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Por R$ 12 mil, ela biografa histórias de famílias: "As de guerra machucam"

Veronika dedica três meses à escrita de livros que contam histórias de famílias - Marcus Steinmeyer/UOL
Veronika dedica três meses à escrita de livros que contam histórias de famílias Imagem: Marcus Steinmeyer/UOL

Talyta Vespa

De Universa

26/08/2019 04h00

É num quarto superequipado de um casarão cercado de árvores, na zona sul de São Paulo, que a romena Veronika Vajda escreve seus livros. As obras, que demoram mais ou menos dois ou três meses para ficarem prontas, fazem parte do projeto Oficina Biográfica, que conta histórias de famílias. Por cada livro, ela cobra, em média, R$ 12 mil e, para cada um, ela faz cerca de oito entrevistas com membros da família. O trabalho, segundo Veronika, que é publicitária, é uma fonte de renda prazerosa.

Em meio a um monte de quadros e objetos de estimação, como ela mesma chama seus pertences, Veronika recebe Universa em uma tarde fria de agosto. Sugere -- ufa -- acender a lareira. Entre um café e outro, ela relembra a infância na Hungria e a vinda para o Brasil, de navio, da Itália.

Por ser de família judia, se identifica com histórias de pessoas que foram vítimas do Holocausto -- e ela garante que são essas as mais comoventes. Veronika relembra uma das mais difíceis histórias que narrou em um de seus livros:

"Contei a história de uma mulher judia que perdeu todos os parentes na guerra. Só sobrou ela. Ela veio para o Brasil, aos 20 e poucos anos, e conheceu um homem legal com quem se casou. Depois de um tempo, ele morreu também. Mas olha que curioso. Ela era sozinha, deu à luz uma única filha e, hoje, tem dois netos e cinco bisnetos. Ela é feliz. Me acalenta saber que, às vezes, o sofrimento acaba em finais felizes".

Apesar da identificação, Veronika conta que não quer ser associada a uma biógrafa, única e exclusivamente, de famílias judias, mas que, pelo boca a boca que divulga seu trabalho de oito anos, são essas as histórias que mais contou até então. "Agora, criei um Instagram e quero divulgar meu trabalho. A ideia das biografias é que as famílias guardem a própria história, para que ela seja conhecida pelas gerações futuras". As famílias, segundo Veronika, se emocionam sempre que ela entrega os resultados.

Marcus Steinmeyer/UOL
Imagem: Marcus Steinmeyer/UOL

Quem faz as encomendas de livros, geralmente, são os filhos ou netos das matriarcas ou patriarcas das famílias, com o intuito de presenteá-los. Para Veronika, a parte das entrevistas é a mais divertida. Ela assume, em segredinho, que não consegue não se envolver com as pessoas. "Quando os entrevistados são idosos, a gente percebe que eles sentem falta de alguém que queira ouvir todas as histórias. Então, se empolgam e a gente cria um vínculo. Não tem como ser diferente".

A ideia de escrever biografias surgiu quando a publicitária foi convidada, pela agência em que trabalhava, a escrever um livro com mini biografias de grandes mulheres. A obra "Maturidade Revista" foi lançada em 2005 e, à escritora, o trabalho deu mais prazer que tudo o que já tinha feito. Quando o livro foi publicado, uma amiga de Veronika pediu que ela narrasse a história de sua família. Ela topou. E não parou mais.

Além dos R$ 12 mil, quem encomendar uma biografia familiar com Veronika deverá desembolsar o valor cobrado pela gráfica para a impressão dos livros: um de mais ou menos 150 páginas, com capa dura, sai por R$ 50. Os preços variam. Ela faz, em média, uma entrevista por semana. As histórias, no livro, são intercaladas com o contexto histórico da época.

"Uma vez, escrevi a história da família de uma mulher de 90 anos. Quando cheguei à casa dela, ela estava bastante quieta, pouco a fim de conversar. Com o tempo, fui ganhando. Durante as entrevistas, várias pessoas da família se empolgaram e começaram a falar, também e, quando o livro saiu, ela olhou para mim e disse: 'Era para ser só meu esse livro, né?'. Foi tão engraçado", ri.

Casa de ferreiro, espeto de pau

A escritora tem três filhos e quatro netos, o quinto está a caminho. A pedido dos filhos, ela conta, começou a escrever a biografia de sua própria família. No entanto, até hoje, a obra não foi finalizada. Durante essa entrevista, ela relembra partes importantes da própria história.

"Nasci na Transilvânia, sabe, cidade do Drácula? Bem pequena, fui morar na Hungria, onde vivi até os 11 anos, quando minha família decidiu vir para o Brasil. Alguns tios meus já moravam aqui, a gente tinha medo da guerra, não tem como ser diferente. Somos judeus. Peguei, com meus pais, um navio da Itália até o Brasil. Foram meses até chegarmos aqui. Dessa viagem, lembro pouco, o que me chamou mais a atenção foi a elegância dos garçons que lá trabalhavam", relembra.

No Brasil, Veronika aprendeu o português sem dificuldade. Hoje, fala sem sotaque algum. A boa pronúncia, diz, é culpa das amigas brasileiras que fez na infância. "Muitas meninas húngaras que conheci só brincavam com outras meninas húngaras. Eu nunca tive isso. Minhas amigas sempre foram brasileiras". Na escola, ela também não teve problemas: juntou ótimas notas e a paixão por redação.

Para matar a saudade da terrinha, Veronika frequenta festas húngaras que acontecem periodicamente perto de sua casa. A melhor parte, além de treinar a língua, é saborear seu prato preferido: goulash, tipo um picadão com páprica. Às vezes, ela se arrisca a cozinhar em casa.

"Quero escrever para sempre. É a coisa mais legal que eu já fiz na vida".

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