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Sabia que o 'loading' de apps e jogos geralmente é falso? Entenda o truque

Barra de loading de apps e jogos geralmente são truques de programadores - Getty Images/iStockphoto
Barra de loading de apps e jogos geralmente são truques de programadores Imagem: Getty Images/iStockphoto

Aurélio Araújo

Colaboração para Tilt, de São Paulo

08/07/2023 04h00Atualizada em 09/07/2023 10h35

Você com certeza já abriu um game ou um aplicativo e teve que esperar uma barrinha encher para que o programa pudesse ser carregado. Mas o que você talvez não saiba é que provavelmente essa barra de progresso é falsa, e não representa de verdade o carregamento de dados do software.

Parece estranho, mas a explicação por trás disso está no efeito que essa barra tem na chamada experiência do jogador (ou usuário, no caso de um app). Testes realizados pelas empresas que desenvolvem aplicações mostram que as pessoas não confiam que os dados foram carregados corretamente caso a barrinha seja completada de forma suave, sem parar por alguns instantes.

Eu já trabalhei em projetos em que criamos barras de progresso falsas, aumentamos o tempo de carregamento, ou fizemos barras de progresso se mexer de maneira irregular. Acho que nunca criei uma barra de progresso correta e coerente. Rami Ismail, desenvolvedor holandês de games como "Nuclear Throne" e "Ridiculous Fishing", em post no Twitter

Eu nunca trabalhei num game que não usasse uma barra de progresso falsa. As verdadeiras induzem à ansiedade. Raúl Rubio Munárriz, desenvolvedor espanhol de games como "Song of Nunu: A League of Legends Story"

Mas, afinal, por que isso é tão comum?

Dificuldade de estimar tempo

De acordo com Leonardo Pereira, doutor em Ciências de Computação e Matemática Computacional e professor no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), existem variáveis que impedem a criação de uma barra de progresso totalmente precisa.

"Quando está fazendo um jogo, a gente não consegue saber com certeza quanto tempo vai demorar para carregar coisas como modelos, texturas e outros conteúdos [do game]", explica Pereira. Ele diz que podem afetar o tempo de carregamento:

  • diferenças em sistemas operacionais, como Windows e Linux,
  • motor de jogo utilizado,
  • ou até na velocidade de internet (caso seja um game on-line).

"Às vezes, até funciona bem, aí chega em 90%, dá uma travada e só quando termina de carregar é que ele devolve os dados. São questões que vão além do programador."

Carregando por objetivos

Se uma barra de progresso fosse realista, poderia passar a ideia de algum tipo de travamento ou falha no carregamento caso seu preenchimento parasse por muito tempo em uma determinada porcentagem.

A barra de progresso dificilmente é constante. Algumas partes de um jogo, como um cenário que você esteja carregando, são muito mais pesadas do que outras. Se chega em um momento em que tem alguma coisa muito pesada, ela pode ficar parada por muito tempo, e o jogador pode pensar 'o que será que está acontecendo aqui?'' Fábio Martins, diretor da Pulsatrix Studios, desenvolvedora de games de São Paulo

Para resolver isso, alguns desenvolvedores se utilizam de "objetivos" no código da barrinha. Então, quando carregam uma determinada parte do código, fazem ela chegar a um número específico de porcentagem de preenchimento da barra, como 20, 30 ou 40%.

"[O preenchimento] Não vai depender do tempo, mas sim do progresso dos conteúdos. Por isso, ela [a barra] dá esses pulos de vez em quando", diz Pereira, professor da USP.

Quando a esmola é demais, o santo não desconfia

Essa não é a única explicação para forjar uma barra de progresso falsa. Em alguns momentos, o programador quer deliberadamente "enganar" o jogador ou usuário.

Jogos 'indie' ou 2D muitas vezes não demoram tanto para ter seus conteúdos carregados. Só que se você carrega de uma vez, o pessoal estranha, porque não tem uma tela de carregamento. Então, tem desenvolvedor que cria telas falsas, só para dar aquela sensação de 'uau, o jogo é pesado, de qualidade, bem grande'. Às vezes, o usuário tem essa coisa de associar jogo pesado com ele ser bom. Leonardo Pereira, professor no ICMC-USP

A empresa de Martins já emplacou games no Playstation e no Xbox. Para chegar até essas plataformas, os jogos precisam passar por uma certificação das empresas, como Sony e Microsoft. Os testes obrigatórios consideram questões como telas paradas por muito tempo.

"A tela não pode ficar estática por alguns segundos. Ter a barra se movendo já evita isso. Eles criam um padrão para os jogos de cada console, e precisa seguir essas regras", diz o diretor da Pulsatrix Studios.

Truque comum

Criar sensações falsas em jogadores de games ou usuários de apps é, aliás, um recurso bastante comum para "suavizar" a experiência. Um desses truques é o "Coyote time" (tempo do coiote), em referência ao personagem dos desenhos dos Looney Tunes que sempre se dá mal ao caçar o Papa-léguas.

Isso porque, no desenho animado, quando o Coiote chegava correndo a um penhasco, ele chegava a dar alguns passos no ar. Só então olhava para baixo, percebia onde estava e caía. Em jogos de plataforma, um truque similar ocorre quando um personagem corre e salta, explica Pereira. Exemplo disso são os jogos do Mario.

Se você simplesmente programa a física do jogo para que, o personagem caia ao passar de um ponto, o jogador não gosta. Fica muito punitivo, e o jogador começa a achar injusto. Por isso, o jogo é programado para que, quando o personagem sair da plataforma, ter um tempinho para apertar o botão de pulo e se salvar em vez de cair de uma vez. Leonardo Pereira, professor no ICMC-USP