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Mães e filhos

"Me tornei doadora de leite depois que outra mãe salvou minha bebê"

Ana Paula e Alícia - Arquivo Pessoal
Ana Paula e Alícia Imagem: Arquivo Pessoal

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

19/05/2017 04h00

Ana Paula Borges, 33, estava grávida de gêmeas e perdeu uma de suas bebês ainda durante a gestação. Foi o leite doado que alimentou a outra filha, ainda prematura, e permitiu que a pequena Alicia sobrevivesse. Em depoimento ao UOL, ela conta sua história.

"Tudo na minha vida e do meu marido sempre foi planejadinho. Primeiro a gente terminou de estudar, depois estruturamos nossas carreiras, compramos nossa casa e só então chegou a hora de ter um filho. Estava tudo programado para termos uma criança, mas na quarta semana de gravidez veio uma surpresa: eram gêmeos!

Foi um susto, tive medo de não estar preparada. Mas rapidinho me acostumei com a ideia, o medo foi virando felicidade e meu amor duplicou. Os preparos então passaram a ser para receber em nossas vidas Alicia e Cecília. Mas, infelizmente, seis meses depois outra surpresa viria destruir nossos planos: o coração de Alicia parou de bater dentro da minha barriga e o parto da Cecília precisou ser adiantado em quase três meses.

"O coração da sua filha parou"

As meninas eram gêmeas univitelinas, o que quer dizer que compartilhavam a mesma placenta. No começo da gestação isso significava maior risco, segundo meu médico, mas como tudo estava ok depois do terceiro mês, a gravidez passou a ser considerada tranquila.

Eu trabalhei o tempo todo e me sentia muito bem. Fazia todo o acompanhamento de pré-natal e os resultados eram sempre ótimos. A gente não tinha razões para nenhum tipo de preocupação. Até que no dia 25 de dezembro de 2015 eu senti uma dor na barriga.

Na verdade, a dor foi leve e passou rápido. E como era feriado e fim de semana, resolvi esperar. Na segunda-feira, dia 28, fui ao médico e ele me pediu um ultrassom. Fui sozinha, dirigindo para lá, estava me sentindo ótima.

No exame, a médica primeiro viu a Alicia. Ela estava ótima, coração batendo. Então ela passou para a Cecília, mas algo estava errado. Ela mexia, apertava, ia e voltava com o aparelho. Até que me perguntou se eu estava acompanhada. Eu disse que não e ela soltou a bomba: 'o coração da sua filha parou'. E para piorar eu teria de fazer o parto da outra o quanto antes. Eu fiquei completamente sem chão. Só chorava! Eu estava com apenas 27 semanas.

Sentia um misto de dor e alegria

Sai do exame direto para a internação e fiquei ali até o dia 31, quando fizeram a cesárea. Lembro de terem retirado primeiro a Cecília e depois a Alicia. E eu rezava, rezava tanto, para que ela chorasse. Se eu ouvisse seu choro, saberia que estava viva. E ela chorou. Um choro fininho, parecia miado de gato, mas era sinal de que ao menos uma das minhas filhas estava ali.

Ela foi direto para a UTI neonatal, nem pude vê-la. Só uma fotinho que meu marido tirou, tão pequena!

Enquanto eu me recuperava da cirurgia, tentava reunir minhas forças. O que eu sentia era um misto de alegria pela minha filha que sobreviveu e tristeza pela outra. Ao mesmo tempo em que precisava providenciar o funeral da pequena Cecília, tinha que ter forças para acompanhar Alícia em sua luta pela vida. Era bem difícil e isso fez com que eu não conseguisse produzir leite para amamentar.

Alicia logo que nasceu era pequena e frágil - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Saber que ela receberia leite doado foi uma alívio enorme

Meu primeiro contato com a Alicia foi desesperador. Tão pequena, frágil, entubada, precisando de aparelhos e tantos cuidados para terminar de se desenvolver e estar pronta para o mundo. Eu passei mal ao vê-la.

No mesmo dia uma enfermeira veio me perguntar se eu aceitaria que dessem leite materno doado para ela. Eu senti um alívio gigante! Eu sabia da importância do leite materno para o desenvolvimento do bebê, principalmente ela, tão pequena e frágil, precisava. Claro que aceitei, enormemente grata às mulheres que doaram e tornaram isso possível. 

Não tive dúvidas em relação a doar leite

Alicia passou 76 dias internada. Mas ao final do primeiro mês eu comecei a produzir leite e pude alimentar minha menina, que já estava bem mais fortinha. Naquela vida de mãe de UTI, cada pequeno passo era uma grande conquista.

E assim, devagarzinho, Alicia foi se recuperando. Respirando por conta, mamando por conta, uma conquista de cada vez, até que pode ter alta e vir para casa conosco. Hoje ela está com um ano e cinco meses e é completamente saudável, brincalhona e comilona.

Eu sei que devo isso àquelas mães que doaram seu leite e permitiram que minha filha recebesse os nutrientes de que precisava na hora mais difícil. Por isso, não tive a menor dúvida em relação a doar o meu leite quando comecei a produzir. Assim outras crianças vão poder se alimentar como a minha pode e isso me deixa muito feliz. E queria deixar uma mensagem para outras mães: doem também, não dói, não vai faltar para o seu filho e você pode fazer toda a diferença na vida de outras crianças."

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