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Natalia Timerman

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pressão estética: meu nariz torto e como escapei da cirurgia plástica

Damir Khabirov/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Damir Khabirov/Getty Images/iStockphoto
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Natalia Timerman

Natalia Timerman é psiquiatra, escritora, mestra em psicologia e doutoranda em literatura. É autora de "Copo Vazio", "Rachaduras", finalista Jabuti na categoria contos, e "Desterros", acerca de seu trabalho num hospital penitenciário.

Colunista de Universa

05/08/2022 04h00

De repente, descobri que meu nariz entortou. Talvez tenha sido a luz, o ângulo, não sei: era fim de tarde, eu estava prestes a entrar em uma live de quase duas horas e, no espelho do banheiro do estúdio de gravação, reparei numa assimetria considerável que, eu poderia jurar, nunca havia estado ali.

Se eu não tivesse estudado anatomia na faculdade de medicina, provavelmente não saberia que a superfície que se avolumava para baixo apenas do lado esquerdo se chama columela; inclinei o rosto mais para baixo, para os lados, tentando corrigir aquela percepção equivocada, pois aquilo só poderia ser um erro dos meus olhos, mas não: dependendo da perspectiva, o tamanho até aumentava.

Meu interlocutor na live deve ter achado que eu tinha passado no banheiro com algum outro objetivo escuso, pois eu não conseguia parar de passar o dedo debaixo do nariz, testando incessantemente a realidade daquele pesadelo. Demorei em algumas das minhas respostas, reparando que o nariz dele era perfeitamente simétrico, assim como os narizes dos produtores de som, de vídeo, do roteirista, de todo mundo que ocupava a sala junto comigo.

Assim que me despedi, tirei uma foto e mandei para minha grande amiga Julia, colega de turma na faculdade, dermatologista. Olha o que apareceu no meu nariz, exclamações, carinhas de desespero. Ela me ligou na hora. "Desde quando? Dói? Qual o aspecto?" Já que a foto era imprecisa nos detalhes, mostrando só o tamanho.

No espelho de casa, a ansiedade crescente, aproximei bem os olhos do reflexo do meu nariz e observei vasos sanguíneos, a pele um pouco esbranquiçada. Carcinoma, lembrei, e fui para o Google, mas as imagens não eram exatamente daquele jeito.

Liguei para o meu companheiro, chorei, liguei de novo para a Julia, perguntando tudo sobre todas as possibilidades, imaginando meu nariz crescendo, a cirurgia, pensando na margem que teria que ser retirada para que eu, livre do câncer, visse meus filhos crescerem, um buraco, uma deformidade, bem no meio do meu rosto.

Eu teria que viajar para uma gravação no dia seguinte pela manhã, mas a aflição só crescia. Julia propôs que eu fosse cedo ao consultório dela; não daria tempo, mas imaginei a angústia aumentando a cada hora e recalculei o tempo. Deixei tudo pronto, eu iria vê-la e seguiria para o aeroporto.

Foi uma noite de tormenta, a vida em suspenso, como se alguma coisa estivesse definitivamente prestes a mudar.
Algo de fato mudou: a imagem que eu tinha de mim. Pois, deitada na maca, escutei que não havia nada de errado na pele do meu nariz; tratava-se de uma assimetria de cartilagem, estranha, de fato, mas sem nenhum tipo de desdobramento que não o estético.

"Mas como?", eu perguntava. Talvez algum trauma, e pensei nas tantas cabeçadas que já levei do meu filho mais novo, estabanado, no rosto.

Alguns dias depois, Julia me mandou uma foto que encontrou no meu perfil do Instagram. Cinco anos atrás, meu nariz já era torto. Procurei outras. Adolescência. A assimetria sempre lá, evidente, escondida de mim mesma no hábito das minhas feições.

A ponta do meu nariz é consideravelmente torta desde sempre, e eu nunca havia reparado nisso. Desde essa intrigante descoberta, consigo me reconfortar pensando que sempre foi assim e nunca foi um problema. Mas como teria sido se eu tivesse reparado nessa suposta falha em outro momento da vida?

Esse texto seria apenas uma crônica, não tivesse eu recebido um e-mail esta semana mesmo, um convite para participar de um programa de televisão comentando sobre a pressão estética que leva jovens a procurar cirurgia plástica facial. Não pude aceitar o convite, mas uma frase se destacou e permaneceu comigo: o Brasil lidera o ranking mundial de cirurgias faciais, segundo pesquisa feita pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.

Eu escapei, talvez porque nunca tivesse me olhado no espelho perto o suficiente para constatar assimetrias, falhas, desvios que fazem do meu corpo o que é, perfeito em sua imperfeição.