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Mães e filhos

Como dizer 'não' aos filhos sem dizer 'não' o tempo todo

Para ser eficaz, o "não" precisa ser acompanhado de uma justificativa - Getty Images
Para ser eficaz, o 'não' precisa ser acompanhado de uma justificativa Imagem: Getty Images

Manuela Aquino

Colaboração para o Universa

23/07/2019 04h00

"Ah, não", "não, não", "na-na-ni-não" ou simplesmente um alto "Nãooooooo!". Há muitas variações da palavrinha que pais consideram mágica e que é usada duzentas vezes em um dia. O "não" ganhou um significado de impositor de limites, mas usar muito a expressão faz com que ela perca o sentido e dá a impressão de que a criança está o tempo todo fazendo coisas erradas. Mas, então, como dosar seu uso para que tenha efeito de verdade?

Tem que ter limites

Dizer "não" ensina lições valiosas. "Vai além do 'não é possível ter tudo o que quiser'. Ajuda a desenvolver criatividade e resiliência, pois dizer sempre 'sim' faz com que as crianças cresçam incapazes de lidar com contratempos", afirma o norte-americano Scott Sonenshein, professor de psicologia da Rice University, no Texas (EUA) e autor do livro "O poder do menos" (Alta Books), no qual aborda o tema. Segundo ele, um bom exemplo é quando você diz que seu filho não vai ter o brinquedo novo, e ele é obrigado a aprender a dar novos usos ao que já tem. Por outro lado, é preciso saber dizer "não" por dois motivos: para que nada fique no ar e para que a criança entenda o uso do termo.

É sempre melhor explicar a decisão de dar uma negativa aos filhos. Fazer com que eles entendam, por exemplo, que não podem mexer naquela gaveta da cozinha, pois há facas que podem machucar, ou que naquela caixa você guarda documentos importantes que não podem ser mexidos, muito menos espalhados pela casa. "Os argumentos serão mudados de acordo com as circunstâncias e, com o tempo, as crianças vão calibrar o que elas pedem, pois já conhecerão seus limites e não precisará haver tantos 'nãos'", diz Scott.

Faça o que eu digo e também o que eu faço

Substituir os "nãos" ou trazer com eles uma justificativa para que a criança saiba o motivo da negativa é uma das premissas da educação positiva."É possível e saudável estabelecer regras baseadas em uma relação de colaboração e confiança", afirma a psicopedagoga Marcia Fiori, idealizadora e responsável pelo OPA (programa da Famesp de Orientação Pedagógica para Aprendizagem), de São Paulo. Se não pode mexer, não pode abrir, não pode tocar, nada pode, a criança nem vai absorver o motivo de tudo isso. Reduzir os 'nãos' por minuto é um desafio necessário. "Os pais precisam ter consciência de que estão ajudando a construir a autoestima da criança, que é uma esponjinha que absorve tudo. Diante de tantas negativas soltas, ela vai achar que não é capaz, que não consegue fazer as coisas certas", diz.

A psicóloga Fernanda Teles, de Itaúna (MG), conheceu a educação com base na positividade e afeto quando engravidou do primeiro filho, seis anos atrás. "Me incomodava a educação autoritária, baseada em relacionamentos verticais. Descobri na internet a disciplina positiva e fui fazer cursos na área. Queria colocar na prática a educação com afeto", diz ela, que abraçou o método e passou a trabalhar como educadora parental. "O que sinto de diferente é que minha relação com meu pai era baseada no medo. Com meus filhos é na conversa e no amor, eles colaboram comigo e o clima da casa é leve", conta.

No dia a dia é muito mais prático e fácil soltar um "não" a cada proibição, mas chega uma hora em que ele perde o efeito. A administradora de empresas e doula Vanessa Bocaletto Sanfins, de Itatiba (SP), tenta deixá-lo de lado ao lidar com suas duas filhas. "O 'não' é importante e muitas vezes não dá para trocar por outras palavras. Ele deve vir sempre acompanhado de uma conversa, sem se impor nada, algo de igual para igual. Em situações de risco, como colocar a mão no fogo, no ferro, não tem jeito. Aí, você diz 'não' e explica que vai machucar." Para ela, é importante se colocar no lugar da criança. "A gente já tem uma bagagem, mas para eles é tudo descoberta e novidade, por isso precisam entender o motivo de não poder fazer algo", completa.

Na prática

Diante do cansaço da rotina, pode ser difícil parar, respirar e conversar com seu filho. Os especialistas aconselham a evitar gritos. É importante conversar com a criança na altura dela (fique de joelhos, se preciso) e escutar o que ela tem a dizer. Em situações de perigo, será necessário ser mais rápido e enérgico para evitar acidentes, mas depois do susto, o diálogo ainda é válido. Veja como contornar algumas situações, de acordo com a psicopedagoga Marcia Fiori:

  • Comida proibida?

Vocês estão no parque e passa o vendedor com aquele algodão doce irresistível.

No lugar de: "não, não vai comer doce"

Tente: "vamos fazer um combinado? Agora não pode comer, pois está perto do almoço, mas vamos levar para casa? Você almoça, come uma fruta e a gente curte o doce depois"

  • Fazendo arte

A criança tenta subir no armário para pegar um enfeite colorido que chamou atenção dela.

No lugar de: "nããããão! Desce, daí, já!"

Tente: chegue perto, explique que é perigoso e, se achar que vale, proponha pegar um banquinho ou escada para ajudar a criança a alcançar o objeto. Se for algo que você não quer que ela pegue, explique que tem valor sentimental e que pode quebrar, por exemplo.

  • Bagunça no almoço

A criança deixa a maior sujeira embaixo da mesa depois que come.

No lugar de: "não faça bagunça! Coma direito!"

Tente: "quando a gente come, a gente tem que tomar cuidado para não derrubar no chão, você pode pisar e espalhar pela casa. Isso não é legal. Mas se sujar, você vai me ajudar a limpar, ok?"

  • Rabisco na parede

Aquela parede branquinha da sua casa pode ser irresistível para uma criança que tem em mãos uma caixa de canetinhas.

No lugar de: "nãooooo! A parede, não!"

Tente: "não quero que você risque a parede da sala, pois vai estragar e a mamãe gosta dela assim, sem riscos. Prefiro que você pinte no papel, vou deixar um monte deles aqui para você usar"

  • A natureza

É muito comum as crianças não terem noção de como cuidar das plantas e quererem pegar flores e folhas.

No lugar de: "o que é isso? Não pode arrancar a folha!"

Tente: trabalhe a conscientização, explica que a plantinha tem a vida dela e que fica triste sem folhas e flores, mas que as que já estão no chão são liberadas para brincar. Coloque a criança para cuidar das plantas em casa, para regar, e passar a entender o cuidado que precisa ter com elas.

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