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Ana Canosa

Até que ponto é preciso revelar nossas inseguranças ao parceiro?

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Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

12/11/2020 04h00

Pergunta do leitor: Você acha que em uma relação heterossexual o homem deve expor para a parceira suas inseguranças e preocupações com seus próprios pontos fracos, como por exemplo ganhar menos do que ela? Acha que isso pode fazer a mulher perder o interesse (sexual ou não)? Existe algum limite sobre o que se deve conversar?

Eu poderia colocar na conta do machismo a sua preocupação, principalmente quando você usa o exemplo de ganhar menos que a sua parceira. A insegurança se instala quando se pensa que está se afastando do modelo de masculinidade hegemônica, aquele básico do patriarcado que associou poder a dinheiro e, portanto, subalternidade aos que ganham menos e no qual a competitividade é uma característica esperada e a rivalidade, reforçada diante de um cenário patriarcal.

Como homem, mesmo que pense diferente e esteja se desconstruindo, imagino que o machismo estrutural, internalizado em você, tenha acendido a sua luz amarela da insegurança: será que agora que ela é a rainha da cocada - vai trocar você por outro, mais bem-sucedido? Vai deixar de considerar suas ideias? Vai mandar em você e na relação?

Temas que envolvem dinheiro, posição social e sexo são sensíveis e remontam desigualdade e assimetria de direitos entre os gêneros. E sim, verdade seja dita, muitas mulheres podem de fato reagir com estranheza, já que também cresceram nessa cultura perpetuando o machismo, pois são frutos desta opressão tanto quanto os homens.

Mas eu penso que, se você se sentir confortável e deseja conversar sobre isso com ela, seja aberto e transparente e busque demonstrar muito mais de um homem do que só corresponder ao perfil tradicional estabelecido. Eu estou aqui torcendo para que ela seja essa pessoa aberta, que vai ficar feliz com a sua verdade, pois se der ruim eu me decepcionaria -com ela, jamais com você.

Mas não acho que o fenômeno da insegurança diante da vulnerabilidade seja uma prerrogativa só masculina. Não somos bons em expor fragilidades.

Vivemos na tal sociedade do espetáculo, onde todo mundo parece incrível e explicita a melhor versão de si mesmo, a conquistar admiração e inveja. Estamos todos na prateleira, uns logo na frente, mais à mão dos "consumidores" ou expostos em destaque.

Outros estão lá no fundo, ou bem abaixo, quanto menos se encaixam nos padrões de sucesso estabelecidos, baseados na identidade de gênero, no status, na conta bancária, na raça, na idade, na estética, na orientação sexual. Mas é evidente que o custo emocional por esse modo de funcionamento tende a ser alto, pois no final todos queremos ser acolhidos em nossa inteireza, para além do que temos e do ideal que alimentamos. No fundo, o ser humano é um poço de incertezas e contradições.

Ser vulnerável é um ato de coragem, já disse Bené Brown. Em seu livro "A coragem de ser imperfeito", ela tem uma frase sensacional: "Abrir mão de nossas emoções por medo de que o custo seja muito alto significa nos afastarmos da única coisa que dá sentido e significado à vida". Como criar intimidade emocional, um dos pilares do relacionamento, sem que o casal acolha a emoção do outro?

Temos um problema grave em processos educativos binários, onde só há o certo e o errado, o azul ou o verde, o bom e o mau. Aprende-se desde sempre a esconder, manipular, fingir, mentir - para driblar punições pelas transgressões cometidas. Perdemos a espontaneidade, não sabemos lidar com emoções negativas e com frequência nos escondemos dos outros e de nós mesmos.

Desde muito cedo, como consequência disso, aprendemos a usar o julgamento como ferramenta de "cuidado" e controle. Você está errado, não eu. Você é inseguro, não eu. A projeção é um dos mecanismos de defesa mais usados nas relações por quem não quer entrar em contato com a sua própria dor.

Se você já identificou sua fragilidade, sinal de maturidade. Entendo que você tenha receio de ser julgado, mas resistir à vontade de se abrir para sua namorada, a meu ver, é sinal de involução.

Agora, você me pergunta se há limites. Eu não sou ingênua a ponto de dizer que não guardamos só para nós determinados sentimentos, pensamentos e ações. Temos nossa sombra, que não precisa ser totalmente revelada, principalmente quando ela não vai mudar nada na relação e só nos diz respeito. Pode ser de fato que a outra pessoa não dê conta de acolher determinadas verdades, ou de saber sobre nossos pontos mais obscuros e frágeis.

Também é bom reforçar que há quem deposite no parceiro a fortaleza necessária e descarregue toda a sua insegurança existencial. Daí fica difícil suportar. Não me parece seu caso. Eu, se fosse você, abriria o coração e ainda avaliava se a sua namorada acolhe você. Se ela perder o interesse, só por isso, acho que vale a pena rever a sua escolha.

Quer que Ana Canosa analise sua dúvida em sua coluna? Mande perguntas para universa@uol.com.br com o assunto #sexoterapia. Mantemos o anonimato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.