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Xan Ravelli

Por que houve alternância do que é belo em peso e curvas, mas nunca em cor?

Eu e meu marido: quantos homens negros que se relacionam com mulheres mais escuras que eles você conhece? - Arquivo Pessoal
Eu e meu marido: quantos homens negros que se relacionam com mulheres mais escuras que eles você conhece? Imagem: Arquivo Pessoal
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Xan Ravelli

Xan Ravelli é o nome por trás do Radar digital Soul Vaidosa ativo desde 2013. Vaidosa de corpo e alma, musicoterapeuta por formação, #pretacrespamãede2efeminista, seu Soul Vaidosa foi o primeiro canal do YouTube Brasil a unir temáticas em beleza e feminismo negro.

Colunista do UOL

29/11/2020 04h00

O que faz uma pessoa bonita? O que é ser bonita? Quando falamos em beleza, é só de aparência que estamos falando?

A conversa aqui hoje é sobre beleza, autoestima e colorismo. Temos verdadeiras "modinhas", tendências de padrão que ditam ao longo do tempo o que é belo e o que se encaixa no padrão da beleza socialmente cultuada e aceita. Um passeio pelas esculturas gregas, pelas pinturas da idade média, por Martha Rocha, Gisele Bündchen e as Panicats nos trazem uma nítida visão disso.

Houve uma alternância do que é belo em peso, curvas corporais e altura, mas nunca em cor. A beleza nunca foi negra e, sobretudo, nunca foi escura.

Cresci numa família cercada de muito amor e muito respeito à minha estética, numa casa que a todo o momento reverenciava a minha cor e os meus traços. "Nós somos os mais pretos e mais lindos", dizia o meu avô sempre que me abraçava. Era a mais escura entre meus primos e primas, a mais escura da minha casa, a mais escura na escola.

E foi nesse espaço que para nós, mulheres pretas, é quase sempre um espaço de agressão emocional, estética e, muitas vezes, física, que eu me deparei com o colorismo, conceito que só viria a entender anos depois, mas que já era percebido pela forma como eram tratadas minhas colegas de sala, negras de pele mais clara —como elas conseguiam se aproximar mais em amizade umas das outras e também das outras adolescentes brancas.

Mas aproximação não é inclusão. O padrão sempre foi ser branca, clara. Depois de muito tempo entendi também o quanto é complexo para mulheres negras de pele clara terem sua identidade estruturalmente manipulada pela branquitude que em prol da manutenção pode tanto esquecer/negar sua negritude quanto se lembrar dela e usá-la como mecanismo de opressão e exclusão.

Digo que minha beleza não veio de graça, ela foi guerreada, foi batalhada, porque autoestima, para mulheres negras, não é opção, não é bem-estar. AUTOESTIMA, PRA MULHER PRETA, É ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA.
Em alguns casos, literalmente, visto que muitas mulheres se submetem a cremes e a tratamentos extremamente agressivos para clarear a pele. Afinal, vale quase tudo para se sentir pertencente ou mais próxima a um padrão de beleza.

Segundo Joice Berth (que eu amo), "a beleza é mais um instrumento de controle de corpos e exclusão de pessoas em benefício da manutenção de uma hierarquia cuja única função é política". E que vem, por muitos anos, excluindo aquelas que são a base: mulheres negras, mulheres negras retintas, mulheres negras retintas e gordas. A essas é negado o trabalho, o dinheiro, o afeto.

Quantos homens negros que você conhece se relacionam com mulheres mais escuras que eles? Taís Araújo é tão linda quanto Cris Vianna, porque uma trabalha mais?

Que se fale cada vez mais sobre representatividade, sobre proporcionalidade, para que essa ainda utópica alternância do que é belo possa ser um dia real.

Assistam ao curta-metragem "Yellow Fever", assistam a "Skin" (documentário da Netflix) e sigamos.