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Terapia 24h: divã virtual ganha adeptas, mas cuidado para não fazer demais

Terapia online cresce no Brasil, mas não é recomendada para casos de ansiedade ou depressão severa - Getty Images/iStockphoto
Terapia online cresce no Brasil, mas não é recomendada para casos de ansiedade ou depressão severa Imagem: Getty Images/iStockphoto

Elisa Soupin

Colaboração com Universa

17/08/2019 04h00

Pega o celular, rola o feed, dois corações, tuíta um pensamento, lê uma notícia, responde a um e-mail, pede um táxi (ou, quem sabe, um lanche) e se prepara para a sessão de terapia. Cada vez mais gente recorre a tratamentos psicológicos online, e as mulheres são a maior parte do público dessa modalidade.

As opções para quem busca dar início a um processo terapêutico são variadas. Uma busca rápida pelo termo "terapia online" traz resultados como "encontre um psicólogo em até uma hora", "seu terapeuta 24 horas por dia" e "envie mensagens sempre que quiser" -- promessas de startups especializadas nesse tipo de atendimento.

Mas o excesso de terapia, proveniente da facilidade oferecida por essas empresas, pode ser um problema, dependendo da forma como o serviço é utilizado.

Psicólogos de plantão online

A funcionária pública Ione Bello, de 37 anos, aderiu a um plano em janeiro de 2019, depois de anos de terapia presencial.

"Na minha vida e na minha realidade agora, [a terapia online] se encaixou perfeitamente. Estou na reta final do mestrado e precisava de apoio. Comecei a buscar por conta de tempo e dinheiro. A economia é muito grande. Em Jacarepaguá (zona oeste do Rio), a sessão presencial fica em torno de R$ 150. Na plataforma, eu pago R$ 70 por semana. Além disso, eu utilizo muito mais o serviço. Acesso meu psicólogo mais ou menos quatro vezes na semana, duas horas por dia. Converso com o terapeuta enquanto dirijo, enquanto estou fazendo alguma coisa em casa. Por mim, não faz diferença, eu consigo fazer outras coisas. Acho que você pode fazer terapia em qualquer lugar", afirma Ione.

Caso parecido é o da publicitária Claudia Puccini, de 33 anos, que há alguns meses teve a primeira sessão de terapia da vida. De acordo com dados da OrienteMe, o caso dela é o mais comum: 77% das pessoas que estão na plataforma nunca fizeram terapia antes.

"Já tinha vontade de fazer, mas o tempo sempre foi escasso. Tenho dois filhos pequenos, trabalho, e não conseguia encaixar a terapia na minha rotina, por isso me interessei bastante pela terapia online. Envio mensagens diariamente para a psicóloga, e ela me responde duas vezes ao dia. A assiduidade sempre foi bem alta", conta ela.

O contato intenso com o profissional da psicologia pode parecer sedutor e é, inclusive, vendido como uma vantagem estratégica da modalidade virtual. No entanto, a assiduidade muito alta pode não ser vantajosa no tratamento.

"Em casos de contato diário, parece haver um excesso. Não cabe nenhuma queixa, porque está dentro do permitido na regulamentação, mas não acredito ser o mais recomendável. Esse contato em modo de plantão, algumas vezes ao dia, diariamente, talvez não seja o interessante do ponto de vista do processo psicoterápico, já que acaba criando um tipo de dependência no paciente e uma situação de urgência", explica a psicóloga Roseli Goffman, conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, que esteve envolvida na elaboração da resolução que regulamentou a prática do atendimento psicológico online, em maio de 2018. "O problema do paciente pode estar se agravando, na verdade. A psicologia não é uma companhia ou um auxiliar. Deve acontecer em local e horário regulamentados, mesmo online. É uma prática que requer reflexão e tempo", explica.

Roseli também faz ressalvas quanto à realização de sessões a partir de qualquer lugar, enquanto se realiza outra atividade, em paralelo. "Não é o recomendável. É preciso foco. Fazer terapia é pensar de forma complexa. O pensamento precisa ser 'forçado' para sair da repetição vazia", enfatiza Roseli.

Quando o divã virtual é preciso

Isso não quer dizer que a terapia virtual seja uma vilã. Pelo contrário: esse tipo de atendimento oferece soluções para casos de grande necessidade, que, de outra forma, não teriam acompanhamento especlializado.

"Pode ser importante para alguém que viaja muito, ou que precisa se mudar para o Japão, por exemplo, e não tem como dar prosseguimento [ao tratamento]. Pacientes que têm uma grave fobia e não saem de casa, lugares onde o atendimento não chega. A modalidade entra para suprir esse tipo de carência", explica Roseli.

Mesmo nos grandes centros, com abundância de oferta de profissionais para a terapia tradicional, a aderência à psicologia virtual cresce. Falta de tempo e preço convidativo são as justificativas.

"A terapia online é um caminho sem volta. Obviamente, no atendimento online por mensagens não se tem a linguagem corporal, mas outros aspectos são muito positivos. Por exemplo: na terapia presencial, o paciente precisa esperar pela próxima sessão para ter acesso ao psicólogo novamente. e isso geralmente demora pelo menos uma semana. A comunicação por mensagens (no aplicativo) é muito intensa, principalmente no início dos atendimentos, pois o paciente pode falar no momento que tiver disponibilidade ou necessidade e o psicólogo responderá ao menos duas vezes ao dia", explica a psicóloga Renata Tavolaro, da plataforma OrienteMe, que oferece planos de mensagem, áudio e vídeos para a terapia.

Renata destaca a possibilidade de anonimato do paciente em relação ao terapeuta como outra vantagem.

"É possível escolher pelo anonimato para o psicólogo, exibindo apenas um apelido. Isso muitas vezes traz mais confiança e deixa o paciente mais desinibido, expondo com mais agilidade seus problemas. Na plataforma, vemos com frequência casos de pacientes que iniciam a terapia exibindo um apelido para o psicólogo e que, após algumas semanas, com o estabelecimento do vínculo, trocam o apelido para seu nome real e até enviam fotos ou vídeos para que os psicólogos os 'conheçam'", descreve ela, sobre as idiossincrasias de uma sessão de terapia virtual.

Universa ouviu também as plataformas FalaFreud, criada em 2016, que já atendeu mais de um milhão de brasileiros, e Telavita, que tem visto um aumento exponencial da busca de casais pela terapia virtual. Os porta-vozes das empresas, todas startups, afirmam que a maior parte do público é composta por mulheres na faixa etária entre os 25 e os 45 anos. Na OrienteMe, mulheres correspondem a 76% do total de usuários.

Nem todo caso cabe numa tela

Roseli esclarece que, segundo a resolução regulamentadora da prática, há impedimento para o atendimento online em casos específicos.

"A resolução veio regulamentar uma situação que já acontecia. Muitos terapeutas já faziam assistência online por conta própria, a demanda já era muito grande, aqui no Brasil e no mundo todo", comenta. "No entanto, o artigo 6º explica que o atendimento online de pessoas em situação de urgência e emergência, como em uma crise de ansiedade severa, tentativa de suicídio, quadro de depressão extrema ou surto psicótico, é proibido. Se o psicólogo não tiver disponibilidade para o atendimento presencial, deve procurar encaminhar esse paciente para quem possa atendê-lo pessoalmente", explica.

Apesar da facilidade oferecida pelo meio virtual, a terapia presencial é eleita como a ideal, segundo Roseli Goffman.

"Ao mesmo tempo que temos regulamentado o atendimento, o ensino da psicologia não é permitido no ensino a distância. Veja o paradoxo. Penso que a melhor terapia é a presencial, mas o atendimento online é uma realidade e cobre os casos onde estar não é possível", diz.