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Mães e filhos


Mães e filhos

Três mulheres contam como foi ser mãe aos 20, 20 anos atrás

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

29/06/2019 04h00

A maternidade não é fácil, e isso vale para qualquer idade. Mas imagine ser jovem, estar no início do relacionamento, começando uma carreira, com os estudos em curso e receber o resultado positivo do teste de gravidez. Isso tudo 20 anos atrás, quando filhos só eram bem vistos dentro do casamento.

"Pânico", "medo", "felicidade", são sentimentos que algumas relatam sobre a experiência da maternidade, planejada ou não, aos 20 e poucos anos de idade. Para entender cada um deles, Universa ouviu três mulheres de aproximadamente 40 anos que tiveram filhos há 20.

Em comum, muitos desafios e força suficiente para seguir em frente mesmo diante de julgamentos, separações e violências. Deixaram para trás parte da juventude e alguns sonhos, mas ganharam a maturidade que muitas só encontram anos mais tarde.

Francine Santana, 44

Francine com a filha Giovanna  - Arquivo Pessoal
Francine com a filha Giovanna
Imagem: Arquivo Pessoal

Há 20 anos, Francine Santana era uma farmacêutica recém-formada quando descobriu que estava grávida da primeira filha. "Foi um choque, um susto. Eu tive um problema de saúde e os medicamentos acabaram interferindo na ação do anticoncepcional", conta.

A notícia até que foi bem recebida pelo namorado e pelos pais do casal, que em pouco tempo organizaram uma festa e até arrumaram um vestido de noiva para a celebração feita as pressas. "Eu estava tão perdida, que nunca nos sentamos e tomamos a decisão de nos casar. Na verdade, eu não sonhava com isso, porque a gente tinha uma relação complicada. Simplesmente aconteceu".

Apesar dos quase dez anos de namoro, a falta de planos juntos tinha uma explicação: o companheiro, segundo Francine, era violento, anunciando as brigas e agressões que viriam nos anos seguintes de convivência sob o mesmo teto. "Nunca tivemos um relacionamento muito bom", conta. "Durante o tempo em que estivemos juntos, tentei me separar várias vezes, mas não conseguia. Hoje vejo que tinha mais medo dentro do que fora de casa".

A saída para tocar em frente, continuar trabalhando e sobreviver aos conflitos diários veio exatamente da filha. "A primeira vez em que a vi foi uma emoção muito grande", lembra.

Francine começou a trabalhar os três turnos do dia e aproveitava os intervalos entre um e outro para pegar a filha na escola, levá-la para almoçar e dar toda a atenção possível. Em casa, o marido pouco atuava. "Eu trabalhava à noite só para não encontrá-lo", conta ela, que sempre teve ajuda da família para cuidar das crianças.

"Minha mãe é batalhadora, vai atrás do que ela quer. Faz tudo sozinha e está sempre querendo o melhor pra gente", conta Giovanna, que hoje tem 20 anos e faz faculdade de odontologia. Seu irmão nasceu sete anos depois dela, fruto do mesmo relacionamento.

Foi só 15 anos após o nascimento da primeira filha que Francine decidiu se separar. Teve que sair de casa, já que o marido se recusou a fazê-lo, e foi morar com a mãe. "Esse período foi muito difícil, me machucou muito, mas agora eu consegui superar. Fiz isso pensando nos meus filhos", diz.

Por conta do apoio que teve em casa, Francine diz que apoiaria a filha, caso ela engravidasse aos 20, como ela. "Sempre falo pra Giovanna não aceitar tudo, para estudar, porque eu acho que pouca coisa mudou nesses 20 anos. Por ser mulher, tudo é mais difícil, o preconceito ainda muito grande", afirma. Há dois anos, Francine se casou novamente.

Christiane de Almeida Guimarães, 43

Christiane e a filha Rafaela: "quando ela nasceu, era uma experiência nova a cada minuto" - Arquivo Pessoal
Christiane e a filha Rafaela: "quando ela nasceu, era uma experiência nova a cada minuto"
Imagem: Arquivo Pessoal

Aos 22, Christiane decidiu engravidar da primeira filha. À época, o sonho era mais do marido, com quem vivia há três anos, mas logo se tornou um plano dos dois. "Eu me achava muito nova, mas ele queria, então falei 'vamos lá'".

Depois de oito meses de tentativa e muita ansiedade, finalmente o teste de gravidez deu positivo. Era o início de uma reviravolta na sua vida. "A partir do momento em que engravidei, fiquei encantada. Foi muito bom. E quando a Rafaela nasceu, era uma experiência nova a cada minuto", conta.

Nessa época, Christiane decidiu sair do emprego e se dedicar integralmente à filha.

Sentia-se completa na função de mãe, mas a relação com o marido começou a estremecer. "Eu não pensava em nada nessa época. A minha mãe é que ficou falando para eu voltar a trabalhar. Acho que ela conseguia enxergar além, que eu ia precisar desse emprego para me sustentar sem ele."

Um ano depois do nascimento de Rafaela, Christiane arrumou um emprego de secretária em tempo integral, enquanto a filha ficava com avó. "Isso foi muito importante pra mim, pra ver que eu podia ser mãe, trabalhar e ser mulher. Comecei a me sentir tão bem, mas a Rafa estava sempre em primeiro lugar", diz.

A separação do marido veio quando a filha tinha dois anos. Foi aí que começou a verdadeira batalha para Christiane: era preciso cuidar de Rafaela sozinha, já que o ex-marido, segundo ela, tinha deixado a família. "Eu tenho muita sorte, porque meus pais sempre me apoiaram", diz ela. "Foi um período bem difícil, mas ao mesmo tempo, veio uma força imensa. Eu consegui e hoje tenho orgulho da filha que tenho".

O casamento e a gravidez fizeram com que Christiane interrompesse o curso de administração. "Só agora, que a Rafa está na faculdade, eu estou pensando estudar. Quando ela era nova, eu morria de pena, porque saía e ela chorava muito. Eu já ficava o dia inteiro na rua, não queria deixá-la mais tempo sozinha para estudar".

O amor pela filha única, no entanto, não impediu que ela se questionasse várias vezes se deveria mesmo ter engravidado tão cedo. "Eu já pensei muito nisso, especialmente por causa da ausência do pai dela. Penso que podíamos ter esperado um pouco, amadurecido mais a relação".

Se a filha hoje quisesse hoje ter filhos, ela pediria que esperasse. "Gostaria que ela terminasse a faculdade, tivesse uma estrutura, para poder ter um filho com calma, para que não acontecesse o que aconteceu comigo", diz, ao se referir à experiência de mãe solo.

Há sete anos, Christiane se casou novamente e decidiu com o marido não ter mais filhos.

Deise Viana Ferreira, 36

Deise com o filho Vitor: "A maternidade precoce me deu forças para ir mais longe" - Arquivo Pessoal
Deise com o filho Vitor: "A maternidade precoce me deu forças para ir mais longe"
Imagem: Arquivo Pessoal

Deise tinha 17 anos, cursava o último ano do ensino médio, quando descobriu que estava grávida do namorado. "A sensação foi de pânico", lembra. Enquanto ela ainda processava as mudanças que estavam por vir, a família foi atrás dos preparativos para o casamento no civil e na igreja.

Na escola, só algumas amigas ficaram sabendo da gravidez. "Eu era muito magra, então a minha estrutura física não denunciou", diz. "Eu queria evitar o julgamento da família e dos colegas."

Grávida, Deise prestou o vestibular e passou entre os primeiros colocados no curso de letras da UFBA (Universidade Federal da Bahia). "Sempre fui uma boa aluna e todos diziam que eu ia me perder por conta da gravidez". Mas sua mãe não deixou que isso acontece e fez questão que ela não interrompesse os estudos.

"Mesmo com o apoio da família, eu chegava da aula e não descansava, como os meus colegas. Tinha filho, marido, precisava cuidar da casa."

Na faculdade, ela fez iniciação científica, participava dos congressos e tirava boas notas. O filho, porém, era desconhecido de parte dos colegas de curso. "Na minha formatura, entrei com o meu pai e o meu filho, só aí que muita gente descobriu que eu era mãe". O silêncio, diz, era uma forma de evitar julgamentos e de se proteger. "Eu tinha medo de não conseguir bolsa se todos soubessem."

Deise chegou a conseguir uma bolsa de intercâmbio para a Espanha, mas desistiu, porque não queria ficar tanto tempo longe de Vitor. "O coração de mãe falou mais alto."

O casamento às pressas durou três anos e a separação deu início ao período mais complicado da vida de Deise. "Chegou o momento em que não tive mais dinheiro para pagar o plano de saúde. E eu, que nunca tinha precisado do SUS, estava lá com o meu filho", diz. As coisas só melhoraram quando ela passou em concurso público e virou professora do Instituto Federal.

"Acho que a maternidade precoce me deu forças para ir mais longe. Porque estudar e me esforçar era o jeito que encontrava de responder a quem dizia que eu não ia conseguir porque tinha um filho", diz.

Hoje, Vitor Viana, 18, está na faculdade e ela, que nunca deixou de estudar, faz doutorado na PUC-SP. Casou-se há dois anos e faz questão de falar sobre métodos contraceptivos com o filho. "A minha gravidez aconteceu porque eu não tive educação sexual. Meus pais são católicos, estudei em colégio de freira. Então eu sei que é importante conversar sobre isso."