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"Meu pai foi vítima de muitas incompreensões", diz filha do casal Garotinho

Entrevista com a deputada Clarissa Garotinho, filha do casal Garotinho

Universa

Luiza Souto

De Universa

03/09/2019 14h05

Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, ex-governadores do Rio, foram presos na manhã desta terça (3) em uma operação do Ministério Público. Dias antes da prisão, Clarissa Garotinho, deputada federal pelo Pros e filha do casal, recebia Universa em seu gabinete, em Brasília, para falar sobre política e família. Disse que o pai é vítima de perseguição política e incompreensões.

O casal Garotinho é suspeito de participar de esquema de superfaturamento em contratos entre a Prefeitura de Campos dos Goytacazes (RJ) e a construtora Odebrecht para a construção de casas populares durante os mandatos de Rosinha como prefeita entre os anos de 2009 e 2016. Os dois negam as acusações.

Garotinho foi preso pela quarta vez. Rosinha, pela segunda. Numa das ocasiões, em 2016, o ex-governador passou mal, foi internado e, em seguida, transferido do hospital em uma maca para o presídio. As imagens de Clarissa chorando e gritando "Meu pai não é bandido" correram as redes sociais rapidamente.

"Acho que só alguém muito desumano não poderia entender a reação de uma filha vendo o seu pai não apenas sofrendo uma injustiça, mas tendo a vida colocada em risco", diz a Universa.

Procurada nesta terça para comentar a nova prisão dos pais, a deputada encaminhou à reportagem a nota oficial de defesa dos pais. O documento "lamenta a politização do judiciário de Campos e do Ministério Público Estadual, que teve vários de seus integrantes denunciados pelo ex-governador Anthony Garotinho à Procuradoria Geral da República".

Aos 37 anos, a filha dos ex-governadores e mãe de um menino de três anos é pré-candidata à prefeitura do Rio pelo Pros (Partido Republicano da Ordem Social), sua sexta legenda.

Na Câmara, diz que enfrenta preconceito por ser parte da família Garotinho, jovem e mulher. Defensora de projetos importantes para as mulheres, ela destaca que não é feminista, mas tem entre suas conquistas a instalação de um fraldário na Câmara. "Não é uma política de mulheres contra homens. Homens e mulheres têm a mesma capacidade. Depende do esforço de cada um."

A entrevista completa em vídeo está no canal do YouTube do UOL.

Universa: Das 77 deputadas, 21 têm ligações com outros políticos, entre mulheres e filhas. Já sentiu preconceito por ser filha de ex-governadores?

Clarissa Garotinho: Quando decidi me candidatar pela primeira vez a vereadora do Rio [2008], a principal resistência que eu tive foi dentro de casa. Meus pais não queriam que eu fosse candidata. Até quase o final da minha primeira eleição, ele [Anthony Garotinho] nem participou da minha campanha. Eu tinha muito claro, na minha cabeça, que era muito jovem, tinha 24 anos, mulher, num ambiente que ainda é majoritariamente masculino, e filha de dois ex-governadores. Então, tive a preocupação de montar um gabinete bastante técnico, com funções bem definidas e ali a gente conseguiu mostrar a que viemos, mas cheguei a sentir não só o preconceito por ser mulher, vir de uma família que já tinha uma história, mas também por ser jovem. O meu pai comprou brigas grandes e, por isso mesmo, foi vítima de muitas incompreensões. Brigou com sistemas de comunicações, denunciou quase metade do Rio de Janeiro e boa parte dos que estão presos foram denunciados anteriormente por ele à Procuradoria Geral da República. Bom, isso acaba trazendo muitas inimizades no campo jurídico, no campo das mídias, em diversos outros setores, inclusive até empresariais. Então, acho que talvez ele quisesse me poupar. Porque muitos pensam que a vida pública é fácil, que é um lugar para se obter vantagens, mas não é um caminho fácil para quem quer trabalhar com seriedade. Você está exposto ao julgamento público o tempo todo. A sua família está exposta. Eles já estavam passando por um processo de desgaste em virtude dessas denúncias, em virtude dessas brigas que eles acabaram comprando no meio político. Talvez eles quisessem me poupar.

Em 2016, quando o ex-governador Anthony Garotinho foi transferido de um hospital para o presídio de Bangu [em operação que investigava a compra de votos nas eleições em Campos], espalhou-se rapidamente uma imagem sua, desesperada, chorando. Que marcas esse episódio deixou?

Muitas marcas. É difícil falar sobre isso, inclusive ainda hoje, porque essas cenas, quando voltam à nossa mente, trazem um histórico de algo muito triste. Meu pai foi vítima de um processo eleitoral promovido por um juiz de Campos, associado a um promotor. Ele tem histórico de doenças cardíacas. Naquele momento em que foi levado para a Superintendência da Polícia Federal, passou mal e o Samu disse que não tinha condições de prestar atendimento. Nós solicitamos a transferência para o hospital privado, e o juiz de Campos negou. E, quando soube que meu pai só poderia ser submetido à angioplastia na semana seguinte, achou que era uma tentativa de evitar a prisão e determinou que ele fosse removido imediatamente para uma Unidade de Pronto Atendimento dentro do Complexo de Gericinó. Os policiais arrancaram todo o monitoramento, pegaram ele à força e jogaram numa maca. Ele bateu com a cabeça e desacordou. Acho que só alguém muito desumano não poderia entender a reação de uma filha vendo o seu pai não apenas sofrendo uma injustiça, mas tendo a sua vida colocada em risco.

A deputada federal Clarissa Garotinho - Diego Bresani/UOL
A deputada federal Clarissa Garotinho
Imagem: Diego Bresani/UOL

Tanto Anthony Garotinho como Rosinha são réus em ação por crimes eleitorais, e o que a senhora diz aqui é que acha que isso é uma perseguição política?

Acho não, tenho certeza. Porque, como eu disse, há uma ação eleitoral em que não há nenhum fato concreto de absolutamente nada, não havia benefício eleitoral, porque eles nem eram candidatos na eleição. Nem eu nem ninguém era. O candidato deles, inclusive, perdeu a eleição no município de Campos. Mas é boa essa oportunidade que nem sempre a gente tem de explicar os fatos que ocorreram e até desmistificá-los porque muita gente achou que ele [Anthony Garotinho] foi vítima de um processo da Lava Jato, quando, na verdade, não foi.

Nas últimas eleições, a gente viu o crescimento da presença de mulheres na Câmara e no Senado. Você acredita que elas estão se interessando mais por política?

A mulher tem entendido que o seu lugar é onde ela quiser. Ela quer realmente fazer a diferença. Nós saltamos, na Câmara dos Deputados, de 51 para 77 mulheres na atual legislatura. Nas assembleias legislativas, esse número também cresceu e a gente espera que que aconteça o mesmo nas câmaras de vereadores. Não é uma política de mulheres contra homens, nem de achar que as mulheres só são capazes de discutir pautas sociais. Eu, inclusive, fui indicada pelo meu partido como membro titular da Comissão da Reforma Tributária. Homens e mulheres têm a mesma capacidade. Depende do esforço de cada um.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) já foi condenado por ofender a deputada Maria do Rosário (PT), por falar que ela não merecia ser estuprada. Ele está preocupado com a pauta feminina?

O presidente tem um estilo próprio. A gente tem uma bancada feminina hoje muito forte e tem se organizado para que, independentemente das ações do governo, a Câmara tenha uma pauta feminina extremamente produtiva. A gente conseguiu, num período de um ano a dois anos, aprovar um volume de projetos de lei importantes para as mulheres maior do que o de vários anos seguidos. Significa que nossa pauta consegue se sobrepor, independentemente da vontade de um chefe de Estado. Ele fez um encontro [em maio, o presidente Bolsonaro se reuniu com senadoras e deputadas federais da bancada feminina]. Acho que foi uma sinalização, embora não seja uma pauta prioritária dele.

Existe uma diferença entre a bancada feminina e a bancada feminista?

Nós temos a bancada feminina, não temos a bancada feminista. Normalmente, as feministas estão caracterizadas numa política mais de esquerda, que vem das lutas e bases sociais, com pautas no campo progressista como o aborto. Eu integro a bancada que defende as pautas femininas, mas sou contra o aborto por uma questão de princípio. Eu entendo que, a partir do momento em que existe uma nova vida ali, o seu direito termina quando o do outro começa.

A deputada teve problemas ao voltar da licença-maternidade?

A minha gravidez aconteceu no início do meu primeiro mandato [como deputada federal] e, quando chegou o período da licença, a Câmara informou que eu não teria direito a ela. Na época, algumas deputadas mais antigas falaram que tinham passado pelo mesmo processo há muito tempo. Por fim, a Câmara acabou concedendo. Depois que meu filho nasceu, meu gabinete, em Brasília, virou quase um berçário, e eu sentia muita dificuldade, porque no plenário, que é distante dos gabinetes, não existia um fraldário. E aí a [deputada] Benedita de Silva [PT] falou para mim: "É interessante como as lutas das mulheres vão se modificando. Quando comecei, a briga era para que a Câmara tivesse um banheiro feminino". Eu comecei a brigar por um fraldário, e hoje a gente tem um.

O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), defende espalhar atiradores de elite em comunidades. E, num caso recente, comemorou quando o sequestrador de um ônibus na ponte Rio-Niterói foi morto por um atirador. A deputada concorda com ele?

Eu acho que, naquele episódio do ônibus, a polícia agiu de forma técnica e responsável. A vida de 30 e tantas pessoas estava em risco e, naquele momento, tinha-se percebido que não existia nenhuma [possibilidade de] negociação. O criminoso tinha gasolina, poderia colocar aquele ônibus em chamas. Acho que quem se arrisca a esse ponto, infelizmente, está sujeito a um desfecho como esse. É claro que eu jamais comemoraria a morte de ninguém. Não sei se foi essa a intenção do governador, mas a imagem não foi, no meu entendimento, apropriada para aquele momento. Diferentemente de quando se faz uma incursão policial dentro das favelas, onde moram centenas, milhares de pessoas inocentes. Não podemos aceitar incursões em horários escolares. Isso é um trabalho que tem que ser feito com muita inteligência e estratégia. Não é porque a gente não mora numa favela que deve imaginar que a polícia pode entrar de qualquer maneira.

Irmão do ex-governador Anthony Garotinho, o ex-prefeito de Campos Nelson Nahim foi condenado a 12 anos de prisão por exploração sexual de menores e estupro de vulnerável. Como é ter uma denúncia como essa praticamente dentro de casa?

Não é fácil. Eu não sei, de fato, o que aconteceu, porque é uma parte da família com a qual eu não tenho contato. Ele nunca foi eleito prefeito de Campos. Assumiu numa situação em que era presidente da Câmara de Vereadores e acabou lá por outros motivos. Meu pai sempre foi o político da cidade, e o irmão dele resolveu entrar na política. Posteriormente, não teve, da nossa parte, o mesmo apoio. Quando a gente recebeu essa notícia, foi realmente triste, mas não posso dizer se ele é culpado ou não. Não conheço a vida dele, não acompanho sua vida familiar e acho que cada um deve responder pelos seus atos.

Sobre a Amazônia, dados mostram recordes de queimadas desde pelo menos 2013. Qual é a gravidade agora para o mundo ter acordado para essa questão?

A Amazônia não é uma preocupação só do Brasil. O mundo inteiro olha para a Amazônia. É a maior floresta tropical do planeta, é importante para a nossa biodiversidade, e preservar a Amazônia deve estar no topo da lista de qualquer presidente do país. A gente não tem dinheiro sobrando para desdenhar de apoios internacionais. Apoio internacional, no caso da Amazônia, não significa que queiram, necessariamente, interferir na nossa forma de gerir. Não sou a favor nem contra Bolsonaro. O que é bom para o Brasil eu apoio, o que é ruim para o Brasil eu voto contra. Tenho meus conceitos claros e definidos. Acho que esse radicalismo de direita e esquerda está fazendo muito mal para o Brasil. O presidente precisa contribuir para que o diálogo seja um pouco mais pacificador.

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