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No home office, eles descobrem que o parceiro é péssimo colegas de trabalho

As reuniões por vídeo do gerente de projetos Gabriel Werlich atrapalha concentração de sua namorado, a produtora de conteúdo Sarah Soares - Arquivo pessoal
As reuniões por vídeo do gerente de projetos Gabriel Werlich atrapalha concentração de sua namorado, a produtora de conteúdo Sarah Soares Imagem: Arquivo pessoal

Emma Alves

Colaboração para Universa

26/04/2020 04h00

A produtora de conteúdo Sarah Soares, 27, divide uma casa com o namorado, o gerente de projetos Gabriel Werlich, 27, há cerca de quatro anos. Porém, eles começaram a trabalhar juntos, no mesmo espaço, apenas há um mês, quando o mundo entrou em quarentena por conta da pandemia de coronavírus. "Eu já trabalhava de home office e tinha a casa toda para mim. Na quarentena, as coisas começaram a mudar porque, de uma certa forma, é como se ele estivesse invadindo o meu espaço", fala Sarah. O fato de ele ficar o dia todo em reuniões por vídeo não ajuda na convivência. "O barulho me incomoda muito, porque ele sempre está conversando com alguém. Tento entrar em um fluxo criativo e não consigo, já que o tempo todo ele está falando", suspira. O incômodo foi acumulando e virou motivo de briga entre o casal.

Seu namorado ou namorada podem ser uma pessoa muito carinhosa e atenciosa, mas isso não quer dizer que ela vai ser um bom vizinho de baia. "Nós desempenhamos papéis muito diferentes em cada área de nossa vida. Não é porque moramos com nosso parceiro que sabemos qual é a personalidade dele no trabalho e isso pode causar um estranhamento nesse momento", fala o psicólogo e terapeuta de casais Yuri Busin, especializado em neurociência do comportamento. Ao dividir o espaço de trabalho com os companheiros, muita gente tem percebido que ele é o tipo de vizinho de baia que você gostaria de ter em longe.

É o que tem acontecido com a arquiteta Roberta Macedo, 35, e a namorada, a analista de dados Giovana Albuquerque, 30. "Sou uma pessoa bem organizada, minha mesa é um brinco. Ela, por sua vez, não é exatamente assim tão 'asseada'", diz Roberta. A gota d'água foi a arquiteta encontrar, um dia pela manhã, uma maçã comida dentro de um copo na mesa do home office. "A Giovana ainda estava dormindo, então com certeza aquilo estava ali desde o dia anterior. Fiquei muito brava na hora".

O diretor de arte Fabiano*, 40, por sua vez, percebeu que lidava muito bem com o tabagismo do marido apenas à noite e nos fins de semana. "Ele costuma ir até a varanda fumar, mas, como ele fuma muito, a casa acaba ficando com muita fumaça e isso tem feito mal para a minha alergia", diz.

Dividir espaços e estipular um"horário" comercial

O especialista em recursos humanos e em engenharia humana Clédson Bernardo aconselha que a melhor forma de manter a paz é, se possível, trabalhar em ambientes diferentes. "É o ideal para que haja uma separação do que é assunto de trabalho e o que é a relação amorosa de ambos." Isso não quer dizer que o casal deve cortar contato durante o expediente. "Vocês podem tirar folgas juntos para tomar um café, esticar as costas e falar sobre o que está acontecendo no dia."

Roberta e Giovana descobriram que esta era a melhor solução para ela. Após algumas discussões, a analista foi "banida" do escritório e montou sua estação de trabalho na mesa de jantar. "Prefiro não ter onde sentar para comer do que conviver com esse tipo de coisa, porque estava acabando com o que tínhamos de legal", diz a arquiteta. "E é ótimo passar para pegar uma água e dar um beijinho nela."

Yuri Busin aconselha também criar algumas regras de convivência e horários. "Se for interessante compartilhe as agendas de trabalho para que o outro saiba, por exemplo, quando você entrará em uma conferência." Sarah e Gabriel fizeram um acordo semelhante: a produtora de conteúdo tem menos mobilidade, já que usa monitor, então, quando o gerente de projetos precisa fazer uma chamada de vídeo, ele é convidado a se retirar. "E estou também deixando mais claro o que me incomoda em vez de deixar isso ficar me incomodando."

O psicólogo diz que é importante que as pessoas racionalizem essas conversas sobre convivência durante o expediente. "Não há nenhum problema em bater um papo racional sobre isso. Cada um tem um hábito diferente no trabalho, então é preciso ouvir o que é crucial e mais confortável para cada um", diz Yuri. Por isso, ficar segurando a "bronca" como Fabiano pode piorar a situação. "Estou me preparando, mas sei que terei que ter esse papo. Enquanto isso, tenho evitado trabalhar perto da varanda e estou aproveitando mais outros espaços do apartamento."

Ter uma conversa franca e respeitar o espaço do outro não é bom só para a convivência, mas pode impulsionar a carreira do casal. "Com seu parceiro, você pode ser mais transparente sobre seus problemas e, caso queira, pode pedir conselhos sinceros", fala Clédson Bernardo. Este, no entanto, é um ponto de atenção, já que nem todo mundo quer ouvir pitaco nesse momento. Ainda assim, não há, de acordo com os especialistas, conselho mais importante do que a do seu companheiro. "Não há colega de trabalho mais interessado no seu bem estar e no seu sucesso do que a pessoa que você ama e com quem divide a vida", diz o especialista em recursos humanos.

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