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Ex-banheira do Gugu, Renata Banhara visita delegacias para ajudar mulheres

Renata Banhara em frente à 6ª Delegacia de Defesa da Mulher, em São Paulo - Gabi Di Bella/UOL
Renata Banhara em frente à 6ª Delegacia de Defesa da Mulher, em São Paulo Imagem: Gabi Di Bella/UOL

Camila Brandalise

De Universa

20/05/2020 04h00Atualizada em 20/05/2020 09h30

Renata Banhara, modelo que ficou famosa na década de 1990 ao participar do quadro "Banheira do Gugu", é, ela própria, sobrevivente de violência doméstica. Em um caso ocorrido em 2018 que corre em segredo de Justiça, ela processa um ex-marido por ter sido espancada em casa. Por sorte, conta, tinha outro imóvel em seu nome, para onde se mudou. Na época, teve a companhia do filho mais velho, hoje com 22 anos, para denunciar o ex e diz ter sido bem tratada na delegacia.

"Estava ensanguentada. De pijama e com muita fome, já não conseguia pensar direito. Foi aí que percebi que a vítima, nessa situação, precisa de ajuda não só policial", diz. Desde então, faz plantões em delegacias da mulher de São Paulo aos finais de semana, quando normalmente há mais casos. Deu ao projeto o nome de Sentinela do Bem. Leva uma bolsa térmica com garrafas de água, bolachas doces e salgadas, lenços de papel e uma camiseta. "Para o caso de a mulher estar suja e precisar se trocar, como aconteceu comigo."

Universa acompanhou no último domingo um dos plantões que Renata dá em frente a delegacias. Nas duas unidades visitadas, em um dia que ela considerou "calmo", quatro vítimas prestaram queixas. Todas acompanhadas por familiares e sem precisar de ajuda. Ainda assim, Renata as abordava para perguntar se precisavam de algo.

"Você sabe que agora ele quer te ver morta, não sabe?", disse a uma vítima que saía da 6ª Delegacia da Mulher em Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Com os dois olhos roxos e um sangramento no globo ocular esquerdo, a mulher de cerca de 25 anos responde que sim, sabe disso. "Essa não foi a primeira vez."

Conta que o ex-marido a procurou, na madrugada de sexta-feira (15), pedindo para ficar com o filho do casal. Estava bêbado e, diante da negativa dela, a espancou. "Mas daqui a três meses ele vai querer voltar, vai vir a fase do romance, não ceda. Continue firme", prossegue Renata. "Você precisa de ajuda para ir até o IML (Instituto Médico Legal)?" A vítima nega a ajuda com um sorriso, agradece e vai embora.


"Legitimidade por experiência própria"

Renata conta que tudo o que passou a fez ter legitimidade para entrar na causa. Hoje, se diz uma defensora das mulheres. Além dos plantões nas delegacias, arrecada doações para ajudar vítimas em uma casa de acolhimento, também na zona sul. Recebe mensagens em seu Instagram de mulheres pedindo ajuda e tenta orientá-las a como proceder para conseguir superar o ciclo da violência.

Renata Banhara - Gabriela Di Bella/UOL - Gabriela Di Bella/UOL
Imagem: Gabriela Di Bella/UOL

Também acredita que é preciso agir para mudar a legislação que, na sua opinião, é ótima no papel, mas na vida real, "não dá em nada". "Meu caso, por exemplo, vai levar mais dez anos e não vai ter se resolvido. Por isso insisto tanto para que as mulheres continuem com as denúncias, não retirem e possam ir até o fim. Quanto mais casos correndo, será mais pressão para que os processos deem algum resultado." Seu outro objetivo é mobilizar delegados para que seja obrigatório haver uma assistente social nas delegacias da mulher.

Ela afirma que, depois de ter passado por uma situação de agressão, tem "lugar de fala" para poder apontar onde o combate à violência contra a mulher pode melhorar. Sobre seu caso, dá detalhes da violência, mas pede que o nome do ex seja mantido em sigilo para poder se proteger.

"Era véspera do aniversário de São Paulo, eu estava em casa e pedi para conversar com meu então marido porque ele estava levando uma mulher para nossa casa quando eu não estava lá. Perguntei sobre isso, e ele começou a me bater. Caí da escada, ele me chutando, me batendo pela casa inteira. Foi 1 hora e 40 minutos assim. Até que consegui sair e ir para a delegacia com meu filho, que me protegeu", diz.

Ela diz que, antes disso, vivia um casamento tranquilo. Foi um problema grave de saúde, uma infecção bacteriana no cérebro que a colocou em risco de morte, o estopim para que o casal se distanciasse. Depois de dois anos de idas e vindas ao hospital e várias cirurgias, ela voltou para casa, mas o casamento tinha acabado. "Se ele não queria ficar comigo, ok. Só não podia ter feito o que fez." Hoje, diz perceber que já durante o tratamento vinha sofrendo violência psicológica. "Tentava me rebaixar, criticava minha aparência. Mas eu não percebia."

Na época, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo confirmou ao UOL o registro de ocorrência de violência doméstica e o pedido de medida protetiva. Renata ressalta que não se trata do cantor Frank Aguiar, com quem tem um filho de 15 anos.

Doações à casa de acolhimento

Renata também faz ações no CAE (Centro de Acolhida Especial) Mulheres, em Santo Amaro, que recebe vítimas de violência. Seu trabalho consiste em pedir doações para o centro, seja de pessoas que queiram ajudar de alguma maneira ou de marcas, doando produtos que vão de itens de higiene à comida.

No Dia das Mães, descarregou um caminhão com caixas de cosméticos doados por uma marca. No mês de maio, foram seis entregas com quatro toneladas de produtos: comidas, mobília e produtos de limpeza. "Entreguei batom e outros itens. É importante elas se sentirem bonitas. Mas o que elas mais gostaram foi o sabão em pó. A situação é de extrema vulnerabilidade, poder lavar todas as roupas, delas e dos filhos, foi uma alegria."

No dia da entrega dos cosméticos, o filho mais velho a acompanhou. "Educo ele para ser um homem gentil e generoso. E que saiba respeitar as mulheres", diz. "Faço esse trabalho com as vítimas também para que ele e meu outro filho se lembrem de mim como a mãe que conseguiu [superar a violência]. Não quero que ele ou meu outro filho pensem na mãe como a que posou para a Playboy", comenta.

Com os dois filhos grandes e independentes, Renata, agora, dedica sua vida à causa. "Não quero mais me relacionar com ninguém depois do que passei. Minha vida é isso, ajudar outras mulheres."

Violência contra a mulher