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Ana Canosa

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A polêmica do Pornhub Classic Nudes e os limites entre o erótico e o pornô

Getty Images
Imagem: Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

03/08/2021 04h00

O Pornhub - uma das maiores plataformas de acesso gratuito de filmes pornográficos - lançou o Pornhub Classic Nudes, uma espécie de "museu virtual" que abriga algumas pinturas famosas, expostas em museus internacionalmente reconhecidos como o Museé D'Órsay, em Paris, o Museo del Prado, em Madri, a National Gallery, em Londres ou o The MET, em Nova York.

Em cada obra, o público encontrará uma síntese com dados do artista e da pintura acrescida de uma série de trocadilhos sexuais. A intenção, me parece, é promover diversão e reforçar como a pornografia também está presente nas artes clássicas desde sempre. Ou como o sexo pode ser uma obra de arte.

Algumas obras como "A Origem do Mundo", de Gustave Courber (1866), foram encenadas por atores pornôs em vídeos rápidos, que dão o tom pornográfico da cena (ou erótico?), hipotetizando o contexto que o artista experienciava ao retratar seus personagens nus. "O Homem Nu", de Edgard Degas (1856), por exemplo, recebe um sexo oral de uma mulher, no melhor estilo: ao ser acordado. Ou "Adam and Eve", de Jan Gossaert (1520), que se masturbaram mutuamente, antes de Adão experimentar o "gosto" da vagina de Eva, que, segundo os criadores do conteúdo de Classic Nudes do Pornhub, foi o que antecedeu a cena retratada na pintura.

Não é unânime a diferença entre erotismo e pornografia, nem quais elementos os caracterizam. A distinção é feita a partir de teorias que buscam compreender, cada qual, por uma ótica singular. Por exemplo, a distinção plástica refere que o erotismo é um conteúdo sexual velado, enquanto a pornografia, por sua vez, o explicita. Reduzir a fronteira a essa única perspectiva gera inquietações.

O pênis de "O Homem Nu" ou as partes íntimas femininas ultrarrealistas expostas na tela "A Origem do Mundo" então, por estarem ali, tornam a obra pornográfica? Talvez, para alguns, a resposta seja positiva; para outros pode ser negativa e para outros, ainda, a preocupação será apenas com o excesso de pelos no púbis da modelo.

Para compreender, de fato, o que está em jogo, precisamos considerar a evolução dos costumes e da moral em cada contexto sociocultural: um beijo na boca já foi considerado pornográfico em outras épocas, e, pode perfeitamente, hoje em dia, passar quase desapercebido em boa parte do mundo. Desde a antiguidade, não só o nu, mas também a relação sexual, foram retratados por meio de desenhos em paredes, papiros, cerâmicas, além de esculturas e pinturas, muito provavelmente para registrar essa dimensão da vida, cultuar a fertilidade, a reprodução humana e o prazer; se tinha também a finalidade de excitar alguém, não dá para saber e, por isso, torna-se difícil classificá-la como erótica ou pornográfica.

Além disso, é importante ter presente a possível diferença atribuída aos termos no campo comercial: enquanto o erótico está a serviço da arte, o pornográfico está a serviço do consumo. Aliás, socialmente conferimos um "teor" mais nobre ao erotismo, em contraposição com o caráter dito "vulgar" da pornografia. Justamente por isso, não foram poucas as críticas ao Pornhub, principalmente devido à intenção de, na visão de muitos, querer aproximar a arte da pornografia.

Ainda mais uma pornografia que tem inimigos ferrenhos e enfrenta grandes problemas pelo modelo de negócio: por se tratar de uma plataforma de acesso gratuito, com vídeos de milhares de fontes diferentes, o Pornhub está sendo investigado e processado por permitir a divulgação (ou ao menos não conseguir barrá-la) de vídeos de pedofilia, ou outros nos quais há sabidamente envolvimento de escravidão sexual e violência contra mulheres e por não ter a devida permissão dos museus para uso das obras. Diante da iniciativa de Classic Nudes, ganhou mais processos, agora dos museus, já que não foram consultados para dar permissão necessária a utilização das obras.

Em tom provocativo, o Pornhub divulga que o seu tour guiado é muito mais divertido do que os maçantes audio guides à disposição dos visitantes nos museus. Golpe baixo, claro, porque não há distinção possível a ser feita neste caso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL