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Natalia Timerman

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mãe é também uma mulher com outros sonhos que não os próprios filhos

FG Trade/Getty Images
Imagem: FG Trade/Getty Images
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Natalia Timerman

Natalia Timerman é psiquiatra, escritora, mestra em psicologia e doutoranda em literatura. É autora de "Copo Vazio", "Rachaduras", finalista Jabuti na categoria contos, e "Desterros", acerca de seu trabalho num hospital penitenciário.

Colunista de Universa

25/03/2022 04h00

Das malas — uma de roupas, uma de livros — tentei deixar de fora a culpa, mas ela parecia grudar em cada um dos objetos que eu separava antecipando a viagem. Porque é isso, fazer as malas: antecipar o frio, as corridas, antecipar as noites de sono, predizer o futuro. Dez dias para alguém que pretende terminar de escrever um livro não é nada, é um tempo sem dúvida irrisório, insuficiente. Dez dias para uma mãe que vai deixar os filhos em casa, é tempo demais.

Precisei de três livros publicados e uns outros tantos textos soltos pelo mundo para conseguir me chamar de escritora. Em parte pelo ofício da escrita, certamente, que sempre duvida de si mesmo; em parte por eu ser mulher, essa entidade constantemente questionada pela sociedade e em seu próprio âmago sobre suas capacidades e feitos, sobre seus sonhos.

É preciso um sonho estrondoso, suplicante, exigente, que aprendi a chamar de maldição — a maldição de escrever — para que se tenha coragem de realizá-lo em certas condições; para que eu tenha a coragem de delegar ao meu companheiro toda a complexa rotina de crianças de idades diferentes, de desmarcar a agenda do meu consultório de psiquiatra e psicoterapeuta fora do meu período de férias, para que eu deixe momentaneamente de lado os compromissos do doutorado em letras em que ousei ingressar e que também me faz considerar a literatura, que não me sustenta financeiramente, mais que um capricho.

Não à toa, uma das autoras que estudo no doutorado é Elena Ferrante: essa que me mostrou pela primeira vez que mães podem não só desejar inconfessavelmente fugir, mas vão embora de fato.

Incentivadas, talvez, pela mesma punhalada de culpa que senti ontem, falando com meu companheiro, ao notar que ele estava sobrecarregado enquanto estou aqui; esse ardor absoluto e instantâneo que provavelmente nenhum homem sentiria ao se ver longe de seus filhos enquanto eles são cuidados exclusivamente por suas mães.

Essa carga, essa tênue e maciça carga que a maioria das mulheres não tem a oportunidade de transferir nem por alguns dias.

Quem não tem, como aconselha Virginia Woolf, um teto todo seu, às vezes precisa sair de casa para obter o deslocamento que, no fundo, toda literatura exige, mesmo quando se escreve sobre si.

Sair de casa para estar nessa outra habitação, sem paredes, sem garantias, sem descanso que é a escrita. Deixar os filhos. Ainda que eu consiga, sim, e já tenha em inúmeras ocasiões elaborado textos com o barulho das brincadeiras e confusões deles de fundo (e não só de fundo: mãe, brinca comigo, mãe, posso jogar, mãe, ele pegou meu brinquedo).

Mas o silêncio que me rodeia agora, a pilha de livros aqui do lado digna de uma viagem não de dez, mas de cem dias, a despreocupação com as horas, porque não preciso levar ninguém à escola, não preciso dar banho nem colocar nenhuma criança para dormir, não preciso alimentar nenhuma outra criatura além de mim, são uma amostra do que minha vida poderia ser; uma vida que, apesar de querer que fosse a minha, daqui a dez dias escolherei mais uma vez, de bom grado, recusar.

Recusar provavelmente com uma estranha saudade de duas vias: saudade tanto da vida que insisto em considerar a verdadeira, aquela junto dos meus filhos, aquela para a qual estarei voltando, quanto desta, provisória, ao mesmo tempo real e irreal, a de uma mulher que se dedica apenas ao seu maior ofício.

E quando eu voltar — porque volto —, quando eu refizer as malas contrastando as minhas previsões com o que a viagem foi, olhando a peça de roupa que ficou intacta, o livro que coloquei de última hora junto dos outros e me foi útil (as previsões são sempre inevitavelmente diferentes do que a viagem é), quando eu fechar o arquivo do que pude escrever aqui — meu próximo livro —, quando eu chegar em casa e receber o abraço que os meus dois meninos estavam guardando para mim, saberei que minha ausência os terá ensinado que uma mãe é também uma mulher com outros sonhos que não os próprios filhos —e que devem, sim, ser realizados.