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Com afroturismo, ela busca se reconhecer em todos os lugares aonde vai

Luciana Paulino, que criou a agência de afroturismo Black Bird - Arquivo Pessoal
Luciana Paulino, que criou a agência de afroturismo Black Bird Imagem: Arquivo Pessoal

Mandê Agência

Colaboração para Universa

09/11/2019 04h00

Luciana Paulino sempre teve paixão por viajar. Desde criança, mesmo uma viagem rápida de carro, da capital paulista até a praia, já a mantinha animada para o momento de fazer a mala, chegar ao destino e fotografar para o seu diário de bordo. "Quando eu era pequena, não era tão fácil essa coisa de tirar foto e registrar as viagens, a gente tinha que ter uma máquina fotográfica, que não era muito barata. Mas meus pais sempre foram de registrar suas viagens e me incentivaram a fazer o mesmo. Então eu também tenho muitas fotos de viagens, até hoje", conta.

As viagens de carro eram empolgantes, mas Luciana sempre teve curiosidade de ver o mundo. "O meu pai era funcionário de uma estatal e viajava muito. A ideia de ir para fora do país também sempre me motivava, o meu sonho era ter um passaporte cheio de carimbos para conhecer novos lugares. Eu ficava horas e horas conversando com os colegas de trabalho do meu pai e perguntando como era ficar 12 horas dentro de um avião, falar uma outra língua, ter contato com outra cultura. Então isso, desde pequena, me trazia uma grande curiosidade."

A primeira viagem de avião da Luciana foi para o Rio de Janeiro. E, depois disso, os check-ins foram ficando mais frequentes: Maranhão, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia. Logo, os carimbos no passaporte também começaram a aparecer: Inglaterra, Portugal, Suíça e Estados Unidos.

Mas viajar custa caro e as viagens não estavam sendo tão frequentes quanto o seu desejo de conhecer novas culturas. Problema que ela soube contornar rapidamente. Graduada em Relações Públicas, Luciana começou a trabalhar com turismo assim que terminou a faculdade e logo visitou lugares na Europa. "Assim, eu consegui unir a paixão por viajar com o meu trabalho", conta.

Durante as viagens, Luciana começou a aprender muito mais sobre outros povos e pessoas, mas não esperava ter grandes encontros consigo mesma e sua ancestralidade. Aconteceu. "Percebi que o corpo negro já tem uma característica do movimento, da mudança. Afinal, a gente já é esse corpo que viaja, que migra. Esse corpo que explora novos territórios, acho que está no nosso DNA", diz.

As memórias dessa herança genética e histórica estavam por todos os lugares que ela visitava, mesmo os mais inusitados. "Em Curitiba, cidade de origem alemã e polonesa, não se fala muito sobre história negra. Mas lá foi um dos lugares onde eu me reconheci, que eu vi minha história ser contada. Tem um roteiro que se chama 'Minha Preta', que é incrível. Depois dessa experiência, passei sempre a procurar me reconhecer nos lugares para os quais viajo, isso gera um poder de conexão, de reconhecimento de todo um legado."

Mas, em meio as oportunidades de oito anos de trabalho com turismo, Luciana também notou um incômodo: não havia mais pessoas negras vivendo essas mesmas experiências de descobertas. "Eu ficava incomodada em não ver pessoas que se parecem comigo nessas viagens."

Por outro lado, também sentia um estranhamento dos outros ao ver esse meu corpo negro na fila de embarque de um voo internacional ou quando eu já estava em um país como Portugal ou Itália. Seja lá qual lugar fosse, as pessoas ficavam intrigadas de ver esse corpo negro turista, sabe? Não que elas não estivessem acostumadas a ver negros, porque sim, elas viam, mas naquelas posições de serviço, sendo garçom, vendendo alguma coisa na praia. Mas pouco se via, e ainda se vê, corpos negros sendo turistas, tendo um lazer", conta.

Luciana começou a questionar o seu pai, seus chefes, todo mundo com quem trabalhou no setor de turismo: "Por que o negro brasileiro não viaja?". E ela percebeu que esta ainda não era uma preocupação do mercado. "Ninguém sabia me responder direito, alguns que se atreviam davam respostas que também não me convenciam muito: caíram naquele velho clichê do poder aquisitivo, de que a população negra infelizmente não pode. Mas grandes players do mercado de turismo, como a CVC, vendem pacotes para a classe B, para a classe C", argumenta.

Depois de muito pesquisar, Luciana notou que o problema estava no direcionamento para o público negro. Ou melhor dizendo: na falta dele. Por causa do racismo estrutural, que ainda paga a pessoas negras salários desiguais e as obriga a trabalharem mais, boa parte da população ainda não consegue tirar férias ou ter lazer no tempo livre.

Luciana Paulino, da Black Bird - Arquivo Pessoal
Luciana Paulino, da Black Bird
Imagem: Arquivo Pessoal

Consequentemente, a população negra não está nos aeroportos e nas agências de viagem e não são imaginadas nas propagandas de turismo. "Não é a nossa cara que está estampada nos pôsteres das agências. Isso, somado às rotinas tão desgastantes, não mostra às pessoas negras que elas são merecedoras acesso a produtos turísticos."

Diante desse cenário, nasceu a Black Bird, uma agência de turismo afroreferenciado, nas mãos de Luciana e seu sócio, Guilherme Soares Dias. "O negócio é, claro, voltado para pessoas negras, para despertar esse interesse e formar um público negro consumidor de experiências turísticas. Mas é também para pessoas não negras conhecerem a nossa história e fazerem viagens que tenham um propósito, e que consigam, enfim, ter um olhar diferente para as cidades."

O afroturismo é a ideia de viajar para lugares conectados com esse legado de ancestralidade negra e tem se mostrado um mercado promissor no Brasil. Outras iniciativas que pensam o turismo com um olhar mais inclusivo vêm sendo criadas, e algumas delas, como a Diáspora Black, também trabalham com educação no setor de hotelaria, para proporcionar espaços seguros, livres de racismo, para pessoas negras se hospedarem.

Luciana acredita que, para se discutir o racismo e espaços de ocupação de corpos negros, é preciso chamar todo mundo para a conversa. No caso da Black Bird, todo mundo do setor de turismo. "Seja em São Paulo, em Curitiba, em Nova York ou em Los Angeles, eu acho importante saber quem são os agentes construtores das cidades, quem são as personalidades, quais são as histórias não contadas frequentemente."

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