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Fim do Uber Eats no Brasil: mudança global e treta com iFood podem explicar

Lucas Carvalho

De Tilt, em São Paulo

10/01/2022 10h47Atualizada em 10/01/2022 16h31

O anúncio de que a Uber não vai mais intermediar o delivery de comida no Brasil através da plataforma Uber Eats caiu como uma bomba no setor. E não faltam possíveis explicações.

Em nota, a Uber disse que o fim do delivery de comida foi uma "mudança estratégica" decidida com a intenção de focar os negócios da empresa no país em entrega de compras de supermercado, pelo serviço Cornershop, e de pacotes, pelo Uber Flash e Direct.

O timing da mudança, porém, levantou suspeitas. O anúncio ocorreu um dia depois do presidente Jair Bolsonaro (PL) sancionar uma lei que obriga os aplicativos de delivery a pagar auxílio aos entregadores em casos de acidentes durante o trabalho e de contaminação por covid-19.

No mesmo dia, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) ligou o fim do Uber Eats no Brasil a um processo movido por restaurantes e aplicativos de delivery contra o iFood no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

A culpa é do iFood?

Desde 2020, o iFood é acusado de monopolizar o mercado de delivery através de contratos de exclusividade com restaurantes. Segundo rivais como a Rappi, que abriu o processo e logo foi seguida por Uber Eats e outros apps, o iFood impede o crescimento dos rivais com essa estratégia.

"Ficamos em alerta máximo especialmente pelos motivos aventados: a dificuldade de transpor as barreiras impostas pela empresa líder desse mercado", afirma o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, em nota enviada a Tilt.

"Embora essas hipóteses ainda não estejam confirmadas [de que a culpa da saída do Uber Eats do Brasil é do iFood], o fato da Uber Eats ter encerrado as atividades apenas por aqui é um indicativo de que esse mercado esteja adoecido, precisando de um remédio mais forte."

Segundo Solmucci, o remédio mais forte seria a implementação do padrão Open Delivery, iniciativa da Abrasel apoiada pelas empresas de aplicativos que disponibiliza um código aberto para padronização de cardápios e pedidos online.

Em nota, o iFood disse que não comenta "decisões de negócio de outras empresas", mas rebateu a acusação de que monopoliza o mercado: "o setor de delivery online segue em constante evolução com a entrada frequente de novos competidores e o surgimento de novos modelos de negócios".

"Essa competição intensa favorece restaurantes, entregadores e consumidores, e promove mais inovação para todo o ecossistema", completa o iFood. A empresa diz também que "as suas políticas comerciais estão em estrita conformidade com a legislação concorrencial" e que "segue cooperando com as autoridades responsáveis".

Em março de 2021, o Cade concedeu uma derrota ao iFood e proibiu que a empresa firmasse novos contratos de exclusividade até a conclusão do processo, que não tem prazo para chegar a um veredito. Tilt apurou, no entanto, que apenas 9% dos restaurantes na plataforma do iFood são exclusivos —o índice chegava a 12% antes da proibição do Cade.

Motoboys não ligam

Para os entregadores parceiros, a notícia da saída do Uber Eats do Brasil chegou por uma notificação no celular, segundo Edgar "Gringo" Franscisco da Silva, presidente da Amabr (Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil).

Para Gringo, a explicação para a saída do Uber Eats é outra. "Acredito que está indo embora porque está ficando difícil de manter esse negócio exploratório onde só a empresa ganha dinheiro e o entregador, embora trabalhe muito, não vive com dignidade", disse a Tilt.

O representante dos motofretistas lembra que o Uber Eats recentemente teve que prestar depoimento na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Aplicativos na Câmara Municipal de São Paulo, grupo que investiga a relação entre as empresas e os entregadores parceiros.

"Acredito que possa ter algo a ver com a CPI da cidade de São Paulo e a lei que foi assinada [pelo governo federal]", diz Gringo. "A categoria não está perdendo nada com essa empresa indo embora, pois ela é uma das que desvalorizou o serviço de entregas."

Não foi só no Brasil

Entre as empresas de delivery, outra explicação ventilada é a de que o negócio de entrega de comida simplesmente não estava dando o retorno esperado à Uber. Desde 2020, o Uber Eats deixou de operar em países como Índia, Egito, Arábia Saudita, Uruguai, Argentina e Colômbia, entre outros.

Antes disso, em 2016, a Uber vendeu sua operação de entrega de comida na China à gigante rival local Didi Chuxing, que é dona da operação brasileira do app 99. Para a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a empresa explicou que tratava-se de uma estratégia global.

"Essas decisões [de encerrar operações em diversos países] foram tomadas como parte da estratégia contínua do Uber de estar na primeira ou na segunda posição em todos os mercados do Eats, aumento o investimento em alguns países e saindo de outros", declarou a empresa na época.

Para analistas do mercado, a decisão da Uber de cortar investimentos em alguns países sinaliza para os investidores que ela está disposta a fazer sacrifícios para finalmente ter lucro.

Desde março de 2020, quando a Uber anunciou que não faria mais entrega de comida em sete países, o valor das ações da empresa na bolsa de valores de Nova York subiu 94%, após atingir seu valor mais baixo desde a abertura de capital em 2019.