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Empresária é morta por namorado policial; "Ele passava segurança", diz irmã

A empresária Ana Kátia Silva - Arquivo pessoal
A empresária Ana Kátia Silva Imagem: Arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

14/07/2020 04h00

Empreendedora do ramo de eventos, a empresária Ana Kátia Silva, 46, virou referência em Macapá. De um pequeno negócio, com capacidade para atender apenas 50 pessoas, ela expandiu seu empreendimento para festas com até 4.000 convidados.

A trajetória de sucesso, contudo, foi tragicamente interrompida no dia 8 de julho, quando Kátia foi morta com um tiro no peito, disparado pelo namorado, o policial civil Leandro Freitas, de 29 anos, segundo testemunhas. O inquérito da Delegacia de Crimes Contra a Mulher trata o caso como feminicídio. A defesa alega que o tiro foi acidental.

O assassinato aconteceu em uma semana de datas especiais para a família. Foi na madrugada seguinte ao aniversário da nora de Kátia e na véspera de a filha da vítima completar 11 anos. O filho mais velho fez 25 anos quatro dias depois da tragédia. "Eles choram muito por dentro", diz a irmã da vítima, Ana Teresa, de 50 anos. "A Kátia sempre foi uma pessoa que se cuidava bastante e colocava a família em primeiro lugar. Ela vivia muito feliz."

De acordo com a Polícia Civil, o tiro que matou Kátia teria sido efetuado enquanto o casal discutia para ir embora de uma pequena reunião familiar para celebrar o aniversário da nora da vítima.

Momentos antes do assassinato, Leandro Freitas disparou para o alto, na rua, para, de acordo com testemunhas, "mostrar que ali tinha um policial". O ato incomodou a vizinhança. Depois do tiro, Kátia tentou convencê-lo a irem para casa. O disparo então atingiu a vítima no peito.

Segundo a irmã da vítima, a família não sabia há quanto tempo o casal estava junto porque Kátia não deu detalhes sobre o namoro. Os parentes, porém, acreditam que o relacionamento era recente, pois a empresária nem chegou a apresentar Leandro aos pais. O policial está preso preventivamente.

Policial andava com arma na cintura

Segundo a Polícia Civil, Leandro está há menos de dois anos na corporação, ainda em estágio probatório. No dia do crime, testemunhas contaram em depoimento que o suspeito portava na cintura a arma do trabalho, uma pistola calibre .40.

Kátia o acompanhava desde a tarde de 7 de julho, em um aniversário de parentes de Leandro. O policial estaria consumindo bebida alcoólica. À noite, eles seguiram para a casa da nora da vítima, que também celebrava seu aniversário.

De acordo com a família, o policial apresentava sinais de embriaguez e comportamento alterado. Em determinado momento, por volta de 0h30, aponta a investigação, Leandro disparou para o alto. Os vizinhos acionaram a Polícia Militar, que se dirigiu ao local, mas retornou após conversar com o suspeito.

Kátia tentou convencer Leandro a ir embora. Quando ambos estavam sozinhos no carro do policial que estava na rua, ele teria disparado no peito da namorada, atestam os familiares. O filho mais velho da vítima, de 25 anos, correu para fora da casa e desarmou Leandro. O policial recebeu um disparo de raspão no ombro esquerdo. A investigação ainda não sabe quem provocou o ferimento.

A empresária ainda chegou a ser levada para o hospital, mas não resistiu. A família de Kátia diz que, apesar de não saberem detalhes sobre a vida do policial, o fato de ele ser servidor da segurança pública passava certa despreocupação.

"Ele sendo um policial, de certa forma, passava uma segurança. Mas o que aconteceu foi um ato de uma pessoa desequilibrada e despreparada. Essa pessoa não tem um mínimo de preparação para ser polícia. O tempo todo com a arma na cintura. Para quê? Por que não deixou em casa?", diz Ana Teresa.

Sonho de viajar em família

Mãe de três filhos, de 11, 20 e 25 anos, Kátia se casou duas vezes. O primeiro matrimônio foi com um policial civil, pai dos dois filhos mais velhos. O segundo com um segurança particular, assassinado em 2018 enquanto prestava serviço para uma empresa. A violência de que foi vítima teria sido a primeira em um relacionamento da empresária.

"Minha irmã nunca sofreu violência. Temos o princípio na nossa família de nunca aceitar qualquer coisa parecida com isso em relacionamentos", diz a irmã.

Além dos filhos, Kátia ainda deixou os pais e quatro irmãos. Antes de morrer, disse à irmã que nutria o sonho de levar toda a família para viajarem juntos. O destino já estava planejado: Santarém, no Pará, lugar onde os pais nasceram.

"Ela era nosso alicerce e nosso escudo. Para tudo ela envolvia a gente e nossos pais."

Por ser conhecida no setor de eventos, o velório de Kátia precisou ser controlado para não causar aglomeração de gente que pretendia dar o último adeus.

"Ela começou o bufê com capacidade para servir apenas 50 pessoas. Depois começou a participar de licitações, e hoje a empresa era referência, muito requisitada para formaturas e casamentos. O pessoal não parava de chegar na porta para o velório. Até controlamos a entrada por causa da aglomeração", conta a irmã.

Mobilização contra o feminicídio

O caso também mobilizou movimentos de mulheres e familiares de vítimas de feminicídio no Amapá. Uma campanha nas redes sociais sugeriu que internautas colocassem panos brancos em frente às suas casas no domingo (12) para pedir um "basta" na violência contra a mulher.

Diversas fotos foram compartilhadas nas redes sociais com os adereços. A Assembleia Legislativa do Amapá (ALAP) também colocou uma faixa branca na fachada para homenagear Kátia.

Defesa de suspeito fala em tiro acidental

Leandro Freitas está preso preventivamente desde o dia 10 de julho depois de passar por audiência de custódia.

A Polícia Civil também abriu procedimento administrativo para apurar a conduta do suspeito, que pode receber desde uma advertência até expulsão da corporação.

A defesa do policial argumenta que o disparo em Kátia teria sido acidental, durante uma luta corporal entre o suspeito e o filho da vítima.

Por enquanto, todas as testemunhas ouvidas pela Polícia Civil contrariam a versão do suspeito. Além disso, a perícia constatou pólvora na mão de Leandro.

"Tudo leva a crer em um acidente. Alguns dizem que ambos estavam dentro do carro, mas meu cliente nega", diz Charles Bordalo, advogado de Leandro.

Violência contra a mulher