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"Após traição, transei com 32 caras, um para cada ano de casamento"

Isabel Dias: divorciada e muito bem, obrigada - Divulgação
Isabel Dias: divorciada e muito bem, obrigada Imagem: Divulgação

Roseane Santos

Colaboração para Universa

10/11/2019 04h00

Dá para pensar em vingança ao se deparar com um livro chamado "32: um homem para cada ano que passei com você". Mas basta escutar Isabel Dias, 64 anos, começar a contar sua história, para entender que o conceito é mais de libertação.

Ela já tinha se aposentado e estava com os filhos criados quando descobriu várias traições do marido. Apesar da vida confortável, a decisão tomada foi pedir o divórcio, mudar de cidade e se redescobrir. Essa nova fase deu origem ao sexo somente por prazer, sem a preocupação de envolvimento amoroso. Excluiu a expressão "velha demais para isso" da sua cabeça e também resgatou a autoestima, que estava destruída.

Os cinco mil exemplares do livro já estão esgotados e hoje ela dá cursos de autobiografia para pessoas da terceira idade. "Toda vida é muito interessante", diz. Veja a história dela:

A traição

"Cinco anos antes da separação, recebi a ligação de uma moça falando que era namorada do meu marido. Eu tinha uma vida perfeita, de madame mesmo. Meus filhos eram criados, todos fazendo faculdade. Pensei até que fosse coisa do meu cunhado, porque ele costumava se meter nesses rolos com mulher. Perguntei se ela não estava enganada ,mas confirmou que se tratava dele mesmo.

Fui questionar e ele jurou que era mentira, mas, a partir daí, começou a bater uma insegurança e uma tremenda desconfiança. Cheguei a cheirar a camisa dele.

A mulher tem essa coisa de querer achar o culpado, quando ele está na sua frente. Não é a outra que tem culpa. Se não for com ela, vai arrumar mais alguém e trair de novo.

Demorou quase oito meses para ele assumir a traição. Só que veio com aquela conversa que eu era a mulher da vida dele. Na verdade, eu morria de medo de confirmar a minha suspeita. Ninguém casa para se separar e realmente não queria, ainda mais na minha idade. Estava com 56 anos.

A primeira coisa que fiz foi tirar a aliança, mas continuei casada. Só que era uma neurose: um dia estava bom, no outro, uma droga, tinha noite que não sabia se ele voltaria para casa.

Transformei aquilo no ponto central de tudo, como se não houvesse casamento, não acontecesse mais nada na minha vida. É engraçado. Quando descobri a traição, fiquei com vergonha e com medo de ser a culpada por ter provocado essa situação. Nós mulheres pegamos essa mania de ter a culpa de tudo de mal que acontece na relação.

Anos depois, fui visitar um filho que morava fora e passei 40 dias longe. Quando voltei, meu marido estava um amor, querendo me agradar em tudo. Muito bonzinho. Aquilo parecia culpa. Realmente era. Descobri que ele teve vários casos enquanto eu não estava ali. Continuava com a moça do telefonema e surgiram outras nas viagens que fazia a trabalho."

A separação

"Então eu disse que bastava para mim. Disse aos meus filhos o que estava acontecendo e anunciei que dessa vez seria a separação. Eles me apoiaram, mas perguntando sempre se eu tinha certeza daquilo. Ao mesmo tempo em que eu queria, aquilo me doía tanto! A humilhação de ser traída, em uma cidade do interior onde todo mundo se conhece. Pensei, não vou ter mais lugar aqui. Fui atrás de uma advogada, catei a minha parte e em quinze dias estava em São Paulo.

Ele não queria se separar, demorou oito meses para assinar o divórcio. Achava que iria voltar. Chegou a falar que eu não iria sobreviver sem ele.

Vendi o apartamento que tinha em Jundiaí, comprei um em São Paulo e fui chorar no anonimato. O bom da mudança é que podia ir ao mercado e ninguém me perguntar "cadê ele", ou escutar "ah, vocês se separam". Todo mundo já sabia, mas só depois que me separei que vinha me contar que tinha visto ele no avião com uma moça, encontrado com ele jantando em Campinas com outra. Essas situações me deixavam mais brava: quem não me contou antes não deveria me contar depois.

Em São Paulo, arranjei um trabalho de meio período . Não era uma coisa que resolveria a minha vida financeira, mas me manteria ocupada. Mal ou bem, isso me forçava a sair, me arrumar, conhecer pessoas. Na verdade, eu queria ficar dentro do meu apartamento de pijama, pensava que minha vida estava acabada. Meus filhos cada um morando na sua casa, cada um com sua vida e não seria justo eu impor a minha dor a eles."

A coragem

"Estava tão chata que nem eu me agüentava. Pensei : vou arrumar um namorado. Há sete anos, nem tinha esses aplicativos, tipo o Tinder. Eu me inscrevi em um site de relacionamento, que ouvi falar na sala de bate-papo do UOL. Pensei: estou sozinha, não devo nada para ninguém. Só que nunca achei que fosse realmente acontecer.

Pensei que não precisava de uma companhia para mudar a minha vida e então deixei claro no meu perfil que queria um amigante. Mistura de amigo com ficante, mas que não queria mudar a minha situação atual. Choveu gente. A mulherada quer casar, ou no mínimo um compromisso sério.

Percebi então que eu tinha autoestima. Antes era uma sensação de inutilidade que doía. Fui saindo com um cara, outro cara e de uma hora para outra, percebi que estava sendo elogiada. Como aqueles homens não iriam me ver nunca mais, não precisariam falar isso. Comecei a perceber que a minha vida poderia ter mais adrenalina do que aquela que vivia até então.

No primeiro encontro, fiquei apavorada. Acabava marcando em um café, sempre em um lugar público e falava "estou de blusa verde", mas colocava um casacão por cima. Se eu notasse que ele me agradava, tirava o casaco. O primeiro que saí era bem mais novo, tinha uns 40 anos. Começamos a nos falar o dia inteiro até que aconteceu. Mas até acontecer, nossa... E para tirar a roupa na frente daquele cara que era mais novo que eu, que era bonito. Pensava que ele iria perceber que tenho estria, veria a minha celulite.

Aconteceu e eu achei o máximo. Não me sentia temerosa com a vida, porque o que viesse para mim, era lucro. Isso me fez com que eu me enxergasse como uma mulher corajosa, destemida, que tinha coragem de aprender."

Virei uma mulher que, depois de velha, ia para a cama com um cara só pelo prazer. Gente, isso é uma delícia.

Aprendizado

"Fiz tudo isso sem ninguém saber: eu tinha um código de segurança. Quando saía, deixava na mesa da minha sala o telefone do cara anotado. Se eu morresse, ou acontecesse alguma coisa comigo, aquilo era uma pista. Adoro seriados policiais (risos).

Afinal, iria contar para quem se minhas amigas resolveram ignorar a minha amizade depois da separação? Não era convidada nem mais para chá de bebê. Aqui em São Paulo, aprendi a sair sozinha. Voltei para ópera, para música clássica, jantava sozinha. Sentava em um boteco e bebia um chope, dois, três e as pessoas estranhavam."

Uma vez, um garçom perguntou: 'tomou um bolo hoje?' Na cabeça dele, se eu estava lá é porque estava esperando alguém e isso acabou. Não espero mais ninguém.

32 homens um para cada ano

"Eu ainda chorava quando fui orientada pela terapeuta a escrever todos os bons momentos da minha vida. Fiz isso, mas tudo na terceira pessoa. O meu filho, que é escritor, me ligou e perguntou o que estava fazendo. Falei que estava escrevendo uns contos eróticos e como ele morava na Turquia, pediu que eu enviasse para ele. Ele sacou na hora e me perguntou com quantos eu já tinha saído. Na época, com uns quinze.

Ele me falou: muda tudo, coloca na primeira pessoa e vamos escrever um livro. Então falei só se as experiências somarem o número dos anos que fiquei casada. Meu filho falou: 32, então já temos o título. Nunca escondi nada: assinei meu livro e fiz porque o corpo é meu. Foi uma experiência excelente, faria tudo de novo."

Autoestima