo) e defensora de policiais civis e militares em processos judiciais variados.

"A pandemia aumentou a tensão nas relações familiares também nas famílias de policiais, civis ou militares porque esses são profissionais que seguem trabalhando e ficando expostos à doença, o que acaba sendo um elemento adicional de estresse", afirma a advogada.

"E muitas vezes esse cenário de estresse é incrementado pelo impacto do isolamento em cada um. Há famílias inteiras mais estressadas porque a renda familiar era composta também pela da esposa, que perdeu o emprego durante a pandemia, ou porque alguns policiais que tinham rede de apoio familiar ou institucional não tiveram mais essa possibilidade em meio à crise", destaca.

Os ânimos mudam, ainda, dado o aumento no grau de exigência por medidas de higienização de quem acaba de chegar em casa, vindo da atividade na rua.

"Há ainda como motivo de tensão o fato de que nem sempre o policial valoriza o risco a que ele está exposto, ou fica em conflito em relação a isso, porque sabe que pode se transformar em vetor de contaminação. São comuns as situações em que esse policial chega em casa, a mulher quer que ele tome todos os cuidados, porque as pessoas do núcleo familiar se sentem mais seguras com isso, e nem sempre isso é compreendido adequadamente. Mas isso não justifica qualquer ato de violência doméstica", argumenta.

"Tema tabu não apenas para a PM", diz advogada

Também advogada de policiais militares, Ieda Ribeiro de Souza diz não ver relação direta entre a pandemia e um eventual aumento de casos de violência doméstica, embora, destaque, a PM não esteja "apartada do restante da sociedade". Nos últimos anos, por exemplo, ela fez a defesa de PMs acusados do massacre de 111 presos no Complexo Penitenciário do Carandiru (1992) em júris populares na capital paulista.

"Esse é um tema tabu não apenas para a PM, mas para muita gente. Quantos não moram no mesmo prédio, ouvem casais brigando e não se envolvem? Com famílias de policiais não é diferente: é tema tabu também", diz.

Por outro lado, a advogada afirma acreditar que, para a mulher de um policial violento em casa, "é muito mais fácil se defender, porque é só ela ir à Corregedoria, fazer a denúncia e acabou". "Aliás, se qualquer cidadão for à Corregedoria e fizer uma denúncia contra um policial, esse profissional poderá ser detido até administrativamente", exemplifica.

Traída pelo marido policial e espancada na frente dos filhos

Os relatos de violência doméstica sofrida do parceiro policial antes mesmo das tensões e incertezas trazidas pela pandemia marcaram a trajetória pessoal e profissional da cabo Teresa *, que ficou 13 anos casada com um PM.

A Universa, ela conta ter sofrido episódios de violência física e psicológica do agora ex-marido, de quem se separou recentemente e com quem teve dois filhos, hoje com 13 e 6 anos.

"Desde o meu primeiro filho, eu tinha indícios de que meu então marido me traía, mas não consegui provar. Não tive condições de romper o relacionamento com ele, desse jeito, ainda mais estando grávida", afirma.

Quando começou a trabalhar no período noturno, narra a policial, o marido passou a expressar fortes crises de ciúme que culminavam, de início, com uma espécie de perseguição dele à rotina de trabalho dela.

"Se ele me ligava, eu tinha que atender. Mesmo eu dizendo que, ainda mais por ser policial, ele deveria compreender que não podia incomodar meu trabalho daquele jeito. Então, ele começou a ir atrás de mim: aparecia de surpresa, checava minhas abordagens, onde eu estava, seguia a viatura em que eu estava... Um horror."

Paralelamente, explica Teresa, os indícios de infidelidade por parte do marido começavam a se materializar -mensagens pornográficas no celular, de madrugada, eram algumas delas. Em uma das discussões que tiveram a respeito das traições, ela propôs o término do casamento e foi agredida na frente dos dois filhos, ainda crianças de 2 e 9 anos.

"Nesse dia, ele me arrastou pelo corredor, apertou meu pescoço. Meu filho mais novo chorava, e o mais velho pedia que ele me largasse. Meu marido foi então até o quarto atrás da arma, que ele guardava em uma das gavetas da cômoda. Mas estava tão cego de ódio, dizendo que ia me matar que não achou a arma entre os tecidos. Gritei por socorro, mas meus vizinhos [ela morava em um apartamento de quatro imóveis por andar] não me ajudaram", diz.

Medo de vingança ou vergonha

Episódios de violência física não se restringiram a esse. Em outro, depois de ouvir uma das mensagens de voz enviadas ao telefone do marido, foi novamente confrontada ao pedir explicações.

"Nesse dia, que foi quando decidi por me separar, eu fiquei com hematomas pelo corpo, minha mão lesionou. Até hoje tenho algumas cicatrizes. Meu filho ficou tão nervoso que teve um sangramento no nariz. E até hoje ele se lembra disso. Já o mais novo ouviu o pai dele me ameaçando e perguntou: 'Mamãe, se você morrer, eu também morrerei?' Doeu demais ouvir isso."

A cabo fez terapia pela PM e pagou terapeuta particular ao filho mais velho. Ao caçula, diz, não teve condições de pagar acesso ao mesmo serviço uma vez que havia acabado de se separar.

A policial falou com a reportagem depois de dias de negociação e pediu que a conversa, por telefone, não coincidisse com a presença do namorado na casa dela --ela não fala sobre o assunto com ele. Outras mulheres vítimas de violência doméstica praticada por parceiros ou cônjuges policiais, também contatadas para esta reportagem, acabaram desistindo de falar alegando medo de vingança ou vergonha.

Questionada sobre como se sente hoje, a cabo afirma ter "admiração pela coragem" de mulheres que, como ela, denunciaram os episódios de violência contra uma autoridade que, em geral, deveria combater e reprimir essa mesma violência.

"Muitas mulheres passam por isso que eu passei, mas pensam que não têm condições de denunciar porque dependem financeiramente do agressor, ou não têm ninguém próximo que possa ajudá-las. Eu tenho o meu salário e pude sair de casa. E meu ex paga pensão aos filhos porque foi obrigado pela Justiça Militar", explica.

Acionado pela policial também na Justiça comum, o ex-marido dela segue no policiamento de rua.

"Vivo sob ameaça constante"

O relato da técnica de enfermagem Juliana corrobora, em certa medida, a constatação da cabo da PM sobre o porquê de muitas vítimas não saírem do ciclo de violência de policiais agressores.

"Estou afastada do meu trabalho há anos, por problemas de coluna, e acabou que virei pai e mãe dos meus filhos. Meu ex-marido paga a pensão dos meninos e também meu aluguel, mas vivo sob a ameaça constante dele de ter de sair de casa, ou de meu filho com autismo ficar sem terapia", desabafa.

Sobre a própria família, Juliana complementa: "Meus pais tentam me ajudar financeiramente como podem, com o estudo das crianças, mas meu aluguel ainda me mantém presa a essa situação".

Indagada sobre os planos que traça para a família, a técnica de enfermagem volta a mencionar os filhos.

"Por enquanto, eu vou sobrevivendo, um dia de cada vez. Porque preciso tentar evitar que meus filhos percebam esse ciclo de violência. Eles já percebem, mas só adultos terão consciência disso tudo. Quero que eles tenham uma cabeça boa, que sejam bons homens e respeitem as mulheres. Essa é a minha responsabilidade: criar dois homens para o mundo e enxergar, a tempo, eventuais sinais que necessitem ter o rumo corrigido."

O ex-marido de Juliana responde na Justiça comum por disparo de arma de fogo contra um carro em que ela estava.

* Os nomes das entrevistadas foram trocados a pedido delas, que alegaram receio de retaliações dos ex-parceiros ou de pessoas próximas.

Violência contra a mulher