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#Exposed e outras: Por que há tantas denúncias de assédio recentemente?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Ana Bardella

De Universa

19/06/2020 14h06

Em Brasilia, professores foram demitidos após alunas e ex-alunas de uma rede de colégios particulares denunciarem através do Twitter que foram assediadas. O mesmo aconteceu em São Paulo: dois professores foram afastados de uma ETEC após a mobilização de alunos na rede social, que usaram o espaço para mostrar a indignação perante suas condutas: um deles se masturbou em uma das aulas online, o outro foi acusado de já ter se envolvido com uma estudante.

No Twitter, crescem as denúncias de assédio através da tag "Exposed", que reúne relatos de diferentes tipos de experiências: desde relacionamentos abusivos até crimes, como vazamentos de fotos e estupro.

Uma página intitulada "Exposed Emo" divulgou uma conversa do músico Japinha, ex-baterista da banda CPM 22, com uma adolescente de 16 anos, no qual ele questionava se ela já havia tido relações sexuais. Após a confirmação do integrante de que a troca de mensagens era verdadeira, ele foi afastado do grupo. O movimento também tem acontecido nos Estados Unidos, onde as cresceram as denúncias de assédio de famosos. Esta semana, o ator Ansel Elgort, de "A Culpa É das Estrelas", e o comediante Chris D'Elia, o Henderson da série "Você" da Netflix, tiveram seus nomes envolvidos em denúncias de assédio de menores.

Por que tantas denúncias?

De acordo com a antropóloga Beatriz Accioly Lins, pesquisadora do núcleo de estudos sobre os Marcadores Sociais da Diferença, da USP, o número elevado de denúncias é resultado de um esforço do movimento feminista. "Na última década, o termo 'assédio' se popularizou diante de uma mobilização que visava problematizar atitudes desrespeitosas que antes eram tidas como naturais, tais como as cantadas de rua e as passadas de mão", explica. Atualmente, a legislação diferencia assédio de importunação sexual. No entanto, nos espaços de debate a palavra se popularizou.

As redes sociais têm papel importante e são usadas com frequência para acender o debate. Exemplo disso são as hashtags #MeuPrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto e, mais recentemente, #Exposed que surgiram para falar sobre violência de gênero. Para Juliana de Faria, jornalista e fundadora da ONG Think Olga, a internet funciona para mulheres que antes não tinham espaço na mídia, na literatura, no cinema e na comunicação em geral como um "megafone". "No espaço virtual elas se tornaram produtoras de seus próprios conteúdos, sem pedir permissão para ninguém — e isso fortaleceu a conversa".

Se antes acreditavam que seus sofrimentos, suas violências e experiências eram absolutamente individuais e particulares, descobriram que não eram. Que acontece com as mais diversas mulheres. O único denominador comum que existia entre as histórias é o assediador" Juliana de Faria, fundadora da ONG Think Olga.

Isso explica porque muitas das mulheres que estão fazendo a denúncia são jovens. "Sinto que elas já navegam por um universo no qual podem falar mais abertamente sobre suas experiências, sofrendo sim, retaliações, mas também sendo acolhidas", opina.

Obstáculos de uma denúncia

É comum que, após fazer um desabafo, as mulheres sejam questionadas sobre sua veracidade. "Isso acontece porque, como sociedade, a nossa primeira reação é tentar pensar o que a vítima poderia ter feito de diferente, em vez de ouvir e acolher", afirma Beatriz. O principal questionamento costuma ser: "Por que ela só falou agora?".

Juliana explica que são inúmeros os motivos que levam uma vítima a adiar o momento de contar sua experiência. "Entre eles está a falta de entendimento imediato de que se tratou de uma violência; o medo de ser culpabilizada ou não ser levada a sério e até de passar por algo semelhante novamente". Ela também alerta para o "juriquês" e as burocracias. "Os pormenores de oficializar a situação podem afastar uma vítima desse processo".

Quando uma fala, a outra se encoraja

Apesar das dificuldades, Beatriz acredita que uma denúncia instiga a outra. "Quando você entende que não é só com você, que não é sua culpa e que isso se trata de uma questão social, começa a construir uma narrativa diferente e sente mais liberdade de expor". Juliana concorda: "É válido rever casos como o da Xuxa, que denunciou as violências sexuais que sofreu na infância na televisão e depois isso o número de denúncias no 180 inflou. Quando vemos que é possível, nos sentimos mais confortáveis para reproduzir".

Casos assim explicam como a coragem é um fenômeno "viral": quando uma onda de denúncias surge, como é o caso da hastag "Exposed", logo outras do mesmo tipo começam a ganhar força.

Violência contra a mulher