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Natalia Timerman

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lygia Fagundes Telles era uma mulher escrevendo sobre e como mulher

Lygia Fagundes Telles - Divulgação/Flima
Lygia Fagundes Telles Imagem: Divulgação/Flima
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Natalia Timerman

Natalia Timerman é psiquiatra, escritora, mestra em psicologia e doutoranda em literatura. É autora de "Copo Vazio", "Rachaduras", finalista Jabuti na categoria contos, e "Desterros", acerca de seu trabalho num hospital penitenciário.

Colunista do UOL

03/04/2022 14h45

Lygia Fagundes Telles, uma das maiores escritoras da língua portuguesa, revia e reescrevia sua obra continuamente. Suas personagens, que abrangiam diversos tipos humanos e classes sociais, seguiam recebendo a visita de sua autora depois de publicadas, como se não estivessem nunca prontas, como se precisassem se transformar à medida que ela se transformava.

Foi assim que acabou por rejeitar seu livro de estreia: queria ser reconhecida por sua melhor versão e chegou a dizer em algumas entrevistas: por que, num país em que se lê tão pouco, perder tempo com as juvenilidades de um escritor?

Em minha trajetória como escritora, Lygia Fagundes Telles teve um papel fundamental. Era uma mulher escrevendo, escrevendo sobre e como mulher, dona de uma prosa límpida, sem rodeios, cuja verdade pulsava diante de mim. Foi lendo seus contos que me veio pela primeira vez o ímpeto de escrever.

Mas Lygia me inspirava também de outras maneiras: ela era alguém cuja trajetória profissional fora marcada por mudanças, pois, como Hilda Hilst e Clarice Lispector, estudou direito para depois se consagrar como escritora. Foi na faculdade do Largo São Francisco, aliás, que Lygia e Hilda iniciaram sua frutífera e duradoura amizade.

Lygia cursou também educação física e afirmou que o fez para se garantir financeiramente: não acreditava que poderia viver da literatura, e as duas opções de curso superior seriam uma maneira de não depender economicamente de um casamento.

Quando questionada, em entrevista para os Cadernos de Literatura Brasileira, sobre a existência de uma literatura feminina, Lygia respondeu:

O que existe são mulheres e homens que escrevem bem e mulheres e homens que escrevem mal.

Ela sabia, no entanto, que sua vivência de mulher aparecia em sua escrita, o que não a torna suscetível ao rótulo: de fato, Lygia é lida e estudada por homens e mulheres.

Ela nos deixa hoje, aos 98 anos, depois de escrever livros que reivindicaram rapidamente seus lugares como clássicos, caso de "As Meninas", romance de 1973 que, em plena ditadura militar, trazia como mais que mero pano de fundo a violência do governo, além dos volume de contos "Antes do Baile Verde", de 1970, e "Seminário dos ratos", de 1977.

Foi também autora de uma vasta obra que ajudou a definir o curso da literatura brasileira e cujo tom podia variar de reflexões profundas suscitadas pela vida cotidiana ao estranho que beira o terror, num estilo que podia se transformar de acordo com a linguagem que pedia seu protagonista, fosse ele quem fosse.

Lygia Fagundes Telles nos deixa, além do vazio de sua presença consistente e sorridente no mundo, quatro romances e duas dezenas de volumes de contos que agora, infelizmente, chegam à sua versão definitiva.