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Políticas de direita criam "Bolsonaro protetor de mulheres", diz estudiosa

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) com o presidente Jair Bolsonaro - Reprodução/Facebook
A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) com o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Facebook

Camila Brandalise

De Universa

25/07/2019 04h00

Joice Hasselman, Janaina Paschoal, Carla Zambelli e Damares Alves. "Elas são porta-vozes do discurso de que Bolsonaro é o homem forte que vai proteger as mulheres. Faz parte do imaginário popular a defesa masculina da fragilidade feminina. Como se as mulheres precisassem ser protegidas".

Esta é a opinião de Isabela Oliveira Kalil, que pesquisa, há seis anos, o avanço do conservadorismo no Brasil, há um, mapeia quem são e o que querem os eleitores de Jair Bolsonaro e que, com esse arcabouço de dados à mão, fala a Universa sobre suas impressões em relação às mulheres políticas de direita e eleitoras do país. Isabela é doutora em Antropologia Social pela USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do NEU (Núcleo de Etnografia Urbana) da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ela vai lançar um livro sobre suas pesquisas até o fim do ano.

Qual é o perfil das políticas conservadoras, ou de direita, brasileiras?
Não é possível dizer que elas são um bloco, porque têm divergências. Mas entre as principais, as deputadas federais Joice Hasselmann e Carla Zambelli (PSL-SP), a deputada estadual Janaina Paschoal e a ministra Damares Alves, há quatro pilares que desenham um perfil. Primeiro, são a favor de abolir discussões sobre gênero. Algo que a ministra Damares Alves está fazendo, ao propôr que a palavra gênero seja extinta de documentos e projetos de governo. É uma visão binária, a delas: só existe homem e mulher e, por isso, não tem porque se falar em transexuais, por exemplo. Segundo, se dizem a favor da valorização da família, mas de uma maneira específica: a família heterossexual. E aí entra também a crença de que a maternidade torna a mulher mais feminina. Em terceiro, está o combate à violência contra a mulher e, em quarto, a proteção às crianças. Nessa perspectiva, discutir gênero e sexualidade na escola seria um perigo, uma entrada precoce na vida sexual, e é um projeto que todas repudiam.

Alguns desses temas, como combate à violência contra a mulher, se parecem com pautas progressistas. Existe uma aproximação?
Em partes. Os dois lados acreditam que a violência contra a mulher precisa ser combatida. Mas, entre conservadoras, isso seria feito com a ampliação da posse de armas para que elas possam se defender. Ou então, pela castração química, como já proposto por Bolsonaro. Já entre progressistas, a ideia é discutir equidade entre homens e mulheres na escola e falar, por exemplo, sobre o que chamamos de "cultura do estupro", conceito negado pela pauta conservadora.

As políticas de direita ajudam a manter o apoio da população feminina ao presidente?
Sim. Elas são porta-vozes do discurso de que ele é o homem forte que vai proteger as mulheres, ao contrário do que a esquerda diz, o chamando de misógino e machista. E a narrativa hipermáscula dele e delas é vista como positiva entre as eleitoras. Faz parte do imaginário popular a defesa masculina da fragilidade feminina. Como se as mulheres precisassem ser todas protegidas.

A pesquisadora Isabela Oliveira Kalil - Divulgação
A pesquisadora Isabela Oliveira Kalil
Imagem: Divulgação

Algum desses nomes políticos a preocupa?
Minha maior preocupação no momento é o projeto de lei que está na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) para que mulheres, no SUS (Sistema Únido de Saúde) possam optar por cesárea, de autoria da deputada Janaina Paschoal. O Brasil tem um número muito alto de cesáreas, e até agora, estávamos pensando em políticas para diminuir esse quadro. Entre as conservadoras, uma figura importante é a deputada federal Carla Zambelli. Ela se apresenta como conservadora, cristã, mãe e patriota, e isso vai além da política, mostra a sua visão de mundo e fala sobre os lugares que mulheres devem ocupar: na família e na igreja. Mas se trata de uma visão seletiva de família, que não se baseia na perspectiva de incluir diferentes arranjos familiares.

Joice e Janaina foram as deputadas mais votadas do país. A que atribui esse sucesso?
Elas se destacaram no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Assim como a Carla Zambelli, que coordenou um movimento de rua na época. Ganharam visibilidade porque mostraram um modelo de mulher na política diverso ao de Dilma; e assim, entraram no radar dos eleitores. Enquanto a Dilma ficou marcada pela polêmica do "kit gay", elas se apresentavam contra a "ideologia de gênero". Até a aparência influenciou: Dilma era identificada como muito masculina, e essas mulheres queriam se destacar sendo mais femininas.

Elas têm outro ponto em comum: atacam o feminismo. A eleição delas também foi influenciada por esses ataques?
Acredito que sim. Principalmente, no ponto da valorização da família, em que se colocam frontalmente contra a legalização do aborto, uma pauta feminista. Isso seria também contra o ideal de maternidade.

Aos seis meses de governo, detectou alguma decepção entre as mulheres eleitoras do bolsonarismo?
Os cortes de investimento na educação criaram um ruído: se a pauta é proteger famílias e crianças, quando tem diminuição de investimentos, esse discurso se fragiliza. As mulheres que trabalham e têm filhos que passam o dia na escola mostraram esse ruído no apoio. Ainda assim, elas não dizem que não o apoiam mais. Os eleitores de Bolsonaro, no geral, ainda estão esperando melhorias.

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