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Christiane Pelajo: "Como julgar quem vai para a rua para ter o que comer?"

Christiane Pelajo diz que a cobertura jornalística sobre o novo coronavírus é a mais importante da carreira - TV Globo
Christiane Pelajo diz que a cobertura jornalística sobre o novo coronavírus é a mais importante da carreira Imagem: TV Globo

Luiza Souto

De Universa

20/05/2020 04h00

A jornalista carioca Christiane Pelajo nunca sentiu medo de nada, fosse da morte, de andar de avião ou de falar em público. "Li uma pesquisa que mostra que esses três estão entre os maiores temores da humanidade", ela explica. Mas, quando a pandemia do novo coronavírus chegou no Brasil, ela deparou-se com o sentimento — sanado, segundo conta, com muita meditação.

Enquanto, como todos nós, lidava com o desconhecido e buscava conviver melhor com o isolamento social sete meses após um divórcio, a âncora do "Jornal GloboNews - Edição das 16h" foi convocada de volta à Globo, de onde havia saído fazia cinco anos. O chamado era para apresentar por dois meses o "SPTV 2ª edição" no lugar de Carlos Tramontina, 64, afastado por estar no grupo de risco da Covid-19.

Ansiosa, como se descreve, a jornalista de 49 anos que tinha o sonho de falar na TV desde os 5 diz que tomou para si a cobertura monotemática sobre a doença como "uma missão de vida", mas nem por isso deixa suas convicções pessoais entrarem no lide da matéria — como jornalistas chamam a abertura de um texto. "Não posso eu, Chris Pelajo, criada na maneira 'X', com pensamento 'Y' e toda uma carreira, querer te convencer a pensar como penso. Acho que não tem que fazer isso nem com amigos", afirma.

Nos mais de 20 anos de profissão, a jornalista garante nunca ter sido confrontada pelo machismo e se mostra agradecida aos pais pela educação igualitária que recebeu junto aos dois irmãos mais novos, que são homens. "Não era tratada como a filhinha, e as coisas valiam para os três, de igual para igual", ela lembra.

Leia abaixo os principais trechos da conversa.

Você participou de grandes coberturas, como o enterro da princesa Diana (1997) e a morte do papa João Paulo II (2005). Avalia a cobertura sobre o novo coronavírus como seu maior desafio?
Sem dúvida nenhuma. Mais que um desafio, é uma missão. A mais importante para a minha carreira. É uma missão de vida mesmo, não só para mim como para qualquer jornalista da nossa geração. A gente nunca passou por algo parecido.

Como você, pessoalmente, está se sentindo em relação à pandemia?
No começo, tive mais medo do que tenho agora. E estou fazendo várias coisas para tentar me acalmar e manter a saúde mental. Dei sorte que estava fazendo curso de mindfulness [técnica para manter-se num estado de atenção plena], que acabou na semana anterior à pandemia entrar de fato no Brasil, no comecinho de março. E isso está me fortalecendo muito. Medito absolutamente todos os dias, duas vezes: de manhã, depois da ginástica, e faço o escaneamento corporal [técnica do mindfulness] para me ajudar a dormir. Tinha certeza absoluta de que jamais conseguiria sentar dez minutos para meditar -- e já fico meia hora. Se não fizesse isso, acho que estaria no grau máximo da ansiedade. Mas não estou. É devagar. E com gentileza. É um momento muito difícil, porque somos seres sociáveis. Gosto de estar com amigos, de sair para jantar. Eu me separei há uns sete meses e estou sozinha em casa. Tudo bem, saio para trabalhar todos os dias, mas quando volto para casa fico sozinha. E não é fácil.

Para quem está sozinho, o que funciona para passar por isso?
Meditação. E qualquer pessoa que já medite, até o professor de mindfulness, pensa em outros problemas [durante a reflexão]. Deixa vir e ir embora. Chorar faz parte também. A gente foi criado, de maneira geral, a querer reprimir os sentimentos ruins e só abraçar os bons. Não! Tem que admitir que está com aquele sentimento. Separou? É triste, então tem que, de certa forma, aceitar que está sentindo aquilo e lidar. Um dia passa. Como a pandemia. O importante é lembrar que você já sentiu isso antes e passou. E que não é a única no mundo a passar por todos os sentimentos.

E o que traz felicidade para você hoje?
Duas coisas. Uma é ver as pessoas de fato usando máscaras, pelo menos por onde eu ando -- isso me dá um alento. E pude perceber a solidariedade das pessoas. Vejo gente arrecadando dinheiro para comprar máscaras, álcool em gel e outras coisas. É neste momento que aparece o melhor do ser humano.

Apesar das campanhas e da tentativa de informar, os jornalistas vêm sofrendo ataques diários, até por pedir isolamento social, por exemplo -- principalmente as mulheres, talvez porque acham ainda que somos mais frágeis. Você passou por isso?
Eu, pessoalmente, não recebi nenhum ataque direto. Mas a gente conversa todos os dias com profissionais de saúde, autoridades em geral e pessoas que estão passando ou passaram pela doença, e está muito claro o que precisamos fazer, que é usar a máscara e adotar o isolamento social. Esse último, infelizmente, não está funcionando muito bem. Especialistas defendem uma taxa de 70% para achatar a curva, e fui buscar um cientista de dados, ou seja, na matemática, a explicação para isso. E o Maurício Féo explica perfeitamente o crescimento exponencial da pandemia, que sobe de 4 para 8, depois 16... Não é linear, é mais forte. E apesar de estarmos numa taxa baixa de isolamento, ele mostrou que a partir do momento em que a quarentena foi decretada, a curva diminuiu.

Mas como falar para ficar em casa a quem precisa trabalhar?
Acho que tem algumas questões aí. Óbvio que a gente vive num país pobre, e é evidente que para as pessoas ficarem em casa o dinheiro precisa chegar a elas. Quando você vê ambulantes na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, tenho certeza de que muitas daquelas pessoas não estariam ali se dessem dinheiro para elas comprarem comida. Eu mesma acompanho cinco casos de pessoas que preenchem o pré-requisito para receberem o auxílio emergencial. Dessas, uma já recebeu a primeira parcela, a outra está perto de receber e outras nem tiveram resposta. Isso é muito complicado. Nós, que somos de classe média, não conseguimos imaginar o que é não ter comida.

Como julgar a pessoa que vai para a rua tentar fazer qualquer coisa para ter o que comer?

Quais mudanças você acredita que veremos no mundo pós-pandemia?
As pessoas vão começar a ter mais preocupação com a questão de higiene, além de haver uma mudança em relação a viagens, a nossa forma de nos locomover. Todas as companhias aéreas, no mundo todo, estão sofrendo. E tem ainda a questão da solidariedade -- acho que esse é o lado positivo. As pessoas vão pensar mais na questão social, porque a pandemia mostrou que não adianta a gente fazer nossa parte se o outro não fizer. Como aquela loucura que a gente viu, no começo, de pessoas estocando produtos do mercado. Não adianta comprar tudo para você se a outra pessoa não vai ter.

Não adianta achar que não vai chegar perto, porque esse vírus não respeita nada nem ninguém.

Várias mazelas estão sendo expostas junto com o novo coronavírus, como o aumento do número de casos de violência contra a mulher. Você já passou por episódios de machismo na vida e carreira?
Não. Nunca precisei encerrar, por exemplo, uma entrevista por causa disso ou fui afrontada dessa maneira. Se a gente parar para analisar, atualmente temos muito mais jornalistas mulheres que homens, pelo menos nas redações de TV que eu conheço. Na GNews, temos mais comentarista mulher que homem, inclusive de política, que é um assunto teoricamente tido como mais masculino.

Como era a conversa sobre machismo em casa?
Eu tenho dois irmãos homens. Sou a mais velha e minha criação foi muito igualitária. Não era tratada como a filhinha e meus pais sempre foram muito abertos a qualquer tipo de conversa. As coisas valiam para os três, de igual para igual. Isso foi muito importante na minha criação. Na casa de amigas, eu via alguns tratamentos diferentes, como o filho poder levar a namorada em casa e a menina não. Acho que as famílias [hoje] estão se preocupando com essa questão mais igualitária e isso é absolutamente positivo.

Há um movimento para que famosos comecem a se posicionar mais sobre o governo. Você acredita que nós, jornalistas, temos que nos posicionar mais, quando, por exemplo, assistimos a um presidente falando que o coronavírus é uma gripezinha?
Eu já cheguei a me emocionar no ar com uma mãe que tinha acabado de perder um filho recém-nascido para a Covid-19. Natural. Nesse tipo de redenção não vejo problema algum. Mas não posso eu, Chris Pelajo, criada na maneira "X", com pensamento "Y" e toda uma carreira, querer te convencer a pensar como penso. Acho que não tem que fazer isso nem com amigos. A gente aprende na aula número 1 da faculdade a ouvir todos os lados. Acho que qualquer manifestação é bem-vinda, porque estamos numa democracia, mas com limites. Com violência, aí não funciona. O que a gente tenta fazer é colocar pessoas que tenham visões diferentes sobre aquele mesmo assunto.

Jornalista tem que apresentar o cardápio, e quem vai chegar à conclusão é o telespectador.

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