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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Estudo associa IMC alto e humor deprimido à disfunção sexual feminina

Fatores ligados a qualidade de vida interferem na saúde sexual - iStock
Fatores ligados a qualidade de vida interferem na saúde sexual Imagem: iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

07/08/2021 04h00

Disfunção sexual é uma alteração persistente em alguma fase da resposta sexual, seja desejo, excitação ou orgasmo, provocando incômodo e prejuízo na vida de uma pessoa. Ela pode ser primária, quando acontece ao longo da vida (nunca ter experimentado um orgasmo, por exemplo) ou secundária, quando a partir de algum momento da vida passa a ocorrer. Também pode ser situacional, quando a dificuldade acontece só em determinado contexto (gozar na masturbação, mas não conseguir ter orgasmo durante a relação sexual) ou geral, que independe da situação.

O índice de disfunção sexual feminina é bastante alto, acometendo em torno de 40-45% das mulheres, considerando queixas sobre dificuldade em ter orgasmo, baixa de desejo e dor durante a relação sexual. Nos últimos anos temos falado bastante o quanto fatores socioculturais, religiosos, relacionais e individuais interferem na sexualidade feminina. A auto permissão para o prazer, ter informações corretas sobre sexualidade, investir em autoconhecimento e o estabelecimento de relações afetivo-sexuais saudáveis e consensuais, são preditores positivos para prevenir queixas sexuais em mulheres (e homens também).

Algumas condições físicas como alterações hormonais, distúrbios endócrinos, problemas na tireoide, distúrbios neurológicos, lesões da medula ou nervos periféricos e doenças crônicas e debilitantes interferem diretamente na função sexual. Além disso, o uso de algumas medicações hormonais, antipsicóticas e antidepressivas podem também comprometer alguma(s) fase(s) da resposta sexual. Outras condições são fatores de risco, como por exemplo as alterações de humor e outros transtornos mentais, além de idade, obesidade, uso de álcool e drogas.

Outro fator de risco considerado atualmente um problema de saúde pública são os distúrbios de sono. A apneia obstrutiva do sono, uma patologia de alta prevalência na população mundial e que na cidade de São Paulo identificou a taxa de 32,9% (Tufik et cols, 2010) tem sido recentemente investigada como preditor de disfunção sexual. A apneia do sono de moderada à grave prejudica a saúde da pessoa de modo geral e, entre os homens está associada à disfunção erétil.

Um estudo recente conduzido por pesquisadoras(es) brasileiras(os) em distúrbios de sono, e publicado em um importante periódico da área, investigou a possível associação entre apneia do sono de grau leve e risco de disfunção sexual em mulheres. Além disso, avaliou também a presença de humor depressivo e o aumento de índice de massa corporal —o IMC.

"Não foi possível demonstrar a associação do risco de disfunção sexual em mulheres com apneia do sono de grau leve. No entanto, um IMC alto e humor deprimido foram positivamente associados com disfunção sexual. Foi revelado neste estudo que a função sexual estava prejudicada tanto nas mulheres com apneia do sono de grau leve quanto nas mulheres sem distúrbios de sono. Além disso, mulheres sexualmente inativas foram mais propensas apresentar queixas sexuais."

Esse tipo de investigação é importante na medida em que alerta para como fatores ligados a qualidade de vida interferem na saúde sexual. Sono reparador, alimentação saudável, bons hábitos de higiene e atividade física são elementos fundamentais para prevenir uma série de doenças e disfunções. Sobre a associação de IMC alto com risco de disfunção sexual, há que se investigar o quanto a obesidade interfere no sistema cardiovascular, promovendo alteração na função sexual e o quanto ela promove insegurança na avaliação de ser "desejada" e também uma vivência corporal negativa, dificultando a autoaceitação.

Sabemos que para usufruir do prazer do corpo é preciso gostar dele, valorizá-lo. Lembrando que o bem-estar pessoal envolve também o estado emocional, a atividade intelectual, a capacidade funcional, o suporte familiar, a autoestima e autoimagem corporal. Não é à toa que, em se tratando de disfunções sexuais, usamos o termo psicogênica para indicar como as dimensões biológica e psicológica estão em constante interação.

O prazer sexual é uma condição importante para a vida humana. A Organização Mundial de Saúde considera a sexualidade como uma dimensão fundamental e a saúde sexual uma condição necessária para o bem-estar físico, psíquico e sociocultural. Portanto, se você pretende ter vida sexual ativa e prazerosa durante toda a vida, cuide-se.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL