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Damares prevê boom de mulheres agredidas e diz querer rever seu estuprador

Luiza Souto

De Universa

10/04/2020 04h00

Após dormir apenas três horas e almoçar marmita com batata frita trazida de casa, Damares Alves defendeu em entrevista a Universa que é hora de voltar ao trabalho. Dando expediente em seu gabinete, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos segue a linha do presidente Jair Bolsonaro e diz que o isolamento como medida para conter a pandemia do novo coronavírus deve ser feito apenas pelas pessoas mais vulneráveis, enquadradas no chamado grupo de risco.

Ela diz ainda que o presidente começou suas ações contra o contágio enquanto "governadores estavam fazendo o Carnaval", e não vê irresponsabilidade ao ouvi-lo comparar a doença a uma gripezinha. "Temos que entender que ele é um ser humano, tem muita pressão sobre ele. Ele entende que houve alguns exageros. É tudo muito novo."

Enquanto a pandemia se espalha pelo país, a ministra trabalha focada em conter o aumento de casos de violência contra a mulher, agravado agora pelo isolamento social, que impõe à vítima mais tempo de contato com seu algoz. Damares acredita numa explosão no número de denúncias, sobretudo depois de sua pasta lançar um aplicativo para denúncia online. "Estamos aguardando um boom, infelizmente."

Apesar disso, acredita que os homens enquadrados na Lei Maria da Penha podem ser recuperados, o que levou o governo a transformar em lei projeto de 2016 que torna obrigatória a presença do agressor em programas de reeducação e em acompanhamento psicossocial.

Estuprada por dois pastores quando criança, Damares diz que está se preparando para encontrar um dos agressores. Quer que ele explique seu "modus operandi" no crime. Pondera que não recomenda a nenhuma vítima fazer o mesmo, e alerta: "Tu achas que um homem desse não vai para o inferno? Vai para o inferno, sim".

A seguir, trechos da entrevista feita pelo Skype com a ministra. A íntegra está disponível no Youtube e no podcast UOL Entrevista.

UNIVERSA: Ministra, por causa do isolamento social provocado pelo coronavírus, países têm observado aumento nos casos de violência contra a mulher. Recentemente, o ministério lançou o aplicativo Direitos Humanos BR, para registro de denúncias, e o site ouvidoria.mdh.gov.br disponibiliza atendimento a vítimas. Houve aumento dos casos também no Brasil?

DAMARES: O nosso [Ligue] 180 indica que cresceu só 9%, mas porque a vítima precisa falar e [é mais difícil quando] o agressor está sob o mesmo teto. Observando o que aconteceu no Rio de Janeiro, que a partir do momento que passou a permitir que as vítimas façam um boletim de ocorrência virtual viu seu número de denúncias subir 50%, percebemos que tínhamos que dar a ela um instrumento para que, em silêncio, ela pudesse fazer a ocorrência.

Estamos aguardando um boom [de registros], infelizmente, porque o estado de São Paulo também já começou a permitir o boletim de ocorrência online e mais quatro Estados estão estudando essa possibilidade.

Muitas vítimas alegam que não denunciam porque acham que não adianta. O que o governo pode fazer para que elas confiem na Justiça?

A mulher precisa acreditar que hoje a rede de proteção tem dado algumas respostas, e não só o poder público. Encontramos na sociedade um movimento de apoio de inúmeras instituições. A mulher que quer denunciar terá uma resposta. E se, ao procurar um serviço de proteção, ela verificar que não tem para onde ir, a responsabilidade de proteção é do Estado.

Ela paga impostos e tem a obrigação de cobrar proteção. Tem que começar a abrir a boca.

Se naquela delegacia ou naquele órgão de proteção ela não for bem recebida, pode usar as redes sociais ou ligar para o 180, onde com certeza vai receber uma resposta. A rede de proteção da mulher continua atuando, os abrigos estão em pleno funcionamento. Falei com o ministro do Turismo [Marcelo Álvaro Antônio] para usar a rede hoteleira caso tenha um boom de casos nesse momento de quarentena.

Que as mulheres saibam que não são obrigadas a ficar de quarentena sob o mesmo teto que um agressor.

Além de incentivar mais denúncias, o ministério tem publicado cartilhas sobre a covid-19. Uma delas, voltada para o público LGBT, sugeria que profissionais do sexo se adaptassem para oferecer serviços pela internet. Esse trecho foi retirado. Por quê?

Aquela cartilha estava em construção e não tinha sido aprovada, exatamente porque causaria todo esse problema. Tiramos essa parte, mas é uma cartilha muito boa. Estamos trabalhando muito com o público LGBT, especialmente na qualificação profissional de travestis. Aquela parte dos profissionais do sexo era só uma conversa entre os técnicos. Quando saiu a matéria, fiquei muito preocupada com o preconceito relacionado aos profissionais do sexo. Neste momento, temos que mandar um recado para eles: se cuidem.

A senhora não está em isolamento social. Como tomou essa decisão?

Fiquei em isolamento nos primeiros dias, acho foram nove, quando estava com uma suspeita de gripe. Tenho uma filha indígena e eles estão sempre no grupo vulnerável, apesar de ela estar comigo há muito tempo. Fiz o exame e deu negativo. Faço parte do comitê de crise [do governo contra a pandemia] e nosso ministério está coordenando duas atividades. Não posso, nesse momento, ficar em casa. Estou com dois funcionários na sala e em todo ministério não são mais de seis. São servidores que não têm crianças ou idosos em casa.

Durmo apenas 3, 4 horas por noite. Os celulares não param. Os ministros estão se falando o tempo todo.

Na sua avaliação, o isolamento social aplicado hoje no país é o mais correto?

Entendo que a gente precisa começar a voltar para o trabalho. Concordo com o presidente que o isolamento vertical vai funcionar, separando o grupo de risco. Algumas pessoas precisam sair para trabalhar: esse país não pode parar.

A senhora avalia que o presidente foi irresponsável em algum momento desde o início da crise?

No início de fevereiro, o presidente começou a tomar todas as medidas necessárias. Temos decreto assinado no dia 3 de fevereiro [ministra não menciona qual decreto], quando governadores estavam fazendo o Carnaval. Estou nos bastidores trabalhando com relação ao coronavírus há dois meses, falando com abrigos de idosos, de crianças, conselhos tutelares.

Tomamos medidas certas, na hora certa. Não tem omissão. Havia uma expectativa de que chegaríamos hoje a mais de 5.000 mortos.

Estamos com muitos mortos, e uma vida vale mais que o mundo inteiro, mas hoje não chegamos a esses milhares. Nosso presidente está com o coração nisso. Queria muito que o Brasil entendesse as angústias do presidente Bolsonaro, entendesse o peso que está no ombro desse homem. Ele é um ser humano, tem muita pressão sobre ele. E ele entende que houve alguns exageros. É tudo muito novo. Todo mundo vai ter que aprender a lidar com isso, então vamos todo mundo ter um pouco de paciência, um pouco de compreensão.

Líderes religiosos pediram para as igrejas não fecharem, e o pastor Silas Malafaia fez um vídeo sugerindo que a quarentena fosse uma farsa. O que fazer para que esse tipo de discurso não gere desinformação?

Logo no início, eu me reuni com as lideranças evangélicas e católicas. Elas mesmas tomaram a iniciativa de evitar as grandes aglomerações e a gente também orientou nesse sentido. Mas a igreja deve permanecer aberta, não com grandes aglomerações, porque vai ter um momento que nós vamos precisar dessas instituições.

Em algumas cidades, a igreja é o único lugar para onde uma mãe com um filho em surto corre para pedir socorro. É para um padre ou pastor que uma mulher pede socorro quando o marido está bêbado. Nos próximos dias, vamos precisar das instituições para acolhimento de pessoas de rua, de mulheres e idosos. A igreja tem um papel importante no conforto e no consolo e na ajuda emergencial.

Voltando à violência contra a mulher, foi sancionada uma lei que estabelece a presença do agressor enquadrado na Lei Maria da Penha em programas de reeducação e acompanhamento psicossocial. Eles têm chance de ser recuperados?

A experiência nos mostra que menos de 5% dos homens que participam desses grupos reflexivos voltam a agredir a companheira. O agressor, na grande maioria, já veio de um lar violento. Uma criança que vive num lar violento, quando cresce, tende a ser violenta também.

Essa lei dá a oportunidade de restaurar esse agressor. Prender, mandar pagar cesta básica, usar tornozeleira ou fazer serviço comunitário não mudaria esse comportamento.

Claro que não são todos os casos, como o do homem que mata. É preciso uma avaliação psicossocial.

A senhora sofreu estupro por dois pastores na infância, e recentemente declarou que está se preparando para se encontrar com um deles. Por quê?

Eu descobri que ele está vivo. Em 2011, eu estava dando uma palestra num estado do Norte. Quando contei a minha história, falei o primeiro nome do agressor para um grupo de religiosas. Ao final, uma dessas mulheres me abraçou e, no meu ouvido, disse: "Quem te agrediu foi fulano de tal". Eu me assustei e a empurrei, porque eu não havia dito o segundo nome dele. Foi quando ela disse: "Ele também me estuprou quando eu tinha oito anos".

Eu encontrei uma segunda vítima desse homem. Quantas outras nós temos no Brasil? Então resolvi ter um encontro com ele, mas não recomendo para ninguém. Não é uma terapia. Estou escrevendo sobre abuso, fazendo uma grande pesquisa, e quero saber quantas mais [ele estuprou] e o modus operandi dele.

Ele já concordou em falar?

Não. Ele nem sabe que eu existo. É um desejo meu e estou me preparando, porque não tenho nenhuma empatia por ele. Confesso a você que é muito difícil. Tenho uma repugnância muito grande. Não existe uma fórmula mágica para apagar da mente [a violência sofrida], temos que aprender a lidar com esse sofrimento. Eu queria dizer para as pessoas: se der vontade de chorar, chore. Eu me considero uma mulher curada, mas eu choro quando eu conto minha história.

A senhora já disse que ele vai para o inferno. A senhora o perdoou?

Perdoei. E ele vai pro inferno, sim. Você acha que um homem como esse não vai para o inferno? Depois que eu descobri que pode haver mais e mais vítimas? Vai pro inferno. É a lei da semeadura: você semeia, você colhe. A minha fé diz que só Jesus pode libertá-lo do inferno.

Há uma pesquisa do Datafolha dizendo que a senhora tem uma alta popularidade. Isso a faz cogitar uma possível candidatura?

Não. Primeiro, porque não sou eu, o ministério é que foi bem avaliado. O presidente construiu um extraordinário ministério.

Mas que sofreu corte de verba.

Sofreu, mas estamos conseguindo fazer tudo na parceria. E esse ministério não é de execução, mas de articulação e de direito. Eu não tenho nenhuma pretensão política. Tudo que eu quero é terminar esta gestão, entregar o ministério pronto, com as políticas públicas acontecendo, cumprir meu papel e ir para casa curtir minha filha e meus indiozinhos.

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