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Carla Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A força dessas duas ativistas africanas vai resgatar a sua fé na humanidade

Stella Nyanzi é uma antropóloga e ativista de Uganda - Reprodução/Instagram
Stella Nyanzi é uma antropóloga e ativista de Uganda Imagem: Reprodução/Instagram
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Carla Lemos

Carla Lemos é feminista, carioca, criadora do blog Modices e produtora de conteúdo há mais de 15 anos. Observadora atenta das mudanças de comportamento das mulheres na sociedade, Carla comanda o podcast PRIMAS e é autora do livro "Use a Moda A Seu Favor".

Colunista de Universa

27/05/2021 04h00

Nesta semana, no dia 25 de maio, foi celebrado o Dia da África. Sempre penso por quais motivos a gente, que é brasileira, não se sente próxima das mulheres de lá. O Brasil tem a maior população negra fora desse continente; também um histórico de colonização e exploração de recursos.

E, se informações sobre as mudanças que as mulheres estão provocando no mundo são o único tipo de notícia capaz de trazer um pingo de esperança na situação que a gente vive, quero te apresentar duas ativistas africanas: Stella Nyanzi, de Uganda, e Alaa Salah, do Sudão. São figuras incríveis, que estão lutando para mudar a realidade dos seus países com regimes autoritários liderados por homens.

Stella Nyanzi é uma antropóloga de Uganda. Aos 46 anos, é uma das pessoas com maior número de seguidores no país. E sabe do que ela é influencer? Dos direitos das mulheres, jovens e pessoas LGBTQIA+.

No início de 2017, criou um projeto que coletou milhares de absorventes reutilizáveis e distribuiu nas escolas, oferecendo palestras sobre saúde menstrual para crianças.

Em um primeiro momento, o presidente do país, Yoweri Museveni, disse que apoiaria a iniciativa, garantindo que as estudantes ugandenses tivessem absorventes, mas voltou atrás. Stella discutiu publicamente com a esposa dele, que é também Ministra da Educação do país, e postou um poema criticando o líder em sua página no Facebook.

Como líderes autoritários não gostam de ser contrariados, ele ordenou que ela fosse presa. A Uganda é comandada por Museveni, que está no poder desde 1986 sob suspeitas de fraudes eleitorais e corrupção, além de deterioração dos direitos humanos, descaso com o crescimento de desemprego e fraco combate à pobreza.

Depois de solta, Stella continuou fazendo campanha pelos direitos das mulheres e pelo que percebe como falta de democracia no país. Foi presa novamente, cerca de um ano depois, mas em outro cenário. A atitude do governo em relação a ela gerou uma raiva generalizada, que se reverteu em grande apoio popular.

Em liberdade, se deparou com gente que percorreu longas distâncias para celebrar sua soltura. Chegou a se candidatar a um cargo público, mas não alcançou o posto. A campanha eleitoral em Uganda, no ano passado, foi marcada por violência, corte da internet, protestos e confrontos entre apoiadores do governo e opositores.

Em fevereiro de 2021, Stella fugiu com seus três filhos em busca de asilo no Quênia. Em entrevista à CNN, afirmou que precisa descansar. "Fugi para poder viver amanhã e continuar contribuindo para a luta de libertação. Tive cinco anos agitados e acho que mereço uma pausa. Eu mereço me recuperar, mereço cuidar de mim mentalmente, emocionalmente, fisicamente — fortalecer minhas reservas de energia e depois voltar à luta maior", disse.

Ela nos lembra de que lutar é importante, mas há outro ensinamento valioso: a gente precisa de pausas, a gente precisa de tempo para descansar, se recompor e se fortalecer

Da África Oriental, subimos para o norte para conhecer Alaa Salah, do Sudão, um país de raízes árabes, majoritariamente muçulmano desde 2011, quando rolou a separação do Sudão do Sul. Em 2019, o Sudão foi tomado por manifestações contra o governo e uma foto viralizou. Era Alaa em pé em cima de um carro, com vestido e véu brancos, brincos redondos dourados que brilhavam como o sol e braço pro alto entoando um cântico de resistência. A foto é belíssima e é também carregada de simbolismo.

O Sudão, antes de Cristo, era um reino próspero e poderoso — Reino Kush, de mulheres guerreiras, as rainhas núbias do Sudão, chamadas Kandakas. Elas eram soberanas vestidas com véus brancos e muitos artefatos de ouro. Alaa soube usar a moda a seu favor e a galera pescou a referência.

Antes de saberem seu nome, foi referenciada no mundo todo em homenagem às ancestrais. Foi a força feminina que lutou pelo país milênios atrás e que continua reverberando agora, já que 70% dos manifestantes dos protestos de 2019 do Sudão eram mulheres.

"As sudanesas sempre participaram nas revoluções. Faz parte da nossa herança", disse Alaa em entrevista recente. Assim como Uganda, o Sudão também foi comandado por mais de 30 anos por um regime opressor. Os protestos contra o líder se iniciaram em razão do preço do pão, que chegou a triplicar, e se alastrou. Por causa da instabilidade, Omar Al-Bashir foi deposto ainda em 2019, quando assumiu um governo de transição.

Em um discurso na ONU, Alaa contou que nunca esteve envolvida com política antes das manifestações, mas que sentiu necessidade de contestar o sistema em prol de uma causa maior do que ela.

Depois que al-Bashir foi forçado a sair, líderes militares e da oposição negociaram um acordo de compartilhamento de poder. O Estado revogou uma lei que ditava como as mulheres devem agir e se vestir. A mutilação genital feminina foi criminalizada. As mulheres não precisam mais do consentimento do marido ou responsável masculino para viajar com os filhos. Mas a luta segue em frente.

Stella e Alaa são exemplos de diferentes gerações, que estão à frente da revolução por um mundo melhor. Espero que essas histórias te inspirem hoje.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL