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Ana Canosa

Quando o risco da ameaça de uma traição acende o desejo sexual pelo outro

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Imagem: Getty Images
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Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

17/11/2020 04h00

Minha amiga Elenice fez aniversário na semana passada. Como ela mora em outra cidade, resolvi enviar um presente, afinal não se faz 60 anos todo dia. Para marcar a data, juntei nosso grupinho de mulheres. Buscamos algo que representasse a importância dela em nossa vida e achamos que uma joia faria justiça.

Elenice é essa pessoa com quem você pode contar sempre, que tem um bom humor invejável, que sabe construir intimidade emocional como ninguém, pois se permite abertura e expressa emoções na medida certa. Elenice sempre vai chorar quando a situação lhe toca o coração positivamente, vai te ouvir com atenção quando você está aflita, vai fazer você se sentir humana quando está se sentindo a pessoa mais miserável do mundo, vai também falar dela, para você não se sentir sozinha em seu drama pessoal.

Ela vai pegar uma história que a gente viveu e dramatizar de tal maneira, que a família fica esperando ela voltar de todas as nossas memoráveis viagens só para ela divertidamente contar como um leão-marinho quase nos atacou em uma viagem de barco, ou como um pinguim nos seguiu, querendo que ser levado para casa.

Comprei o presente no site de uma conhecida joalheria e mandei entregar na casa dela. Como todo e-commerce que se preze, você vê ali um 'para presente', mas não acha onde pode colocar uma mensagem que acompanhe o regalo.

No dia do aniversário, estranhei que ela não estava falando nada sobre o assunto, mesmo que eu tenha recebido mensagem de que o presente já havia sido entregue.

À noite liguei para dar parabéns e investigar. Não demorou para ela me contar que, no dia anterior, quando chegava em casa com o namorado, o porteiro lhe entregou o correio. Animada como sempre, abriu uma caixa e lá estava o nosso presente, sem cartão ou remetente. Foi o pontapé inicial para a confusão.

A joalheria estaria fazendo uma promoção dessa natureza, sem cartão explicativo? Certeza que não. Entregaram errado? Mas era o seu nome no destinatário. O namorado, que nem é esse cara ciumento, fez logo a associação joia-sexo e ficou ensimesmado, vai ver ela está tendo um caso com alguém.

Somos todos seres condicionados. Desde muito cedo aprendemos que os significados emocionais devem corresponder a determinadas expressões, ações, imagens e objetos. Nem passou pela cabeça dele ou dela que a joia fosse presente de amiga — afinal, que amizade valeria o tanto desse valor?

Há momentos na vida no qual as amizades ficam expressivamente mais importantes. Na adolescência os amigos são os que nos ajudam a desenhar o mapa, apontam caminhos e os testam conosco. Na maturidade, os amigos são a bússola que nos ajuda a voltar ao ponto de descanso, que carregam o cantil, colhem as flores e torcem para que a gente chegue lá, seja onde for esse lugar.

Quanto mais velhos, mais percebemos que nenhuma relação amorosa substitui amores fraternos. Eles são os "terceiros" da relação, com quem podemos, inclusive, dividir angústias amorosas e dilemas relacionais. Há quem tenha até ciúme da relação que as parcerias tem com os amigos, tal a intimidade, a cumplicidade e o compartilhamento de ideias e momentos de prazer. Não era o caso do namorado da Elenice, que sempre incentivava nossas viagens e aventuras. Mas, embora ele seja um cara que tenha e valorize seus amigos, não costuma dar joias para eles...

A possibilidade de que um terceiro elemento esteja rondando a vida da Elenice, como acontece com muitos casais, acionou a luz amarela de atenção. O namorado que é um cara maduro, divertido e tranquilo, não ia fazer um chilique sem provas, armar um barraco àquela altura da vida. Mas, como também acontece com a maioria das pessoas que se deparam com um rival, mesmo ilusório, o tesão foi a mil. Raiva e desejo se misturam e ele resolveu ser muito mais interessante que qualquer macho desse planeta.

Ele resolveu promover um final de tarde inesquecível, assim a tal joia seria insignificante diante de um sexo maravilhoso. Assistiu a um vídeo de sexo tântrico pela internet e chamou Elenice para ir à casa dele, no dia seguinte, antes do jantar de aniversário que ela havia marcado com alguns poucos amigos e familiares.

Recebeu-a com uma túnica branca, todo cheiroso e conduziu a namorada ao quarto dele. Velas ambientavam o local, música, aroma cítrico no ar. Vendou a Elenice, sob protestos, pois ela tinha feito o cabelo e ia estragar a make, mas ele estava decidido a ser o melhor amante de toda a vida.

Pior foi quando ele lambuzou o corpo dela com óleo de massagem, ela pensou no trabalho que ia dar para tirar e eles não tinham tanto tempo assim. Afinal, era seu aniversário, ela tinha convidados, e os homens têm essa mania de querer transar nas horas mais inapropriadas. Por outro lado, fazia tempo que ele não estava tão enigmático, sensual e disponível, o corpo começava a responder positivamente, e a Elenice resolveu se abandonar ao prazer. Que dia!

Nós, as amigas, decidimos, ao menos por hora, não acabar com a festa, revelando o remetente —preferimos manter o efeito afrodisíaco no casal. Amigas são para essas horas também.