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Mães e filhos

"Meu filho só quer comprar": como falar de educação financeira com crianças

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

01/06/2019 04h00

"Trabalho demais e acabo dando as coisas que ela pede por culpa" e "quero dar para o meu filho tudo o que eu não tive" são frases que Sabrina Nakao ouve muito. Idealizadora do projeto Crianças e Finanças, a jornalista especializada em economia sabe que o assunto é polêmico, mas é categórica: satisfazer todos os desejos materiais da criança é uma péssima prática.

Ao contrário, a especialista sugere que a educação financeira deve começar cedo para os pequenos -- aos três anos de idade já dá para começar a entender o valor do dinheiro.

"Perceber o custo do que se compra desde cedo é essencial. Quando tudo é concedido, essa noção não é construída. Incentivar a criança a administrar o próprio dinheiro e ser responsável pelas escolhas que faz é importante para isso", diz ela, que dá muitas dicas para os pais introduzirem o assunto com os filhos em seu canal Crianças e Finanças no YouTube.

Os alunos aprendem a entender melhor como economizar e empreender - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Um conselho prático básico (adaptado de orientações financeiras para adultos) que ela usa em casa com seus três filhos, um menino de 7 anos e um casal de gêmeos de 5, é ensinar para as crianças o método do envelope. "Os meninos têm vários envelopes de várias cores. Por exemplo, investimento é roxo, sonho é azul, doação é branco, diversão é amarelo, guloseima é vermelho e presente é rosa", conta ela.

"Eles têm R$ 60 por mês cada um para distribuir nesses envelopes. O investimento funciona assim: se eles não gastarem, no final do mês duplico lá o valor que eles depositaram. Também ensino a sempre separar um dinheiro para doar para quem precisa, pode ser um biscoito ou o que mais eles decidirem", conta ela.

Difícil para ganhar e fácil para gastar

"Outro dia, meu filho mais velho gastou R$ 25 do dinheiro do envelope destinado à diversão brincando em um parque no shopping. Perguntei se havia valido e ele disse que não, que foi muito dinheiro para tão pouco tempo. Ele também não come doce na rua se ele sabe que tem em casa. Já meu mais novo é mais de gastar, mas sempre pede para ir na loja em que ele sabe que o doce é mais barato", conta ela.

"Deixar a criança fazer essa pequena administração dos recursos dela é a forma como ela aprende a tomar as decisões, decide o que vale e o que não vale e como o dinheiro é difícil para ganhar e fácil para gastar", explica Sabrina.

Feira de pequenos empreendedores

Além do canal, Sabrina tem se dedicado também ao curso de empreendedorismo infantil. Ela cobra dos pais R$ 50 pelo workshop e realiza uma feira em que todas as crianças vendem a própria produção.

"Eu dou paras os pais o passo a passo para incentivar os filhos a empreenderem. Eles começam sem ter ideia do que o filho vai comercializar. Peço para preencherem um questionário e, a partir das respostas, traço um perfil do que possivelmente vai ser interessante para aquela criança, o que ela vai gostar de fazer", explica.

"Há aqueles que gostam de cozinhar, ou que amem montar Lego, e, a partir do interesse de cada um, vamos vendo o que a criança pode produzir para vender, sempre de uma forma muito lúdica, com a ajuda dos pais, que ganham um tempo de qualidade com os filhos na produção do que a criança quiser comercializar", conta.

Depois, ela explica para as crianças algumas noções de marketing. "Sempre falo que preciso de 10 produtos deles para mandar para influenciadores que vão fazer mais pessoas se interessarem pelo que desejam vender. Eles entendem", diz.

O primeiro workshop, que aconteceu em Campo Grande (MS), contou com 20 crianças que produziram de tudo: gelatina do Hulk, pipoca gourmet, pulseiras, chaveiros, artesanatos. Também produzem os cartazes para anunciar suas marcas. Os pequenos ganham, ainda, fotos profissionais. A feira contou até com o prefeito do município, Marquinhos Trad, que comprou de todos os microempreendedores (literalmente). Cerca de 300 pessoas passaram lá no dia.

O próximo workshop já tem data e o número de inscritos quase duplicou. Dessa vez, 36 crianças vão apresentar ao mundo suas aptidões. As idades são de 4 a 13 anos.

"Claro que não estamos falando de trabalho adulto. Tudo funciona como parte de uma brincadeira, mas uma brincadeira que ensina muito. Ensina o tempo e o trabalho de produzir, ensina a precificar o trabalho, ensina a pensar no consumo estando envolvido nele e a responsabilidade do processo"

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