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Autora de "Comer, Rezar, Amar": "Fui uma predadora sexual"

Elizabeth Gilbert, que lança o livro "Cidade das Garotas" - Timonthy Greenfield-Sanders/Divulgação
Elizabeth Gilbert, que lança o livro "Cidade das Garotas" Imagem: Timonthy Greenfield-Sanders/Divulgação

Camila Brandalise

Da Universa

15/06/2019 04h00

"Eu já fui uma predadora sexual", diz Elizabeth Gilbert, autora do best-seller "Comer, Rezar, Amar", com a voz suave e a calma de quem não se envergonha do próprio passado. "Fui atrás de homens casados e usei meu poder para ter relações sexuais. O que quero dizer é: mulheres nem sempre são vítimas."

Seu desejo sexual "insaciável" motivou a escritora a produzir um novo livro, "Cidade das Garotas" (Alfaguara), que tem lançamento previsto para o dia 25 de junho. Embora seja um romance, há respingos autobiográficos na história fictícia de Vivian, uma garota de 19 anos, que vive na década de 1940. Ela transa com quem quiser e, como a criadora da personagem, não vê impedimento moral em se relacionar com homens comprometidos.

De San Diego, nos Estados Unidos, a autora, de 49 anos, conversou com Universa. Pediu para ser chamada de Liz, falou sobre o livro, o ex-marido brasileiro, o posterior casamento com a melhor amiga --que morreu de câncer em janeiro de 2018 --e sobre sexo. "É o que nos governa." Elizabeth também respondeu se "Comer, Rezar, Amar", seu livro de mais sucesso, que vendeu dez milhões de cópias e virou filme com Julia Roberts a deixou rica. "Sim. Deu para ficar rica o suficiente para cuidar de mim e ajudar as pessoas que amo; principalmente, as que não têm plano de saúde."

Você foi casada com um brasileiro e, depois de se separar, em 2016, casou com sua melhor amiga; que vivia um processo de câncer terminal. Em algum momento relutou com o fato de ter se apaixonado por uma mulher?
Honestamente, não dei a mínima. As pessoas mais jovens, hoje, são assim: não importa o gênero da outra pessoa, eles apenas se envolvem. Foi o que aconteceu comigo. Quando Rayya (a amiga) descobriu o câncer no fígado e me falou sobre a doença, fiquei estarrecida com a ideia de que ela iria embora sem saber que eu a amava. Eu já sabia que estava apaixonada. Me declarei e ficamos juntas nos 18 meses seguintes, até ela morrer. Foi meu primeiro e único envolvimento com uma mulher.

Elizabeth e Rayya Elias, no dia do casamento, em 7 de junho de 2017 - Reprodução/Instagram
Elizabeth e Rayya Elias, no dia do casamento, em 7 de junho de 2017
Imagem: Reprodução/Instagram

Sofreu com ataques de homofobia?
Nós vivíamos em Nova York. Um casal formado por duas mulheres, lá, não chama a atenção. Acho que ser branca também me protegia; sou uma mulher "dentro" do padrão. A Rayya, sim, tinha medo. Ela se sentia desconfortável em andar na rua de mãos dadas. Acho que porque teve relacionamentos com mulheres antes de mim, em uma época que o preconceito era mais forte, e sofreu uma violência que eu não vivi.

O que aprendeu sobre o Brasil com seu ex-marido?
Pude provar a cultura brasileira durante nosso relacionamento [de 2007 a 2016]. Fui ao Brasil uma vez, estudei português e me encantei com o quanto vocês são apaixonados. As pessoas não têm medo de lidar com o coração. Adoro a palavra "saudade". Carrega a ideia de não ter o que se quer, mas ainda, assim gostar do sentimento, pois significa que há amor. Tem outra que uso até hoje: "bate-papo". Adoro.

Por outro lado, é um país extremamente machista, que tem a quinta maior taxa de feminicídios do mundo.
Penso que essas taxas são maiores quanto maior for a desigualdade econômica e política entre homens e mulheres. Meu país, os Estados Unidos, também estão lidando com o problema da violência contra a mulher. Não ajuda ter um estuprador na Casa Branca. Ele [o presidente Donald Trump] representa o avanço de uma direita nacionalista, machista, cheia de ódio. No Brasil, essa onda também se espalha. Isso me dá medo.

Divulgação
Imagem: Divulgação

"Cidade das Garotas", apesar de não ser autobiográfico, tem histórias baseadas na sua vida. Que experiências viveu e estão contadas ali?
Eu tinha muitos desejos e problemas para me controlar, como a personagem que criei, Vivian. Fui atrás de homens casados e comprometidos. Também usei meu poder para me relacionar sexualmente com pessoas. Fui uma predadora sexual.

Se fosse um homem falando isso, seria destroçado. Ser mulher dá alguma salvaguarda nesse sentido?
Não deveria dar. Nós, mulheres, queremos igualdade, então, devemos admitir que nem sempre somos vítimas quando se trata de sexo. Mulheres também são predadoras sexuais, não se comportam bem e são movidas por seus desejos. E era sobre isso que queria falar no meu novo livro. Cresci lendo histórias em que a mulher, quando expressa sua sexualidade, morre no final. Isso não é justo. Há livros que, como leitora, eu amo, como "Anna Karenina" e "Madame Bovary" [em ambos, as personagens principais traem os maridos e, sentindo-se culpadas, cometem suicídio]. Mas, como mulher, me deixam triste. Elas são destruídas porque tiveram um orgasmo.

Uma das mulheres que te inspiraram a escrever "Cidade das Garotas" foi uma senhora que disse que ninguém quer fazer sexo com o mesmo homem por 60 anos. É duro, né, porque tem também o amor envolvido.
Sim. Para mim, com certeza, é impossível sentir prazer com a mesma pessoa por 60 anos. Eu até tentei, casei duas vezes. Tenho todo o respeito por quem decide viver sua vida assim, mas para mim não deu certo.

O livro começou a ser escrito há cinco anos e você interrompeu a produção quando Rayya ficou doente, para cuidar dela, e só o finalizou quando ela morreu. Retomá-lo ajudou ou piorou seu luto?
Esse livro salvou minha vida. Eu estava em um momento muito sombrio. Os 18 meses até Rayya morrer foram de uma dor inacreditável. Estive ao lado dela durante o tratamento, no hospital, nos momentos de sofrimento. Foi horrível, mas eu viveria tudo de novo. Não acho que dá para fugir da tristeza do luto, não tem para onde correr. Mas trabalhar de novo me trouxe alegria, e "Cidade das Garotas" é uma história alegre, me ajudou a ocupar minha mente.

E agora você está namorando um grande amigo de Rayya, certo?
Eu estava, a gente acabou de se separar. Não consigo nem falar muito disso porque estou com o coração partido. Ele valia a pena, eu queria tentar, achei que a relação duraria mais tempo, mas não foi o que aconteceu. Estou bem triste. Você já teve um coração partido, não teve? Sabe como é. Eu tenho 49 anos e meu coração ainda está cheio de amor. Apesar disso, nunca diria para alguém fazer o que eu faço, me jogar de cabeça nas relações. Entendo por que as pessoas tiram o coração do mercado. Nunca vou dar um conselho do tipo: "Vá, se arrisque", pois ter o coração partido traz um sentimento terrível.

Dos países que já visitou, em qual conheceu um comportamento feminino surpreendente?
Em Bali, conheci uma mulher que era procurada por outras mulheres que não conseguiam engravidar. Essa senhora arranjava homens para elas transarem, já que, com os maridos, não engravidavam. Eram conhecidos do bairro, motoristas de táxi. Isso tudo sem que os maridos soubessem. Ela me falou sobre isso com muita tranquilidade: "Eu ajudo as pessoas a terem o que querem". A mulher virava mãe, o casamento continuava, ficava tudo bem, sem dano a ninguém. Para pessoas pobres que não tinham acesso a clínicas de fertilização, essa foi a solução era interessante.

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