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"Morei na rua, usei crack e fui presa, mas consegui retomar minha vida"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Simone Cunha

Colaboração para Universa

15/02/2019 04h00

Para quem passou anos nas ruas, conseguir voltar a viver em sociedade é um grande desafio. A falta de regras, os vícios e os preconceitos são fortes empecilhos para quem tenta fazer o caminho de volta. A seguir, a ex-moradora de rua Simone Kelly da Silva, 39 anos, conta sua história de superação.

"Há três meses, trabalho como agente de saúde no programa Consultório na Rua* [programa de saúde que acompanha pessoas em situação de rua], além de trabalhar como manicure e fazer tapetes para conseguir dinheiro e pagar o aluguel de um quarto, em que vivo com meu filho caçula, Derick, de quatro anos. Sair das ruas e largar o crack é possível, mas é preciso muita força de vontade e apoio. Estou 'limpa' [sem usar drogas] há dois anos, mas tenho medo de ter uma recaída, por isso, não posso abandonar o tratamento.

Experimentou crack aos 18

Minha história nas ruas começou quando eu estava com 18 anos e conheci um rapaz que usava crack. Ficamos juntos por seis meses e, no início, me recusei a experimentar. Só que, com o tempo, acabei cedendo. Nessa época, ainda morava com a minha mãe adotiva, mas vivia mais nas ruas do que junto com a minha família. Voltava para casa apenas para tomar banho e dormir. Então, chegou um ponto em que achei melhor viver na rua de vez.

Morei por sete anos debaixo do viaduto Belém, e, São Pauço, usando crack direto, todos os dias. O que acontece é que a sensação de prazer é muito grande e a gente quer sentir de novo. E de novo. Com esse rapaz, eu vivi três anos e tive dois filhos (Tayane, que atualmente tem 19 anos, e Tawan, de 17), até que ele foi pego num assalto e preso. Nessa época, eu tinha apenas a menina, mas continuei visitando-o na cadeia, e foi então que engravidei do menino.

Também foi nessa fase que entrei para o crime: o objetivo era conseguir dinheiro para comprar droga. Não demorou muito e acabei sendo pega em um assalto também. Fui presa grávida e vivi momentos de horror na penitenciária. Inclusive fui testemunha do esfaqueamento de uma mulher no banheiro em que ela tomava banho, ao meu lado. Aquilo era assustador, uma sensação permanente de desamparo e agonia.

De presidiária a foragida

Fiquei quase seis meses na prisão e fui liberada. Depois disso, fui notificada de que havia sido condenada e que deveria me apresentar. Decidi fugir e assumir a situação de foragida, pois não queria voltar para aquele lugar horrível. Nessa época, morei de favor na casa de um conhecido, até conhecer um outro homem, com quem vivi por cinco anos, e tive mais dois filhos, Otávio, que atualmente tem 13 anos, e Natan, de 10.

Nessa época, tinha uma vida mais tranquila e havia conseguido parar com o crack. Mas a polícia foi atrás de mim. Consegui fugir, mas levaram três filhos meus para o Conselho Tutelar e, após uns dias, decidi me entregar, para tirá-los dessa situação. Nenhum dos meninos tinha registro do pai e, nessa época, transferi a guarda dos três (até do Tawan) para esse homem, com quem eles vivem até hoje. A menina mora com a minha mãe adotiva.

Passei mais quatro anos presa e, quando saí, voltei a morar com a minha mãe. Mas acabei voltando para o crack e, logo depois, para a rua, onde conheci um cara e engravidei de novo. A gestação do Mateus, que hoje tem 7 anos, foi muito complicada, por causa do uso contínuo de drogas. E foi nesse período que conheci o Consultório na Rua. Assim que o Mateus nasceu, o pai o levou e assumiu a guarda do menino. Continuei nessa situação de rua, conheci outro rapaz e engravidei de novo, do Derick, o meu caçula.

Ajuda para sair das ruas

Mais uma vez, tive uma gestação de risco e a equipe do programa Consultório na Rua me ajudou muito até ele nascer. Nessa fase, eu já estava diminuindo o consumo de drogas, com o acompanhamento oferecido pelo programa. Quando o Derick completou seis meses, já me sentia recuperada. Mas ainda morava em uma ocupação com o pai do bebê, que começou a me bater muito. Um dia, cansei, vendi o que tinha, no caso um fogãozinho e um botijão de gás, e fugi. Umas amigas me ajudaram a encontrar um quarto e comecei a fazer unha e tapete para ter dinheiro e, assim, me sustentar.

Essas amigas continuaram me ajudando a pagar o aluguel, até que houve uma seleção para ser agente de saúde e fui convidada a participar. Eu havia sido uma paciente difícil, mas tinha conseguido melhorar bastante. Então, peguei o trabalho, que me ajudou a ter uma renda fixa e a ficar mais tranquila.

Tentar levar uma vida normal não é fácil. A gente precisa reaprender a conversar, pois a linguagem das ruas é muito diferente. Também estou reaprendendo a ter uma rotina e a seguir as regras. Tenho que mudar meus hábitos, mas vou melhorando aos poucos, até conseguir zerar. Sei que preciso viver em outra realidade, me afastar de algumas pessoas e ser firme para não voltar àquela vida ruim.

Ser preta, pobre e egressa fecha muitas portas. Cheguei a passar em um processo seletivo, mas, quando pediram a ficha de antecedentes criminais e viram que eu já havia sido presa, me ligaram e pediram para eu devolver o uniforme, porque não poderia mais integrar a equipe. É muito difícil se encaixar, por isso, não dá para abrir mão de ajuda. Hoje, tento ajudar outras mulheres como eu, assim como fui e continuo sendo ajudada".

Consultório na Rua

O Consultório na Rua é um programa que nasceu em 2004, na capital paulista, para acompanhar a saúde de pessoas em situação de rua. Hoje, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de São Paulo conta com 19 equipes, cada uma delas composta por um médico, uma enfermeira, dois auxiliares de enfermagem, dois agentes sociais, de quatro a seis agentes de saúde, um assistente social e um psicólogo. A equipe mapeia o território, acolhe e inicia a construção de vínculos com as pessoas que vivem em situação de rua para atender às demandas individuais e coletivas. Além disso, os agentes de saúde selecionados são pessoas que já viveram em situação de rua, porque eles se tornam facilitadores para a execução do projeto. Esses agentes de saúde são identificados e indicados pelo Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, que trabalha com esse público e atua em parceria com a SMS nesse programa.

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