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Carla Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que Rodolffo fica tão incomodado com o vestido de Fiuk no BBB

BBB 21: O sertanejo Rodolffo - Reprodução/Globoplay
BBB 21: O sertanejo Rodolffo Imagem: Reprodução/Globoplay
Carla Lemos

Carla Lemos é feminista, carioca, criadora do blog Modices e produtora de conteúdo há mais de 15 anos. Observadora atenta das mudanças de comportamento das mulheres na sociedade, Carla comanda o podcast PRIMAS e é autora do livro "Use a Moda A Seu Favor".

Colunista de Universa

23/03/2021 04h00

Se no BBB 20 o machismo foi o grande tema da temporada, nesta edição a homofobia reina absoluta desde os primeiros dias de confinamento. E o próprio reality mostra como, infelizmente, essas opressões estão muito mais interligadas do que a gente imagina.

Logo nos primeiros dias do BBB 21 já rolou debate sobre transfobia, a discriminação contra pessoas transgênero, quando alguns brothers, entre eles, Caio e Rodolffo, foram maquiados e fizeram um desfile performando trejeitos femininos de forma caricata. Lumena apontou a questão e o debate sobre transfobia se instaurou na casa e nas redes sociais.

"A partir do momento que você acha que o fato de você ser homem e estar maquiado permite te imitar um jeito de outra pessoa, aí que está o erro", disse Camilla de Lucas, numa das conversas da casa sobre o tema. Nunca foi sobre homens usarem maquiagem. Tanto é que nas semanas que se seguiram outros brothers como Gil, João e Fiuk foram maquiados e continuaram agindo com naturalidade (como deve ser).

fiuk bbb - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
Fiuk usa vestido em festa do BBB, o que gerou comentários equivocados de Rodolffo
Imagem: Reprodução/Globoplay

Poucas semanas depois da treta da maquiagem foi a vez da bifobia, discriminação contra pessoas bissexuais - aquelas se relacionam com pessoas independente do gênero - entrar na casa. O icônico beijo entre Lucas Penteado e Gil do Vigor foi questionado por praticamente todos os outros participantes e até levou Lucas desistir do programa. Mesmo semanas após o beijo, a bissexualidade do ex-BBB ainda continua sendo questionada por Sarah e Juliette que eram suas aliadas no jogo.

A homofobia no BBB21 não está presente só nos grandes acontecimentos que movimentam toda a casa. Quem acompanha o pay-per-view, há tempos tem apontado falas homofóbicas de Rodolffo se referindo a Gil, especialmente por seu jeito afeminado.

"Não consigo ficar perto dele, rir das piadinhas, desses gritinhos dele o tempo inteiro", disse o sertanejo, que até no queridômetro dava tratamento "diferenciado" para Gil e João.

Mesmo afirmando não ser homofóbico, Rodolffo não para de agir como tal. Até mesmo Fiuk, um homem heterossexual virou alvo dos comentários homofóbicos de Rodolffo. Ao ver o figurino de Fiuk com uma camiseta comprida que se assemelhava a um vestido, o sertanejo soltou: "Como que leva esse menino de vestido para as boates de Goiânia?".

A homofobia anda de mãos dadas com a misoginia, que é o desprezo pelo feminino. Na nossa sociedade, tudo que é considerado característica feminina é vista como menor, inferior, caricato. 'Deixa de ser mulherzinha' e 'chora que nem uma garotinha' são comentários proferidos com intuito de ofender meninos. Mas que ofendem de verdade as mulheres.

Para homens como Rodolffo não tem nada pior do que carregar em si características consideradas "femininas". É por isso que o jeito de Gil incomoda, é por isso que Fiuk usar "vestido" incomoda. Tanto que o sertanejo deixou até vídeo pronto antes de entrar na casa dizendo adorar "criatura gay". O que já percebemos que não é verdade.

O comentário sobre o vestido mexeu com Fiuk, que só ouviu parte, e também mexeu com Gil, que com o poder de líder da semana, indicou o sertanejo ao paredão desta terça (23) pelos seus comentários homofóbicos. Em conversa com Arthur na madrugada, Gil desabafou sobre como os comentários de Rodolffo o atingiram como homem gay que já quis usar brinco, pintar as unhas, mas se sentia intimidado porque era chamado de "bicha" de forma ofensiva.

No Brasil, essa interseção de preconceitos gera os dados assombrosos de violência com os altíssimos índices de agressões contra mulher e contra pessoas LGBTQIA+ no mundo, onde justamente gays afeminadas e mulheres trans são os principais alvos. Gil não se calar frente aos comentários homofóbicos e os expor como seu motivo de voto foi importante e histórico como disse o colunista do UOL Mauricio Stycer.

Agora, nos resta esperar que os brasileiros que acompanham este BBB mostrem que realmente aprenderam a votar e não deixem esse grande representante do pensamento homofóbico e misógino brasileiro seguir no programa. Bora, Brasil!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL