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Vanlife: casal transforma ambulância em motorhome e larga tudo para viajar

Juntos há dez anos, Júlia e Felipe moram em uma van de 6 m² - Reprodução/Instagram
Juntos há dez anos, Júlia e Felipe moram em uma van de 6 m² Imagem: Reprodução/Instagram
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

10/11/2021 04h00

A história de Júlia e Felipe começou há exatamente 10 anos —nesta semana, inclusive, os dois celebram uma década juntos. Eles se conheceram e se apaixonaram numa festa da faculdade em 2011, em Jaboticabal, no interior de São Paulo. Ela era estudante de veterinária; ele, de agronomia.

O início do namoro coincidiu com o começo da vida profissional de ambos, só que em cidades diferentes. Pouco mais de 120 quilômetros separavam o casal. Parece pouquinho, mas era bastante para os dois que só conseguiam se ver aos fins de semana. Sobrava saudade no caminho. Para contornar esse problema, os dois largaram tudo e migraram para uma área completamente diferente: telecomunicações. E foram atuar em Barbacena, Minas Gerais, na empresa do pai de Júlia.

Deixando tudo para trás

"A gente tomou essa decisão pra poder ficar junto. Nos mudamos em maio de 2014 e nos casamos em setembro de 2015. Foram cinco anos na empresa, mas a gente já entendia que não seria o nosso trabalho pro resto da vida. A gente gostava do que fazia, mas viu que aquele ciclo tinha se encerrado. O trabalho corporativo, crescer em cargos... A gente não se via feliz seguindo esse caminho", conta a veterinária Júlia Borges, 32 anos. "Pela segunda vez a gente largou tudo", completa o agrônomo Felipe Torres, 31.

O casal explica que a ideia era ter um período sabático e fazer mochilão pelo mundo, viajando de avião. Em fevereiro de 2019 eles deixaram a empresa e, um mês depois, se viram em meio à pandemia. Lockdown.

"Não tínhamos mais o nosso trabalho e também não podíamos viajar. Tínhamos feito a nossa reserva financeira, e então começamos a olhar a possibilidade de construir um motorhome. Foi aí que tudo começou", lembra Júlia.

Felipe explica que a mudança de planos aconteceu quando começaram a pesquisar meios de viajar com segurança. "A única maneira que a gente encontrou de ficar em casa foi levando a casa conosco. Devido à pandemia, escolhemos a vanlife."

Uma casa sobre rodas

Foram 16 meses entre planejamento, execução e início do novo projeto de vida casal. O veículo escolhido foi uma Sprinter 1997 que funcionou por mais de duas décadas como ambulância. A compra da Sprinter e a reforma completa, feita manualmente pelos dois, custou, ao todo, R$ 87 mil. A casa sobre rodas se transformou em lar e a antiga ambulância ganhou nome próprio: Josephina.

"Temos uma relação bem leve e não costumamos brigar. Quando discutimos sobre alguma coisa, costumamos também nos acertar com uma certa rapidez. Não somos orgulhosos, então nos reconciliamos com facilidade. Os 6m2 quadrados em que a gente vive hoje não foram um problema pro nosso relacionamento", diz Felipe - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
"Temos uma relação bem leve e não costumamos brigar. Quando discutimos sobre alguma coisa, costumamos também nos acertar com uma certa rapidez. Não somos orgulhosos, então nos reconciliamos com facilidade. Os 6m2 quadrados em que a gente vive hoje não foram um problema pro nosso relacionamento", diz Felipe
Imagem: Reprodução/Instagram


Sucesso nas redes

Todo o passo a passo foi documentado pelo casal que pretendia, também, inspirar outras pessoas. Assim nasceu "A Hora de Ir", canal no YouTube criado no ano passado e que acumula mais de 300 mil visualizações.

No Instagram, onde têm 30 mil seguidores, Júlia e Felipe postam fotos e vídeos de tirar o fôlego e dão dicas sobre os lugares paradisíacos que conheceram ao longo dos 16 mil quilômetros percorridos em 13 estados brasileiros.

"Tivemos surpresas muito positivas viajando pelo Brasil. Nosso país tem lugares impressionantes! Os Lençóis Maranhenses são um exemplo. Lá eles falaram: 'Só agora o brasileiro tá vindo pros Lençóis, por causa da pandemia. Antes era só francês, alemão, russo que vinha pra cá. Brasileiro, não'. Então acho que tem muita coisa legal pra ser descoberta no nosso país", comenta Júlia.

Quanto custa?

Viver sobre rodas pode ser mais em conta que se manter em uma metrópole. Entre diesel, mantimentos e eventualidades, o casal gasta em torno de R$ 6 mil por mês. Alguns de seus amigos têm despesas mensais que chegam a R$ 6 mil por pessoa.

Quem deseja a liberdade da estrada precisa ter, além de uma renda mensal, uma reserva de emergência. É o que aponta Felipe: "No nosso caso, se quebra o motor do veículo e ele tiver de ser refeito, gastamos em torno de R$ 15 mil. Então é importante ter de R$ 15 mil a R$ 20 mil de reserva, além de uma renda para se manter. As coisas encareceram demais, é bom a gente se lembrar disso. O diesel está extremamente caro, a comida está cara, está caro viver. Parado e andando", expõe.

Enquanto fizer sentido

Quando abraçaram a "vanlife", ou "vida na van", em tradução literal, e que também reflete um movimento em direção a uma vida mais simples, Júlia e Felipe não imaginavam ir tão longe.

"Eu tinha medo, aí falava pro Felipe 'vão ser três meses, no máximo'. Hoje a gente não fala mais em datas, mas em objetivos. A gente quer rodar a América do Sul no ano que vem. Uma coisa que a gente sempre fala é 'enquanto fizer sentido'. E se um dia a gente falar 'não quero mais', também não tem problema. Hoje a gente conseguiu se libertar um pouco dessa questão do planejamento e, com isso, as coisas vão acontecendo", comemora Júlia.