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Existe uma rede social para médicos, mas é cheia de fake news sobre vacina

Foto: Shutterstock
Imagem: Foto: Shutterstock

Marcella Duarte*

Colaboração para Tilt, em São Paulo

13/08/2021 13h01

A rede social Doximity deveria ser como uma espécie de LinkedIn apenas profissionais da área médica dos Estados Unidos. Mas nem eles estão imunes à desinformação: a plataforma também foi invadida por fake news envolvendo as vacinas contra covid-19.

Ainda que não cheguem no nível "microchips implantados" ou "conspiração chinesa", há diversos comentários antivacina e contra o uso máscaras. São alguns dos próprios médicos dizendo falsamente que os imunizantes são experimentais, não comprovados ou mesmo mortais — o que não é verdade e vários estudos científicos estão aí para provar.

Há, por exemplo, textos dizendo que as vacinas desenvolvidas com a tecnologia de RNA mensageiro (como as da Moderna e da Pfizer-BioNTech) são menos efetivas. Isso é mentira e afirmações como essa já foram refutadas por diversos testes clínicos, que comprovam a efetividade e segurança de todos os imunizantes aprovados.

A rede social Doximity tem se popularizado e já conta com 1,8 milhão de membros, incluindo 80% dos médicos dos Estados Unidos. Todos precisam se identificar. Eles usam a plataforma para se conectar, compartilhar pesquisas, divulgar as novidades da indústria e até para se comunicar de maneira segura com os pacientes e fazer teleconsultas.

Mas, no meio de tanta coisa útil, é possível encontrar ainda comentários falsos como este: "As vacinas de covid-19 já mataram mais de 4.000 adultos que as receberam", escreveu um cirurgião. "Determinar uma vacinação que já matou mais de 4.000 é o mesmo que assassinato."

Espalhar desinformação e teorias conspiratórias é ainda mais prejudicial durante a onda negacionista que os EUA atravessa. Mesmo com vacinas amplamente disponíveis, estima-se que um terço dos adultos norte-americanos não querem se vacinar contra o novo coronavírus.

Moderação de conteúdo

Combater a desinformação médica é um desafio para o Doximity, em sua missão de levar conteúdo de qualidade para os profissionais da saúde, ainda mais cnsiderando que os temas discutidos na plataforma são de vida ou morte, e que não se trata de uma rede social aberta.

Para se cadastrar, é preciso comprovar ser um profissional de saúde ativo: enviar registro médico e crachá do hospital em que trabalha, além de responder algumas perguntas. Logo, isso dá mais credibilidade entre os participantes. Porém, como já visto, nem todos os médicos parecem acreditar na ciência.

Como a rede social funciona

Como o LinkedIn, a plataforma lucra com conteúdo patrocinado de recrutadores, empresas farmacêuticas e instituições de saúde que procuram talentos. Mas, diferentemente das principais redes, o Doximity não permite que as pessoas façam suas postagens.

Os posts são compartilhados pela própria companhia, a partir de notícias da grande imprensa, textos de sites especializados e publicações de revistas científicas, entre outras fontes confiáveis. O feed de cada usuário é abastecido por um algoritmo, de acordo com sua área de atuação e detalhes pessoais.

Os membros podem, apenas, comentar nesses posts — e é aí que a desinformação tem se proliferado. Junto com conteúdo interessante, pode haver uma chuva de comentários distorcendo o assunto. Por exemplo, em um artigo recente sobre a necessidade de crianças usarem máscaras, um cirurgião comentou que isso era "absolutamente ridículo e uma forma de abuso infantil". Outro disse que "50 anos de dados acumulados pela OMS demonstraram que máscaras não fazem qualquer diferença."

Fake news sem qualquer embasamento, visto que diversas organizações de saúde repetidamente afirmam que as máscaras e o distanciamento social são as maneiras mais efetivas de barrar a transmissão, inclusive recomendando os melhores modelos para tanto. E, com o risco das novas variantes e um novo aumento no número de hospitalização nos Estados Unidos, o uso de máscaras voltou a ser obrigatório.

Nas regras da comunidade do Doximity, são listadas 11 situações que podem fazer um conteúdo ser removido, incluindo "Espalhar informação falsa ou enganosa" e "Conteúdo que contradiga diretrizes de saúde pública amplamente aceitas".

Existe ainda um capítulo de normas específico sobre a pandemia: "alegações não verificadas sobre a eficácia, efeitos colaterais ou implicações da vacinação" e "dados falsos sobre mortes, hospitalizações, taxas de infecção associadas a doenças infecciosas".

O risco, além de ser banido da plataforma, é ser denunciado ao conselho de medicina do país, sob pena de perder o registro médico. E já há profissionais antivacina alegando que estão sendo "silenciados" pelo Doximity.

*Com reportagem do site "NBC News"