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Xan Ravelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quantas mulheres são silenciadas dentro da mãe que cuida de tudo sozinha?

A maternidade torna-se ainda mais exaustiva sem uma rede de apoio - monkeybusinessimages/ iStock
A maternidade torna-se ainda mais exaustiva sem uma rede de apoio Imagem: monkeybusinessimages/ iStock
Xan Ravelli

Xan Ravelli é o nome por trás do Radar digital Soul Vaidosa ativo desde 2013. Vaidosa de corpo e alma, musicoterapeuta por formação, #pretacrespamãede2efeminista, seu Soul Vaidosa foi o primeiro canal do YouTube Brasil a unir temáticas em beleza e feminismo negro.

Colunista de Universa

02/05/2021 04h00

Como você enxerga a mulher habita a sua mãe? Como você enxerga e cuida de todas as mulheres que coexistem com a mãe que você também é?

Sou mãe há 9 anos. Em outras palavras, há quase uma década várias Alexandras diferentes nasceram, despertaram aqui em mim. Já falei em outro texto por aqui sobre o quanto ser mãe e realizar sonhos é desafiador, porque não somos uma vida, somos duas, três, quatro.

Quando buscamos informações sobre a humanização das mães, o que encontramos são relatos sobre este cuidado na hora do parto, da amamentação e nos primeiros dias do bebê, especialmente quando falamos em negras e periféricas. O tema é urgente e legítimo, mas, aqui neste texto e nas próximas semanas, eu quero falar sobre a humanização da mãe por outro ponto de vista. Quero falar sobre um olhar para essa figura, ainda endeusada e colocada em um patamar sobre-humano, como uma pessoa com dores e desejos que ultrapassam os contextos do maternar.

Quando ouvimos, lemos, acompanhamos memes e texto que dizem que: "Mãe também é gente", "mãe também erra", "mãe também chora"... Qual é a nossa reação?

Eu perdi a conta de quantas vezes fui questionada por outros criadores digitais a respeito das temáticas abordadas no meu Instagram — beleza, apoio emocional, sexo, relacionamento, maternidade. Perguntam como as marcas que atendo enxergam meu conteúdo. "Como elas e o público compreendem que você fala sobre lubrificante KY e sobre bolacha Passatempo?", questionam.

Tenho muita naturalidade em me mostrar como uma mulher negra, que vive a maternidade com muito amor, mas que adora comentar sobre estilo, comportamento, sexualidade. Ao mesmo tempo, tenho plena consciência da forma que o mercado deseja ver a maternidade sendo retratada — a partir da construção de um ideal de mãe que remete à imagem de "rainha do lar", aquela mãe feliz apesar dos pesares: "Cansada, mas feliz!", "Sobrecarregada, mas feliz!", "Empreendedora, esposa, executiva, mas feliz!", "Cheia de frustrações sexuais, mas feliz!". Há algo de errado aqui.

Acompanho todos os dias histórias de mulheres-mães que, por mais que cavem, não conseguem encontrar a felicidade sufocada sob o cansaço sobre-humano de quem não dorme há semanas, de quem se sente presa em uma rotina esmagadora de demandas do trabalho, de homeschooling e de casa.

Para piorar, em um contexto de pandemia global, as desigualdades foram acentuadas levando situações já complexas para mulheres-mães à beira do insuportável. A antropóloga Denise Pimenta, pesquisadora do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas) e do projeto Gender&Covid-19 (grupo que reúne estudiosos do mundo todo para investigar os impactos da pandemia nas mulheres) afirmou, em entrevista à revista Galileu, que "no Brasil, a gente já vive em uma sociedade opressora para as mulheres, e a pandemia fez isso crescer exponencialmente."

Como fica a saúde mental e emocional das mulheres-mães que são as principais responsáveis pelos cuidados de outras pessoas? Elas que já eram invisibilizadas em suas dores, tristezas, sonhos e metas profissionais antes mesmo de 2020. Como fica o cenário das mulheres-mães-pretas, mães solo, mães que trabalham em atividades informais?

Ouvi duas histórias de mulheres-mães completamente diferentes e quero contar para exemplificar. Elaine*, mãe de um filho de seis anos em colégio particular, executiva de uma empresa de alimentos, esposa de um advogado, ambos trabalhando em esquema home office. Em uma conversa de portão entre vizinhas, ela me contou que está tomando calmantes e remédios para dormir desde junho do ano passado, teve projetos adiados na empresa, sentiu o rendimento no trabalho cair e tem crises diárias de choro.

O esposo ficou responsável pela alimentação da casa enquanto Elaine administra e auxilia o filho no EAD (que, na verdade, é homeschooling mesmo). Segundo Elaine, ele não tem "paciência" para o filho, que tem uma mesinha em seu escritório e solicita atenção a cada 15 minutos. A professora particular contratada para estar com o filho durante três horas por dia garante a ela esse tempo de trabalho, que muitas vezes precisa ser utilizado para organização e limpeza de alguns espaços da casa.

Eu saberia de mais detalhes, mas o nosso papo foi interrompido pela chegada do delivery que trazia o jantar especial para comemorar a promoção do esposo de Elaine a sócio da empresa.

A minha segunda história é de Sabrina*, mãe de três filhas e divorciada. Ela mora com as meninas de dois, seis e oito anos, quem ficam com o pai aos finais de semana. Sabrina está afastada do emprego no setor de limpeza de uma loja e tem trabalhado como diarista para se manter.

Nos dias em que faz faxina, uma prima de 17 anos cuida das filhas. Quando chega em casa, Sabrina cozinha, ajuda nas tarefas escolares, limpa a casa. O ex-marido e pai das meninas é auxiliar de cozinha e tem trabalhado só duas vezes por semana desde março do ano passado.

Em uma dessas idas à casa de Sabrina para buscar as crianças, reclamou com um vizinho sobre a monotonia da vida "sem nada para fazer" durante os dias em que não precisa ir ao restaurante. Disse ainda que não se oferece para ficar mais tempo com as filhas, porque tem "medo der atrapalhar a rotina."

"Mãe também é gente" poderia ser um grito de clamor para o mundo. Por um lugar em que mães possam berrar que desejam que as tarefas sejam melhor divididas, que desejam fechar a porta de um escritório e trabalhar por seis horas ininterruptas sabendo que aqueles que amam estão sendo cuidados, que precisam gozar sentindo aquele prazer despreocupado... Quais são os sonhos delas? Quem escuta quando elas choram?

É preciso que mudemos o olhar sobre as mães. Precisamos pensar em quanto tempo extra essa mulher precisará para chegar ao mesmo lugar que as outras sem crianças. Quero que a gente enxergue o custo daquele sorriso no final do dia, daquela promoção no trabalho, daquele respiro fundo. Desejo ainda que a gente pratique esse olhar sem o pudor e sem o altar, enxergando quem são e questionando se é honesto que elas precisem cuidar sozinhas dos nossos futuros adultos — ou se essa deveria ser uma obrigação coletiva.

*Nomes trocados para preservar a identidade das personagens.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL