PUBLICIDADE

Topo

Natalia Timerman

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'A Pior Pessoa do Mundo' e como anda desajustada nossa relação com o tempo

Renata Reinsve interpreta Julie em "A Pior Pessoa do Mundo" - Divulgação
Renata Reinsve interpreta Julie em 'A Pior Pessoa do Mundo' Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Natalia Timerman

Natalia Timerman é psiquiatra, escritora, mestra em psicologia e doutoranda em literatura. É autora de "Copo Vazio", "Rachaduras", finalista Jabuti na categoria contos, e "Desterros", acerca de seu trabalho num hospital penitenciário.

Colunista de Universa

20/05/2022 04h00

Quando entramos na sala escura, o filme já tinha começado. Talvez por isso, pensei, se instalara entre mim e a tela uma sensação de desajuste, como se, perdido o começo da história, eu tivesse que correr incessantemente atrás de uma compreensão, algo que insistia em continuar escapando. Víamos "A Pior Pessoa do Mundo", a história de uma garota norueguesa dos nossos tempos, Julie, que busca um lugar e um sentido para a própria vida, e o faz em meio à tecnologia, à crise climática, a esse presente que tem cara de futuro.

Mas já passara mais de meia hora e o incômodo do atraso persistia. Eu estava gostando do que via, mas percebi que, interceptando minha entrega total à ficção — a delícia de ir ao cinema, enfim —, me vinham imagens da própria sala de exibição, ou melhor, de seu preâmbulo.

Era uma sexta, e ao sair de casa, imaginei aquele espaço lotado, como nos velhos tempos; cheguei até a comprar ingressos com antecedência, performando um pessimismo otimista. A verdade é que, quando chegamos lá, o cinema estava vazio, com cara de última sessão de domingo, alguns gatos pingados espalhados por aquele lugar que, em sua época áurea, em plena rua Augusta, era garantia de encontros.

A essa estranheza se acrescia outra: olhei para o anexo do mesmo cinema, do outro lado da rua, onde já passei tardes terminando livros, emendando café com café, em boas conversas, com uma dolorosa antecipação de saudade. Ele será demolido, junto com outros estabelecimentos do quarteirão que marcou a história da minha vida, para a construção de mais um grande edifício, mais uma enormidade com a qual não consigo me acostumar, parecendo sempre, mesmo após anos, ter me roubado o lugar de alguma coisa; ter me roubado alguma coisa.

Em determinada passagem de "Os Anos", Annie Ernaux reflete: "Ela não sonha mais, como antes, em ir à praia no próximo verão ou virar escritora e publicar o primeiro livro. (...) O passado e o futuro se inverteram, agora é o passado, e não o futuro, seu objeto de desejo".

Entende-se, a partir do projeto do livro — uma autobiografia que, prescindindo do eu, pode ultrapassá-lo e abarcar outras vidas —, que seria de alguma forma natural a nostalgia em determinado momento da vida, como um marco de envelhecimento.

Mas não consigo interpretar meu incômodo com a destruição do cinema querido apenas dessa maneira. Há alguma compreensão que continua escapando; sentada na sala escura, eu permanecia com a sensação de falta, como se aquele começo perdido reverberasse até o fim, fosse algo irrecuperável; como se eu estivesse fadada a estar fora do filme, ou simplesmente fora do tempo.

Na tela, Aksel, um dos namorados de Julie, está com câncer, à beira da morte; interpreto que há um sentido metafórico no fato da personagem com atitudes machistas morrer. Mas há, ainda, algo que continua escapando. O que é? Aksel diz a Julie que, diante de seu fim pessoal, ou seja, diante do fim do futuro, precisa recorrer ao passado; e então meu incômodo ganhou forma, se acomodou: se não temos futuro, se a catástrofe climática se aproxima e se traduz na decisão da personagem de não ter filhos; e se estamos destruindo o nosso passado, como faz toda suposta ideia de evolução, e que se expressava ali na demolição da sala anexa de cinema; se não temos, então, nem futuro nem passado, estamos sem lugar. Ou num presente que tem cara de futuro, mas distópico, vindo de um passado que não cuidou de si.

Estamos soltos num presente, desajustados do tempo, com a sensação de um atraso inconciliável, todos os dias, todos os dias, enquanto o mundo vai sendo demolido à nossa volta.

Talvez seja justamente essa a sensação pretendida pelo filme, pensei, eficaz, então, em manifestar o espírito de seu tempo e colocar em debate algumas de suas grandes questões, como a possibilidade de realização em campos não profissionais e outros tipos de amor que não o romântico.

Ou talvez seja a sensação do tempo, este nosso tempo, entre o futuro e o passado, mas órfão de ambos -- e também do alento, agora impossível, da ficção que o retrata. Mas talvez caiba a ela, à própria ficção, e também ao sonho, a capacidade de inventar um outro tempo para nós.