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Carla Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hollywood está falando mais sobre distúrbios alimentares. E isso é ótimo!

Emma Corrin como Diana em "The Crown"; bulimia da princesa é retratada na série - Divulgação
Emma Corrin como Diana em "The Crown"; bulimia da princesa é retratada na série Imagem: Divulgação
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Carla Lemos

Carla Lemos é feminista, carioca, criadora do blog Modices e produtora de conteúdo há mais de 15 anos. Observadora atenta das mudanças de comportamento das mulheres na sociedade, Carla comanda o podcast PRIMAS e é autora do livro "Use a Moda A Seu Favor".

Colunista de Universa

19/08/2021 16h26Atualizada em 23/08/2021 11h51

Eram nem 8h da manhã de um quarta, talvez quinta-feira. Eu estava querendo fugir das notícias e distrair a cabeça pela manhã quando resolvi dar play numa série da sobre aeróbica passada nos anos 80. E qual foi a minha surpresa quando a série começa a falar de distúrbios alimentares? E ainda de um jeito tão cru que eu definitivamente não esperava. A série se chama "Physical" e a sua criadora Annie Weisman disse que queria abordar esse assunto "tão a sério como muitos programas de TV a cabo levam outros vícios". E nos 15 primeiros minutos você entende o que ela quis dizer.

Logo depois de "Physical", me deparei com outra abordagem sobre distúrbios alimentares ao maratonar "Eu Nunca", série adolescente criada por Mindy Kaling. Isso me fez pensar como nos últimos 3, 4 anos começamos a ter mais tramas falando sobre transtornos alimentares trazendo alertas importantes, como no caso da abordagem da bulimia da princesa Diana em "The Crown" ou das personagens Katie e Madison em "This is Us".

Distúrbios alimentares como anorexia e bulimia acontecem nove vezes mais em mulheres do que em homens. E esse número infelizmente cresce atingindo crianças cada vez mais jovens. Um estudo feito em São Paulo em 2014, por exemplo, mostrou que 77% das jovens entre 10 e 24 anos têm propensão a desenvolver distúrbios alimentares.

A pandemia infelizmente colaborou muito para o aumento de casos. Segundo reportagem da revista Azmina para a "Folha de S. Paulo", a solidão e a falta de apoio contribuíram com esse cenário no período pandêmico, já que transtornos alimentares estão relacionados não só a pressão estética, mas também a uma dificuldade para lidar com emoções, relações familiares e sociais.

Rose Byrne interpreta Sheila Rubin em "Physical" - Divulgação - Divulgação
Rose Byrne interpreta Sheila Rubin em "Physical"
Imagem: Divulgação

Nessa mesma matéria, a psicóloga Cristiane Seixas ainda fala do "empobrecimento maior da vida" quando a maior parte dos pensamentos e da atenção da pessoa gira em torno da comida e do peso. E eu fiquei triste pensando em quantas mulheres que eu já conheci que eram exatamente assim.

Quanto mais se fala sobre, mais fácil é identificar características e comportamentos de quem sobre de transtornos alimentares. Por mais que quem sofra tenha quase sempre consciência do seu transtorno, admitir para as outras pessoas e pedir ajuda é uma barreira difícil de transpor, como é mostrado em "Physical". Toda vez que tem uma crise, a personagem Sheila diz para si mesma que é a última vez, no que se torna um círculo vicioso.

É como eu falo no meu livro "Use a Moda a Seu Favor", muitas atitudes relacionadas a distúrbios alimentares são naturalizadas, romantizadas e muitas vezes incentivadas pela sociedade. É "normal" mulheres fazendo dietas restritivas, é "normal" mulheres comerem menos, é "normal" associar o descontrole emocional consequente da privação de comida (que independe de gênero) a "natureza" das mulheres.

Tirar esse problema das sombras e falar sobre eles é importante para incentivar quem está passando por isso não só a buscar ajuda, como também a aceitar essa ajuda

Então, é importante que a gente esteja sempre atenta para ajudar, especialmente as crianças e adolescentes que têm sofrido cada vez mais cedo com esses transtornos. Tirar esse problema das sombras e falar sobre eles é importante para incentivar quem está passando por isso não só a buscar ajuda, como também a aceitar essa ajuda.

O número de casos vem crescendo tanto que uma equipe da Universidade Federal de Minas Gerais desenvolveu uma nova ferramenta para facilitar o diagnóstico precoce de anorexia, bulimia e compulsão alimentar. Se trata de um questionário com 5 perguntas rápidas que ajudam a identificar riscos de distúrbios alimentares para que profissionais da saúde possam identificar e encaminhar para uma avaliação completa:

1. Você provoca vômito quando está se sentindo desconfortavelmente cheio?
2. Você se preocupa de ter perdido o controle do quanto come?
3. Você perdeu recentemente mais de 5 quilos num período de 3 meses?
4. Você acredita estar gordo(a) apesar das outras pessoas dizerem que você está muito magro(a)?
5. Você diria que a comida domina a sua vida?

Se a pessoa responder "sim" a pelo menos duas questões, é indicada a consultar um médico. O diagnóstico só pode ser feito por um especialista, que avalia outros fatores. É importante lembrar que distúrbios alimentares são transtornos psiquiátricos que necessitam de tratamento multidisciplinar, envolvendo nutricionistas, psicólogos, psiquiatras, entre outros. E, infelizmente, o acesso a esse tratamento ainda é difícil no Brasil. Segundo dados de 2020 da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (Astral), existem apenas 20 lugares públicos e 27 privados com profissionais preparados para atender esses pacientes.

Assim como precisamos de mais investimentos na formação de profissionais especializados e infraestrutura para oferecer tratamento para essas garotas, precisamos também trabalhar na prevenção. Por isso, falar mais sobre esses transtornos em séries e filmes é um ótimo passo. E não é coincidência que isso tenha acontecido justamente quando tivemos um expressivo aumento na participação feminina na criação, redação e direção de séries em Hollywood.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL