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Mães e filhos


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O que fazer com filhos nas férias? Veja prós e contras da creche parental

Pensar no que fazer com eles em julho dá calafrios?  - iStock
Pensar no que fazer com eles em julho dá calafrios? Imagem: iStock

Ana Bardella

Colaboração para Universa

28/06/2019 04h00

Creche parental. O nome pode parecer moderno, mas a prática é simples e vem sendo exercida desde os tempos mais antigos: "ocorre quando pais e mães se organizam para cuidar dos filhos uns dos outros", explica a pedagoga Janaína Spolidorio.

Seja por falta de recursos, seja pela necessidade de socialização, um grupo de responsáveis pelas crianças -- que pode ser formado por parentes, amigos ou conhecidos -- se organiza dentro de um espaço próprio ou alugado e a partir disso forma uma espécie de cooperativa, com o objetivo de oferecer segurança, cuidado e apoio à aprendizagem dos bebês.

O esquema de revezamento e a convivência com os demais tornam a prática atrativa para as famílias -- principalmente durante o período de férias, quando muitas das creches tradicionais param de funcionar. Nesta época, pais que trabalham fora tendem a procurar parentes ou pessoas de confiança com quem possam deixar as crianças. No entanto, quando isso não é possível, é preciso pensar em alternativas para formar essa rede de apoio -- e o compartilhamento das responsabilidades com outros pais pode ser a solução.

"Faz a maternidade ficar mais leve"

Há quem goste tanto da ideia que extrapole os dias de férias e opte por participar de uma creche parental o ano todo. É o caso de Michele Crespo, empreendedora de 40 anos e mãe de Francisco, de 3. Ela é membro do coletivo parental Casa da Árvore, na cidade de Rio Claro (SP). "Quando estava grávida, busquei por rodas de parto humanizado e conheci o projeto. Pouco depois do meu filho completar um ano, decidi participar".

Creche Casa da Àrvore, em Rio Claro (SP): felizes e bem cuidados nas férias - Arquivo Pessoal
Creche Casa da Àrvore, em Rio Claro (SP): felizes e bem cuidados nas férias
Imagem: Arquivo Pessoal

"Atualmente ocupamos um espaço alugado e cuidamos de sete crianças, com idades entre um e três anos. Entre as obrigações estão: manter as escalas de cuidadores, auxiliar na manutenção e limpeza do espaço, contribuir para o lanche coletivo e aplicar a disciplina de acordo com os nossos valores", explica. Há também a parte burocrática: o coletivo organiza reuniões mensais e eventos, tais como brechós, para arrecadar fundos para a própria creche. Por isso, os participantes são distribuídos entre comissões estruturais (financeiro, redes sociais, eventos, logística e manutenção). O custo mensal é de até R$ 240.

A creche funciona de segunda a sexta, durante o período da tarde. E os pais (ou tios e avós) precisam estar presentes cuidando das crianças um ou dois dias da semana. Ao todo são três cuidadores diariamente. "É bom poder acompanhar de perto as fases da evolução do meu filho. Além disso, ele é muito amado por todas as famílias. A convivência é enriquecedora e faz a maternidade ficar mais leve", opina.

"Buscávamos uma vivência coletiva"

Levine Carvalho, psicóloga de 30 anos e mãe de Keanu, de 3, também participa de um coletivo parental em Boa Vista (RR), chamado Aldeia Noamai. "Ele foi criado a partir de um grupo de amigas da yoga que tinham filhos em idades próximas e queriam uma alternativa às babas e creches convencionais, em que os pequenos pudessem brincar livremente e em contato com a natureza", conta. Atualmente com oito crianças variando entre 2 e 4 anos, o projeto funciona na casa de uma das famílias. O aluguel do espaço é dividido entre os moradores e os participantes.

"Cada família participa ativamente das tomadas de decisões, do caixa, dos cuidados e da organização do ambiente", assegura. Levine e a moradora da casa ficam todos os dias com as crianças. Além delas, há sempre uma terceira pessoa, pertencente a uma das famílias, para auxiliar. "É cansativo ter que dividir a atenção entre todas as crianças e é preciso ter jogo de cintura para lidar com as situações, uma vez que nem sempre as opiniões convergem. No entanto, aprendemos uns com os outros a ter mais senso de coletividade", conclui. A creche também organiza eventos e funciona de segunda a sexta. A mensalidade é de R$ 460.

Os desafios

Janaína relembra, no entanto, que as famílias devem ponderar diversos pontos antes de montarem uma estrutura semelhante. "Elas precisam estar preparadas para as variadas situações que surgirem. Crianças podem ficar doentes ou se machucarem. Também é preciso considerar alergias alimentares e pensar em atividades para melhor aproveitamento do tempo", diz. Na opinião da pedagoga, trata-se de um assunto sério e que requer um grau de confiança elevado entre os envolvidos. "Cuidar de uma criança por uma ou duas horas pode ser tranquilo para muitos, mas incluir várias delas na dinâmica de casa é mais complicado. Por isso é necessário apoio entre os participantes, bom relacionamento e organização para que todos estejam preparados e seguros em seu turno", ressalta.

Para Joana Duah, professora e musicista de 44 anos, e mãe da Valentina, de 3 anos, a experiência com a creche parental não foi plenamente satisfatória. "Quando minha filha estava com 8 meses chamei uma pedagoga para me ajudar. Foi um acordo: ela precisava de trabalho, eu precisava de ajuda em casa e acabamos nos tornando amigas. Depois de um tempo, ela recebeu uma proposta de trabalho em um projeto de creche parental e me chamou para conhecer as famílias. Eu gostei dos casais, das crianças e topei participar dessa experiência que durou um pouco mais de seis meses. Ela, que é educadora, ficava de terça a sexta com as crianças e um dos pais acompanhava nos cuidados, em esquema de rodízio, sempre na mesma casa", conta.

Joana com a filha, Valentina: como lidar com as férias? - Arquivo pessoal
Joana com a filha, Valentina: como lidar com as férias?
Imagem: Arquivo pessoal

"A vivência foi interessante, mas ficar com as crianças era extremamente cansativo. Apesar disso, os dias de 'folga' foram importantes para ter um tempo para mim, resgatar minha individualidade. Senti que minha filha teve um progresso por ficar com bebês mais velhos e aprender com eles. As decisões eram tomadas através de muita conversa, em reuniões entre os pais. Mas senti que a educadora estava sendo excluída dessas decisões. No início a proposta era um ambiente diferenciado de educação, mas estávamos repetindo um modelo de relação já conhecido no Brasil destinado aos empregados domésticos. Isso me incomodou profundamente e me afastou da experiência. Hoje a Valentina está em uma escola e sinto que esta foi a melhor decisão que tomei para o desenvolvimento dela", relata.