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Ana Canosa

Vibrador foi estopim de crise entre casal: entenda por quê

Em vez de ciúmes, a sugestão de usar um vibrador causou inveja em parceiro - Getty Images
Em vez de ciúmes, a sugestão de usar um vibrador causou inveja em parceiro Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

24/11/2020 04h00

Quando Luana entra consultório adentro, ela chega sempre entusiasmada e curiosa. Ela é uma pessoa extrovertida, carismática, que escolhe olhar para o mundo com as lentes do otimismo. Foi ela que arrastou Rafael para a terapia de casal, depois de muitos meses tentando convencê-lo de que sozinhos não estavam conseguindo reverter a situação, uma disfunção erétil que teimava em aparecer nas vezes que iam fazer sexo.

Diferente de Luana, Rafael é introvertido, de olhar desconfiado. É um homem sistemático e responsável, sempre preocupado com as tarefas, contas, regras de etiqueta. Um bom exemplo do funcionamento oposto é quando vão em uma festa: enquanto Luana conversa com todo mundo e só lembra de voltar para casa quando todos já se foram, enquanto Rafael fica pedindo para ir embora, pois como é diligente com os horários, precisa dormir o suficiente para produzir no dia seguinte.

Foram incontáveis as vezes que discutiram por essa diferença na vivência dos prazeres: enquanto ela tenta estender o tempo para aproveitar mais um pouquinho, sejam as saídas, as conversas, as festas, o prazer dele está em cumprir tudo com tempo pré-determinado.

"No começo de um relacionamento tendemos a acomodar melhor estilos diferentes e somos iludidos pelo funcionamento de uma certa complementariedade psicológica. As diferenças nos são atrativas porque parecem acalmar nossas faltas e também os nossos excessos. A paixão faz com que o outro nos espelhe um ideal e traços de personalidade com frequência estão sobrepostos pela simbiose, o que dificulta a sua percepção".

Luana lembra que quando conheceu Rafael, foi justamente o que ela entendia como "discrição" o que mais lhe chamou a atenção. Ele de pronto se apresentou como esse homem de valores sólidos, inteligente e responsável, com domínio de suas coisas, precavido. Enquanto ela tinha a maior dificuldade de manter a sua conta bancária no azul, ele investia cada centavo. Enquanto ela tinha a maior dificuldade de conseguir manter a frequência na academia, ele acordava religiosamente às 5h da manhã para correr no parque, preparar o café da manhã, tomar banho e ir trabalhar. Por outro lado, Rafael se encantou pela forma como Luana era solta e "aproveitava" a vida, como resolvia as coisas baseada na vontade do momento, e o quanto ela era encantadora e espontânea.

O problema começou a acontecer, um ano e meio depois, quando foram morar juntos. Já menos apaixonados, as pequenas diferenças na maneira de lidar com a vida passaram a incomodar Rafael. Primeiro ele começou a criticar tudo que ela fazia em casa, fosse a maneira de guardar os pratos ou arrumar os sapatos no armário. Depois ele passou a criticar o jeito que ela falava ao telefone, que ele achava expansivo demais, as roupas que ela usava, que ele considerava espalhafatosas, ou a maneira que ela se portava diante dos outros, que ele dizia não eram condizentes com a sua posição no trabalho.

Na cama, os dois faziam um bom sexo, mas que seguia um certo script que deixava Luana insatisfeita. A coisa complicou quando certa vez ela, durante os primeiros beijos e carícias, resolveu pegar no armário, toda animada, um sex toy que havia comprado para incrementar a atividade sexual entre os dois. Rafael não só broxou como passou os próximos 10 minutos dizendo que eles não precisavam disso, o que ela estava pensando, onde havia comprado, com quem, etc, etc, etc. A relação sexual dos dois nunca mais foi a mesma.

Luana tinha a impressão de que Rafael tinha ciúmes dela, embora ele não fizesse acusações sobre o interesse dela por outras pessoas. Ao longo de nosso trabalho, foi ficando claro que o sentimento dele não estava relacionado com o fantasma de um terceiro elemento, mas com as características de Luana.

"Muitas vezes a inveja é travestida de ciúme. A vigilância constante do comportamento do outro tem relação com a dor psicológica sentida na comparação, ao avaliarmos, nosso valor, a autoestima e o autorespeito, que com frequência se apresentam diminuídos em relação ao outro que avaliamos ser superior."

No caso de Rafael, ele invejava a capacidade dela de atrair as pessoas com seu carisma, sua espontaneidade fosse na maneira de se vestir, expressar ou se comunicar e a capacidade de abandonar-se para o prazer.

O vibrador tinha sido a gota d'água, pois fez Rafael se sentir ainda mais diminuído.

Reconhecer a inveja como um sentimento bastante comum, não é algo fácil. Parece o pecado mais difícil de declarar, ninguém diz cometer. Alguns se declararão menos culpados, quando a inveja está mais ligada a admiração; outros talvez a neguem e há os que declaradamente querem destruir os que possuem o que falta em si. Rafael, por exemplo, não havia percebido que o controle sobre o comportamento de Luana tinha mais relação com evitar o que evidenciava as suas próprias limitações.

Luana e Rafael continuam trabalhando a sua relação, tentando mediar melhor seus traços de personalidade e jeitos de levar a vida. À medida que ele foi se reconhecendo como um homem também interessante e merecedor de admiração, os episódios de perda de ereção foram ficando cada vez mais raros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.