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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Empatia: como abrir o canal para ouvir a sua parceria?

Sorte dos que conseguem ser acolhidos ao se revelarem ao outro, pois é nesse tipo de relação em que mais se fortalece a intimidade emocional e o amor - iStock/Getty Images
Sorte dos que conseguem ser acolhidos ao se revelarem ao outro, pois é nesse tipo de relação em que mais se fortalece a intimidade emocional e o amor Imagem: iStock/Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

29/01/2022 04h00

Eu não tenho dúvida de que a chave para criar intimidade em uma relação está na capacidade de sermos empáticos, de nos colocarmos no lugar da outra pessoa. E isso não significa simplesmente ouvir alguém: ser empático é, antes de tudo, compreender emoções e sentimentos alheios, mesmo que eles sejam diferentes dos seus e que ouvi-los doa em seu coração, pois eles vão contra seus princípios ou expectativas. Já que o mais difícil para manter em uma relação amorosa de compromisso é manter o desejo, talvez a chave esteja também na prática da empatheia, palavra grega que significa paixão.

Parece simples, mas não é. Somos afeitos a decodificar movimentos e expressões a partir de nosso código pessoal e julgar os outros a partir das nossas convicções e experiências. Além disso, vamos formando crenças a nosso respeito e também sobre as outras pessoas. Você pode ter entendido, em algum momento de sua relação amorosa, que a sua parceria é muito sensível ou muito frágil. Ou então fria e pouco carinhosa.

É possível que não seja um "míope emocional" e realmente sua percepção sobre ela faça algum sentido. No entanto, muitas vezes deixamos de lado o desenvolvimento das pessoas, os esforços que elas empregam para fazer diferente, as mudanças no comportamento e ficamos repetidamente fazendo uma leitura "viciada" de suas atitudes e ideias.

A última vez que vi isso acontecer foi com um cara que chamou a mulher de "travada" na cama, sendo que, eu juro, ela dá baile de erotismo em muita mulher que se auto-intitula como "moderninha". Em algum momento do passado já longínquo deles, de fato ela era mais recatada, nada a ver com a mulher que se tornou hoje. Aliás, eles já tinham meio que "resolvido" isso, quando perceberam que não é porque ela negue um desejo dele que isso significa ser "travada". No entanto, foi só ela lhe dizer: "Não, querido, esse tipo de coisa não estou mais a fim de fazer", que ele pegou o antigo rótulo e jogou na cara dela. Faltou-lhe empatia, pois a frustração dele gritou mais alto.

Crenças permeiam também a nossa visão sobre o coletivo, como, por exemplo, a de que todas as mulheres falam muito ou de que os assuntos femininos são chatos, que as mulheres não têm tanto desejo sexual e assim por diante. Que todos os homens só querem saber de sexo, são insensíveis e traiçoeiros. Quanto há de verdade universal nesses slogans de gênero, idade, raça, credo ou partido político?

Como ser empático

Para treinar empatia é preciso adquirir o pacote Premium e não só assistir o conteúdo gratuito. Não é entrar em uma conversa aguardando a brecha para mostrar-se incrível, muito inteligente, experiente, cool, colocando a luz sobre você. É ter um prazer investigativo sobre a vida da outra pessoa, ser curioso (a) e abandonar arrogâncias.

Não dá para escutar alguém buscando o seu erro, a sua falha, a sua contradição, só para munir-se de argumentos para contra-atacar, provando que aquilo tudo é mais do mesmo; menos ainda propor uma escuta ou vivência que, lá no íntimo, diz: "Quanta bobagem ou que horror!". Praticar empatia não é concordar com os outros, mas abrir um canal de comunicação mais livre e verdadeiro, tentando compreender, mais do que a outra pessoa pensa, o que ela sente. Sim, isso dá trabalho, envolve coragem e desconstrução.

Ser empático com o desejo alheio, diante dos enquadramentos culturais sobre o que é e como "devemos" viver o amor, o casamento e a expressão da nossa sexualidade, é um exercício árduo, pois constantemente as vontades humanas nesse campo são múltiplas, às vezes ambivalentes, outras vezes confusas, constantemente transgressoras. Causam culpa e vergonha, assombro e medo.

É por isso que tantas pessoas, nesse campo, vivem segredos que as parcerias jamais imaginam. Sorte dos que conseguem ser acolhidos ao se revelarem ao outro, pois é nesse tipo de relação em que mais se fortalece a intimidade emocional e o amor.