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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que faz alguém "bom de cama"? Juntos há 15 anos, casal dá exemplo

Ter conexão sexual é muito mais do que ser bom de cama - fizkes/Getty Images/iStockphoto
Ter conexão sexual é muito mais do que ser bom de cama Imagem: fizkes/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

10/07/2021 04h00

Heloísa chegou em casa com um desses baralhos sexuais, que fazem perguntas para estimular a conversa de fantasias e preferências entre as pessoas. Fernando, que não é o sujeito mais criativo do mundo sempre revira os olhos, de maneira divertida, como se estivesse dizendo: lá vem você de novo. Mas como Heloísa não é o tipo de mulher que se intimida com resistências envergonhadas, saiu logo pegando as cartinhas para ler em voz alta:

"Por baixo ou por cima?"- "Por baixo"
"Bater ou apanhar?"- "os dois" - Ah...disse Heloisa entusiasmada - devia ter me falado que eu enchia a mão"
"Na sua opinião, qual a minha maior habilidade"? Esperando como resposta algo como "o jeito que você faz sexo oral", ficou admirada, quando ele respondeu: "a sua entrega".

Ser uma pessoa "boa de cama" certamente tem menos relação com a performance. Você pode ser bem-intencionada e até bastante talentosa(o) em práticas sexuais específicas, como o sexo oral, mas nada é mais sexualmente interessante do que fazer sexo com legítima espontaneidade e vontade de se divertir.

Essa capacidade de se entregar a uma relação sexual é uma somatória de vários fatores: permissão interna para o prazer, vivências sexuais prazerosas, autoimagem positiva, consciência corporal, crença na possibilidade de ser alguém desejado e amado. Uma dose de egoísmo é importante para que se busque satisfação individual, tanto quanto generosidade para ser também ao outro uma via de prazer.

Fernando e Heloísa estão juntos há mais de 15 anos, tem 2 filhos e uma relação que já passou por alguns abalos. Eles já enfrentaram instabilidade profissional, dificuldade em gerenciar autonomias e apostar no projeto comum, além de agravos na saúde mental. Tiveram muita dificuldade na comunicação, como boa parte dos casais, até que aprenderam a criar uma linguagem que não pusesse fogo no parquinho em ânimos já acirrados. Aprenderam a respeitar as diferenças e dar valor a jornada conjunta.

O sexo entre eles sempre foi um ingrediente importante. Foram o tipo do casal que transavam várias vezes por dia, trancados no apartamento, o final de semana inteiro. Tem uma química forte e muita afinidade sexual. A relação sexual para eles é encarada como um momento de alegria e desfrute.

Como todos os casais em relações longas, já passaram por momentos de maior e menor tesão, mas a cada relação sexual é como se reafirmassem motivos de estarem juntos: porque se aceitam, se desejam e adoram se aninhar no corpo um do outro. Sempre tiveram uma capacidade invejável de não problematizar desejos individuais, de curtir transas elaboradas e também as rapidinhas, e lamentam juntos, com bom humor, quando percebem a libido sendo vencida pelo cansaço cotidiano.

Todos desejam um(a) companheiro(a) sexualmente competente, mas um(a) parceira de conexão sexual é muito mais do que isso. É alguém que favorece que o seu enredo preferido esteja presente, mesmo que uma só palavra não seja dita.

É lindo ver como Fernando e Heloísa percebem um a linguagem do outro e como, mesmo após tantos anos juntos, alimentam a memória erótica que tem. Embora já estejam com mais de 50 anos, sexualmente se veem como os jovens adultos transantes da época em que se conheceram. Desafiam a lógica da não-monogamia, revelando que sim, para alguns casais o sexo no casamento não é necessariamente uma sentença de morte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL