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Muito mais que esposa de Zumbi: quem é Dandara, nossa nova heroína negra

Jarid Arraes/Divulgação
Imagem: Jarid Arraes/Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa

24/11/2019 04h00

Desde de 24 de abril, Dandara dos Palmares é parte do livro de heróis e heroínas da Pátria, que está no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. A inclusão dela veio 22 anos depois que o marido, Zumbi do Palmares, teve seu nome incluído no mesmo livro oficial.

Agora pesquisadores e historiadores defendem ampliar a participação da biografia de Dandara, citando-a como uma guerreira que lutou e foi líder estrategista no quilombo dos Palmares, no século 17, no então estado de Pernambuco (hoje majoritariamente área de Alagoas).

No relato no site oficial Fundação Palmares, Dandara é citada como esposa de Zumbi, com quem teve três filhos: Motumbo, Harmódio e Aristogíton. "Ela foi uma das lideranças femininas negras que lutaram contra o sistema escravocrata do século 17 e auxiliou Zumbi quanto às estratégias e planos de ataque e defesa da quilombo."

Há várias lacunas sobre a história de Dandara, o que inclusive levou alguns pesquisadores a duvidar de sua existência. "Não há registros do local onde nasceu, tampouco da sua ascendência africana. Relatos e lendas levam a crer que nasceu no Brasil e se estabeleceu no Quilombo dos Palmares enquanto criança", segundo a fundação. Sabe-se que ela "suicidou-se depois de presa, em seis de fevereiro de 1694, para não voltar na condição de escravizada", diz o texto.

Por que só "esposa de Zumbi"?

A pesquisadora e professora Ligia Ferreira, diretora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), questiona o porquê de ela ser lembrada apenas como "esposa de Zumbi" ou mesmo como "auxiliar" nas estratégias.

"Um dos fatores que estão sendo revisitados em relação à história de Dandara é que ela era uma excelente estrategista, capoeirista e defensora das lutas negras", afirma.

Para ela, isso ocorre é porque a história contada ainda tem muitos traços de racismo e machismo. "Quem conta história assume uma posição, a minha é de comparar Dandara à Antígona, Tereza de Benguela, Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus. Mulheres pouco conhecidas no Brasil, mas que lideram movimentos de luta ou ficcionais importantes", diz Ligia.

Ferreira pesquisou sobre a morte da guerreira e explica que, com o acordo de rendição, ela teria que se entregar. "As pessoas que estavam no quilombo, que não eram livres, também. Por isso, a fuga. Zumbi foi capturado. Ela também seria se não tivesse se lançado [para a morte]", conta.

"Ela se recusa a obedecer ao Estado, que naquela época significava morrer por inanição e decide tirar a própria vida se enforcando. Fato que para a concepção de Estado ocidental era inadmissível. Dandara dá a resposta quando não se submete "à vida escrava" e se lança para a morte da liberdade. Isso, para a cultura negra, é se unir aos ancestrais. Não é suicídio como muita gente julga", afirma a pesquisadora sobre como se encaravam os fatos naquela época.

Poucos são os livros que trazem Dandara como referência de uma heroína. Um deles foi lançado em 2017: "Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis", de Jarid Arraes.

"A questão de Dandara para nós está no que representa uma mulher negra que, cotidianamente, demonstra essa luta e resistência. Zumbi se transforma em herói porque a sociedade capitalista precisa deles. A cultura africana concebe o Ubuntu (Só sou porque nós somos!), a coletividade", diz Ferreira.

História contada pelos vencedores

Segundo Helcias Pereira, coordenador do Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô, Dandara foi omitida de relatos porque a história "é contada pelos vencedores".

No caso de Dandara, diz, não há documentação comprobatória porque os assassinos dos negros rebelados quiseram omitir sua presença. "Existem várias versões, até porque a figura de Dandara é uma figura que foi resgatada pela oralidade do movimento negro, nenhum livro oficial na verdade traz a história dessas mulheres quilombolas, com exceção de Aqualtune (mãe de Ganga Zumba)."

Pereira conta que o nome da guerreira negra tem origem em D´Ondara, ou Grande Espírito. "Já existem vários textos escritos na internet e até livretos em cordel sobre ela e outras mulheres quilombolas.

Dandara é lembrada, por exemplo, pelo cineasta Cacá Diegues no filme Quilombo, de 1984. "Ela no filme é uma companheira de Zumbi, que lutou até o fim", lembra Pereira.

A autora do livro "A ocupação das terras do Quilombo dos Palmares e criação das vilas", Genisete de Lucena Sarmento, pesquisou vários documentos da época do Quilombo e percebeu como é difícil achar algo referente a Dandara. Ela acredita que há muito a ser pesquisado e contado não só sobre ela, mas sobre os negros que viviam no local e lutaram contra a escravidão.

"Tentam eliminá-la da história, mas ela não é uma lenda, é uma tradição oral. Não existiam só homens guerreiros, claro que havia lideranças mulheres. Isso tem de ser resgatado da história oral. Aliás, muitas coisas têm de ser ainda registradas e tornadas públicas. Muita coisa está morrendo nas próprias comunidades que são descendentes de escravos massacrados em 1694 [quando houve a invasão ao mucambo dos Macacos, onde o quilombo era governado]", afirma.

É preciso reparação

Uma das propositoras de colocar Dandara no livro de heróis e heroínas da Pátria foi a ex-deputada federal Eronildes Vasconcelos, a Tia Eron. A Universa, ela contou que a nomeação dela foi "uma reparação, uma justiça."

"Não apenas Dandara, mas nós temos outras grandes heroínas negras, que combateram ativamente a invasão dos portugueses. Mas por serem mulheres e negras foram inviabilizadas enquanto heroínas", diz.

Sobre a inclusão de Dandara, ela diz que está "fazendo sua obrigação" como mulher negra. "As meninas e as mulheres negras se veem nesses espaços de poder, eu não tenho uma referência de luta, de êxito. Todas as vezes que a gente tem uma mulher negra nesses espaços, elas estão sempre no bastidor, sempre atrás do marido, elas não têm o destaque, em todas as esferas", conta.

Para ela, se trata de "um crime de racismo claro que o Brasil pratica". "Historiadores dizem que ela é uma mulher linda, apresentam como a mulher de Zumbi. Mas essas mulheres precisam estar nesses registros não para que sejam apresentadas como a 'mulher de', mas como mulheres que transformaram as situações. "Dandara estava ali ao lado de Zumbi, mas ela era uma grande estrategista, tinha um comando enorme", afirma.

Tia Eron acredita que a luta agora é incluir Dandara e outras heroinas negras nos livros de história. "Negar essa história é roubar a história do país, é roubar a história legítima de mulheres que hoje precisam de referências para continuar criando seus filhos, ainda que não tenha marido, continuem trabalhando, continue sonhando, mesmo tendo muita dificuldade social", completa.

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