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Natalia Timerman

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lidando com o Alzheimer: 'Minha mãe está viva e sinto tanta saudade dela'

Wavebreakmedia/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Wavebreakmedia/Getty Images/iStockphoto
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Natalia Timerman

Natalia Timerman é psiquiatra, escritora, mestra em psicologia e doutoranda em literatura. É autora de "Copo Vazio", "Rachaduras", finalista Jabuti na categoria contos, e "Desterros", acerca de seu trabalho num hospital penitenciário.

Colunista de Universa

03/06/2022 04h00

Meu pai morreu de câncer há três anos, uma morte triste, próxima, bonita. Nos seus meses finais, nós o fotografamos, o filmamos com os netos, gravamos sua voz, como algo dele a perdurar depois; nós nos despedimos, dissemos o que, diante do fim de sua vida, sentimos que precisávamos dizer.

Minha mãe está viva. Está viva, mas muito diferente dela mesma. Agora há pouco, dando banho no meu filho menor, me dei conta de repente — não consigo identificar exatamente o que desencadeou a percepção — de que ele não a conhece. Ou melhor, de que ele não a conheceu. Conhece, conheceu, não sei: é isso o Alzheimer, talvez, uma indefinição entre o passado e o presente, a indecisão entre ainda ser e já não ser mais.

Minha mãe piorou muito nos últimos anos, e meu filho, com 5, não tem memória de a avó ser uma pessoa que possa cuidar, em vez de ser alguém que precisa de cuidados o tempo todo.
Procurei vídeos de minha mãe no meu celular, como aquele que fizemos do meu pai; não encontrei nenhum.

Meu pai se foi com aviso; minha mãe está indo pouco a pouco, vai embora de si a cada dia, e eu percebo, agora, que não me dei conta disso a tempo. Se é que há tempo suficiente para qualquer coisa na vida. Acho que não: a vida é sempre sobressalto, sempre sem aviso, sem ensaio, sempre de supetão.

Mas eu não registrei sua gargalhada, seu jeitinho, seus gestos, constato, enquanto a água do banho cai sobre a pele do meu filho. Nem como ela se vestia: ela, que se tornou há uns trinta anos uma judia religiosa e usava saias ou vestidos, nunca calças como as que agora usa, colocadas pela enfermagem que a assiste o tempo todo.

Digo a meu filho, enquanto o seco com a toalha, que a vovó era muito diferente do que é hoje: ela andava direitinho, falava bem, conseguia dizer o nome de cada pessoa, e não só: ela conversava. Dar beijo ela ainda dá, meu filho sabe. E eu sei que ela me reconhece, porque os olhos dela ficam acesos quando me vê, e ainda que ela não consiga mais dizer "Natalia" ainda diz que me ama, e eu sei que isso é verdade. E recíproco.

Meu filho pergunta, intrigado, preocupado: mas o que aconteceu com ela então? Noto em seus olhinhos sábios e inocentes a força da pergunta, a dificuldade de juntar as informações novas com a realidade que ele conhece bem.

Tento explicar, percebo a lacuna de tempo, a diferença entre o luto mais inteiriço da morte pelo câncer e esse outro, em etapas, traiçoeiro, que nos deixa enganar mais facilmente.

Li recentemente "Afetos Ferozes", de Vivian Gornick, a autobiografia de uma relação, aquela entre uma mãe e uma filha. O livro me tocou de muitas formas, mas me doeu de maneira específica. Mãe e filha ali envelhecem juntas, dispõem do tempo para isso, para que a ferocidade do afeto entre elas se transforme de alguma forma, ou ao menos se reconheça para assentar um pouco.

Minha mãe já não me irrita, já não me exige, já não me cobra, não me domina. E eu sinto uma saudade gigante de tudo isso. Como eu queria, hoje, que meu telefone tocasse e fosse ela, vinte vezes por dia. Como eu queria o que parecia e talvez fosse excesso, mas era também um tipo de carinho que só hoje eu consigo enxergar. Se ela hoje pudesse me ligar, eu com certeza não faria a costumeira careta do tédio raivoso com que a tratava. Eu pararia qualquer tarefa do meu dia para lhe dar toda a atenção.

Meu filho aceita meu convite para ouvir a voz da vovó de antes, abro minha conversa com ela no WhatsApp, há tanto tempo inerte, e procuro algum áudio do passado. Por sorte, ela havia me enviado alguns. Bem poucos, bem menos do que eu gostaria.

Enquanto rolo a conversa para baixo, sem me deter muito no que ela escreveu para que doa um pouco menos, vou me deparando, a cada tanto, com uma chamada não atendida, de voz ou de vídeo. Mais uma. Mais uma. Mais uma. Tantas. Tantas vezes em que minha mãe me ligou, minha mãe queria falar comigo ou me ver, e eu não atendia, ocupada demais com qualquer coisa que na hora me parecia muito mais importante.