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Carla Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Geração Z, o mundo dá voltas: seus jeans também serão "cringe" no futuro

Maisa faz parte da geração Z, os nascidos a partir de 1996 - Reprodução/Instagram
Maisa faz parte da geração Z, os nascidos a partir de 1996 Imagem: Reprodução/Instagram
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Carla Lemos

Carla Lemos é feminista, carioca, criadora do blog Modices e produtora de conteúdo há mais de 15 anos. Observadora atenta das mudanças de comportamento das mulheres na sociedade, Carla comanda o podcast PRIMAS e é autora do livro "Use a Moda A Seu Favor".

Colunista de Universa

05/07/2021 04h00

"Cringe" é a palavra inglesa mais popular do Brasil nos últimos dias. Segundo o Google, a frase "o que é cringe?" foi a pergunta mais feita no Brasil na semana de 21 de junho. O papo começou depois de uma thread no Twitter em que a podcaster Tchulim questionou a geração z sobre hábitos dos millennials condenados pelos zennials. Entre café da manhã, boleto e vinhos, a calça skinny apareceu na lista. Então, fiquei me perguntando: será que o modelo justinho é para geração z o que a calça baggy foi para os millennials?

Há alguns meses, assisti a alguns vídeos no TikTok de garotas falando sobre como calça skinny faz com que elas se sintam desconfortáveis e preocupadas com a própria aparência, enquanto a "mom jeans", mais larga, dá mais confiança.

E não é que essa sensação é muito parecida com aquela que fez as mulheres largarem as baggys no passado? Bem-vindos ao ciclo (sem fim) da moda.

A calça skinny bombou nos anos 2000 graças à evolução da tecnologia têxtil que começou a produzir tudo que é tecido com elastano. Elastano, também conhecido como lycra, é uma fibra sintética que foi desenvolvida para ser usada em cintas modeladoras. Ou seja, o elastano foi desenvolvido para aderir ao corpo das mulheres. .

Durante os anos 60 e 70, era usado na moda íntima e a ascendente moda praia. Nos anos 80, ele migrou para as peças esportivas até que, nos anos 2000, alcançou todo tipo de tecido, até mesmo o jeans. Isso fez com que uma nova silhueta fosse possível. Assim, as calças jeans femininas pararam de limitar movimentos pela rigidez do tecido e passaram a acompanhar as formas e o movimento do corpo. Era o começo do reinado da skinny.

Ironicamente, o grande ícone de estilo que influenciou toda uma geração de millennials a usar modelos à vácuo era uma pessoa da geração X, a modelo inglesa Kate Moss. Em meados na década de 2000, ela era perseguida constantemente por paparazzis que "registravam seus looks". Kate quase sempre estava de calça jeans justinha e as suas fotos começaram a se propagavam nos novos veículos de moda, os blogs.

Eu mesma, como uma das precursoras na blogosfera de moda nacional, contribuí para a dominação cultural da calça jeans skinny. Fiz inúmeros posts com dicas de como usar a danada, muitos com fotos da Kate. Todas queriam ser estilosas sem esforço como ela. Assim como as outras garotas da minha geração, que tinha acabado de chegar aos 20 anos, as mulheres de 30 e muitos eram donas da minha admiração.

Queríamos ser como elas e, ao mesmo tempo, tomar distância da estética das nossas mães. Aliás, é daí que vem o "novo nome" da calça baggy: mom jeans. O termo foi cunhado pela humorista Tina Fey numa esquete de 2003, que viralizou justamente por zoar a modelagem larga e volumosa das modelagens dos anos 80 usadas pelas "mães". A gente não queria repetir essa imagem, pelo contrário. Era constrangedor usar esse modelo de calça. Pois é, millennials, a gente também já chamou as outras gerações de cringe.

Foi fácil desenvolver apego pela calça skinny, mas ela não é exatamente feita para todos os tipos de corpos. Na verdade, a calça skinny supervaloriza a magreza. Quem tem muitas curvas, como pernas grossas ou quadris largos, encontrou dificuldade para usar esse modelo, especialmente por falta de modelagens pensadas para estes corpos

A calça skinny reinou por mais de uma década, mas o mundo mudou nesse período, especialmente quando falamos sobre o comportamento das mulheres. O empoderamento feminino virou pauta e. junto com ele, chegaram as conversas sobre aceitação corporal, ascensão do movimento body positive. As jovens pararam de naturalizar o "caber na roupa" e passaram a buscar roupas que coubessem nelas, inclusive exigindo grades de tamanhos mais extensas.

É natural que a geração Z, portanto, rejeite os símbolos da geração que não a inspira e ache tudo um tanto constrangedor. Pode ser que eles paguem a língua, como nós pagamos criticando a pochete até entender que ela é útil em diversas situações. Ou mesmo, quanto à amada calça baggy, agora chamada de 'mom jeans'

Então, minhas cringes, não se preocupem em usar ou fazer coisas que parecem constrangedoras aos olhos dos adolescentes de hoje. O mundo dá voltas, a moda é cíclica e o que importa é como as roupas fazem você se sentir — não o que um determinado grupo acha delas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL