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"Mãe", "irmã", "madrasta": por que estes termos são febre em sites pornô?

Qual a motivação para consumir este tipo de conteúdo? - iStock
Qual a motivação para consumir este tipo de conteúdo? Imagem: iStock

Ana Bardella

De Universa

02/12/2019 04h00

Termos que remetem a relações sexuais entre familiares e pessoas do convívio próximo são febre na indústria pornográfica. Para constatar, basta entrar em sites famosos como PornHub, XVideos e RedTube. Na pesquisa feita por Universa, somando a página inicial dos três sites, no mesmo dia encontramos quatro vídeos cujos títulos incluem variações do termo "mãe", quatro de "madrasta", um de "pai", um de "meia-irmã", um de "irmã postiça" e um de "prima".

Por que, afinal, os usuários têm buscado e consumido este tipo de conteúdo? De acordo com a psicanalista Andréa Ladislau, o que explica o comportamento é o fetiche. "Existem pessoas que sentem prazer em imaginar ou assistir vídeos nos quais os atores interpretam personagens da mesma família. Muito disso gira em torno de ser um tipo de relação proibida, fora dos padrões da sociedade", aponta. A profissional afirma ainda que os homens são os mais propícios a desenvolver este tipo de fetiche. "Principalmente aqueles de perfil recatado, mas que no fundo escondem um quê psicológico de perversidade", opina.

O desejo fica só na tela?

Para Ellen Moraes Senra, psicóloga especialista em terapia comportamental, não é possível generalizar o comportamento de quem consome o conteúdo. "Há quem veja uma vez, motivado pela curiosidade. Há quem faça disso um hábito, mas restrito ao ambiente digital. E existem pessoas que trazem o fetiche para a realidade e até tentam se aproximar de algum parente", detalha.

Mas a linha é tênue: mais do que um desejo estranho, quando o interesse sexual se volta para adolescentes ou crianças, se torna crime. É preciso lembrar: mais da metade das vítimas de abuso sexual no Brasil tem menos de 13 anos e os praticantes dos atos são, em sua maioria, pessoas de convívio próximo. "Além disso, pesquisar por conteúdos eróticos envolvendo crianças é pedofilia", relembra a psicóloga.

Gislane Gomes tem 28 anos e participa de grupos militantes contra a pornografia. Na sua visão, quanto mais a indústria disponibiliza esse tipo de material, mais contribui para os crimes de abuso sexual infantil. "Ainda que os atores estejam somente representando um vínculo como o de pai e filha, isso normaliza o ato e suaviza a gravidade de situações do tipo", defende. Gislane, que participa do movimento Recuse a Clicar e administra a página Feministas Antipedofilia no Facebook, relembra ainda que a maior parte dos estupros de crianças são cometidos por homens.

Como afeta a sexualidade?

Andréa aponta ainda para o risco do excesso: a possibilidade de desenvolver um vício em pornografia. "A prática de masturbação constante por meio dos vídeos pode afetar a capacidade de ter ereções e até as relações como um todo. É comum, por exemplo que a pessoa tente reproduzir em casa o que gosta de assistir nos vídeos, mas nem sempre o outro está disposto a aquilo. Muitos casais têm o vínculo prejudicado e até se separam por conta disso", diz.

Como ativista, Gislane defende que a pornografia não é só violenta com quem é ator ou atriz. "Embora seja vendida como ficção, as pessoas envolvidas são reais: muitas vezes adoecem pela falta do preservativo, por exemplo. Além disso, ela prejudica muito quem é consumidor ativo, pois contribui para a ejaculação precoce e para a objetificação do corpo, dificultando o desenvolvimento do afeto durante as relações".

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